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04 de junho de 2014, 18h08

Brasil na sua multiplicidade: Pedagogia autóctone

Texto e foto por Valdemar Figueredo Filho
Visitei a Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Manoel Magalhães Nogueira. Fui informado que as crianças seriam liberadas mais cedo. O motivo? Os suprimentos da merenda haviam terminado, faltando ainda dez dias para o fim do mês.
Tive o prazer de conversar com uma professora. Visão romântica da “professorinha” do interior que se doa para oferecer o que geralmente não teve. Na conversa com a colega, soube que ela ensina língua inglesa, física e biologia. Superdotada? Não. Multitarefa do acúmulo do déficit social.
Os barcos como transporte escolar, o único meio possível. Navegar no Rio Canaticu é preciso. A Escola é um lugar de encontros. Antes de abordar temas e saberes, o ambiente escolar promove encontros humanos. Fundamental. A tarefa da Educação fascina. Talvez emocionado pelo estranhamento de algo que me soa tão familiar, o fato é que nada me falou tão alto nesta viagem exploratória como a sala de aula e os seus arredores.
De repente me ocorreu um baita orgulho dos educadores Anísio Teixeira, Paulo Freire, Milton Santos e Darcy Ribeiro. A pedagogia que exalta o caráter local. Esse quarteto ainda soa como pensadores utópicos. Grandeza de olhar o Brasil na sua multiplicidade. Pedagogia autóctone. Saudade desses intelectuais de grandeza internacional justamente porque pensaram a educação tupiniquim. Por uma outra globalização e por outra civilização.
Os cachorros andam soltos pelos corredores escolares. Ameaçadores? De forma alguma. Fazem parte da comunidade. Festejaram a saída das crianças. Interação bela.
Sobre forma e conteúdo. É sério que uma criança de sete anos em Curralinho (PA) deve estudar o mesmo conteúdo que um menino de sete anos em Camboriú (SC)? Qual o comitê capaz de estabelecer o que é importante para as crianças saberem?
Pelo que vi e ouvi na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Manoel Magalhães Nogueira, desconfio que essa história de currículo unificado trata-se de um galantismo etnocêntrico.
Competição como fator indutor do aprendizado. Que absurdo. Parâmetros de aprendizado absolutamente arbitrários. Aberração com resultados destrutivos para indivíduos que crescem sob efeito de “anabolizantes” intelectuais. Indução de uma sociedade “selvagem” que não conhece e não reconhece a especificidade das populações da floresta.
Neste ambiente, conceber a competição entre as escolas através de olympiadas soa como malabarismos burocráticos malditos. A doentia necessidade de mensuração e criação de ranques também atende como imbecilidade empacotada.
As crianças ribeirinhas desfrutam de uma inteligência aplicada às suas realidades. Desenvolvem habilidades em resposta ao seu ambiente cultural. Daí os burocratas escolares e os filósofos da educação figurarem como seres anacrônicos quando desrespeitam as singularidades em nome de unificações. Os mesmos, no afã de ensinar, se esqueceram de aprender. Consultores pagos para apresentar respostas caras, sem tempo para o trabalho de campo.


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