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18 de outubro de 2016, 14h45

O Príncipe de Higienópolis entre milícias e mercenários

Parece que a cúpula do PSDB entrou no golpe já pensando na maneira mais adequada de sair. No dia em que o Michel Temer assumiu como interino a Presidência, o FHC deu o tom dizendo que, se não cumprisse as expectativas, o PSDB deveria “cair fora” (Jornal O globo, 13/06/2016).
O Temer surpreendeu negativamente aos ilustrados? Quebrou acordos? Decepcionou os seus fiadores? Não, para os comissários dessa República excepcional, o Temer não está decepcionando.
O surto de modernizações ocorre numa velocidade que nos leva a concluir que nada foi planejado a toque de caixa. Projetos momentosos que não foram fruto de improvisos. Faltava alguém com coragem suficiente para executá-los ou um grupo tão desgastado que não tivesse mais nada a perder. Entrou em cena o PMDB de Temer, Cunha, Calheiros e Jucá.
Exemplos da celeridade de pauta bomba que agora é chamada pela propaganda oficial de Ponte para o futuro:
1 – A Câmara dos Deputados retira da pauta a votação do projeto de lei (PL) 1210/2007, que seria votado em regime de urgência, 10/09/2016. Motivo: Protestos denunciavam que a tentativa de criminalizar a prática de caixa 2 seria adulterada para o seu oposto, anistiar a quem incorreu na prática. Temer se disse surpreso com a declaração de seu Ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima (PMDB), favorável à proposta que anistia a prática de caixa 2 em campanhas eleitorais.
2 – O Plenário da Câmara aprova no dia 05/10/2016: Projeto de Lei 4567/16, do Senado, que retira a obrigatoriedade de a Petrobras ser a operadora de todos os blocos de exploração do pré-sal no regime de partilha de produção.
3 – O Plenário da Câmara aprova no dia 11/10/2016: PEC do Teto dos Gastos Públicos (Proposta de Emenda à Constituição 241/16), limite para os gastos federais para os próximos 20 anos.
4 – Previsto para ser apreciado pelo Plenário da Câmara depois do segundo turno das eleições municipais: Reforma da Previdência. O Ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), previu que tudo estará aprovado até o primeiro semestre de 2017.-
Conforme Raymundo Faoro registrou no Os donos do poder, essas modernizações ocorrem pelas imposições das elites incrustradas no Estado e nada tem a ver com o liberalismo democrático. Trata-se da confissão de que o Estado é patrimonial. Reformas das elites para as elites. As consultas populares são por pura formalidade.
Na ilustração de Faoro para caracterizar as modernizações do Estado Patrimonial: “Remendo novo em pano velho; vinho novo em odres velhos”. As rupturas em questão são festejadas como desenvolvimentistas, mas não promovem a emancipação da nação. As estruturas continuam intactas, contudo, recebem um verniz.
O Príncipe de Higienópolis certamente leu O Príncipe. Maquiavel trata no capítulo XII sobre “Os vários tipos de milícias e dos soldados mercenários”. Essas forças não são fiéis. Obedecem a quem paga melhor. Aliados de hoje darão o golpe amanhã. Daí usá-los e descartá-los na hora certa.
Neste cenário, o conluio reformista assemelha-se ao “coelho” das corridas de longa distância. O “coelho” dispara no pelotão de elite sabendo que percorrerá a distância que for possível. Não disputa pódio, mas induz o ritmo da prova. Ele sacrifica a vitória potencial mantendo um ritmo alucinado, fora da frequência responsável, em troca de compensações pecuniárias.
Este governo provisório foi posto para realizar o trabalho sujo. Medidas impopulares e paliativas, porém, necessárias, dizem eles. Claro que os efeitos colaterais não serão sentidos imediatamente por setores volúveis da classe média e pelos extratos mais empobrecidos, uma vez que a pílula colorida foi ingerida há pouco. Mas, quando desandar essa ópera dos horrores, o PSDB, a FIESP, setores do judiciário e os grandes grupos da mídia “caem fora”. Em comum, esses segmentos delegaram ao Temer o papel de força mercenária. O Príncipe de Higienópolis avisou na véspera.
Twitter: @ValdemarDema2


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