domingo, 20 set 2020
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Violência: Igreja foi invadida e está ocupada

Invadiram a igreja. Derrubaram os castiçais e derramaram o incenso. Desta vez foi na igreja de São José. Mas não se trata de um episódio isolado, raro ou acidental. Acontece regularmente o uso da igreja para legitimar os movimentos reacionários na sociedade brasileira.
O Estado com seu braço armado invadiu a igreja, pois precisava de um lugar estratégico para agir. A igreja matriz acomoda-se em torno das prefeituras e câmaras legislativas no Brasil profundo. Lugar mais estratégico não há do que a sacada da igreja para avistar o povo na praça.
A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) com as portas lacradas. O povo foi despejado da sua casa. Grades de proteção e cordão humano uniformizado. A igreja devia ser o lugar de refúgio. Contudo, ela estava ocupada pela polícia.
Funcionários públicos expulsos do espaço público sem a mínima chance de encontrar abrigo no espaço sagrado. Enquanto o Estado criminaliza, a igreja sataniza.
Quero fazer o gesto do pobrezinho de Assis que deixou a sacada segura para se aventurar atrás da pombinha no telhado. Andarilho que segue os passos errantes da pombinha descobre-se movido pelo vento do Espírito Santo.
A conclusão é simples: o Santo Espírito usa pombas como “iscas” para nos levar para perto do povo. O Vento sopra para fora. O Mistério não se apreende e a pombinha não se deixa adestrar.
A igreja está praticando a teologia reversa. Quando Jesus foi violento, ele o fez porque estavam coisificando as pessoas em função do comércio. Usou o chicote para humanizar o templo. No entanto, não falo do fato isolado que ocorreu na igreja de São José no Rio de Janeiro, mas do que é rotineiro. A partir dos templos, usam armas para fazerem o povo lacrimejar. Armas de efeito moral. Não são letais. Apenas para dispersar.
Nessa lógica o que há de mais sagrado é o mercado. O bezerro de ouro não divide a sua glória. Ao Estado cabe zelar pelas leis adequadas e organizar o poder coercitivo. Os funcionários públicos não são olhados como servidores, mas como peso no orçamento. Pior quando são os inativos que impactam a folha de pagamento.
O ano de 2016 não tem sido fácil. Estudantes ocuparam escolas e movimentos sociais ocuparam espaços públicos. Curioso que a mídia midas deu a mínima, como se nada estivesse acontecendo. Quando a igreja foi ocupada, veja só, quem o fez foi o braço armado do Estado com ampla repercussão midiática.
Percebeu? Estamos diante de uma metáfora da sociedade brasileira contemporânea.
A igreja serve aos movimentos reacionários e em nome da ordem assume discursos extremamente violentos.
Bombas de efeito moral lançadas das sacadas e dos púlpitos têm humilhado e dispersado quem foi à igreja à procura de acolhimento. Na rua, lacrimejam ainda sob o efeito dos gases misturados com incenso sacro.
Francisco desceu do telhado e impulsionado pelo vento saiu do centro, tornou-se excêntrico, habitou na periferia. Foi lá que teve visões na igrejinha em ruínas. O místico que ao procurar Deus dá de cara com o povo e se embrenha na realidade dos que possuindo quase nada resolvem partilhar tudo.

Valdemar Figueredo
Valdemar Figueredo
Pastor, diretor do Instituto Mosaico, doutor em Ciência Política (Iuperj), doutorando em Teologia (Puc-RJ) e flamenguista.