Bruna Linzmeyer: Ser sapatão é mais que sexo, é um encontro histórico e cultural

A artista revelou que sofreu, durante anos, lesbofobia nas sessões de psicanálise onde era instada a ser heterossexual e de que a homossexualidade “era uma fase”

A atriz Bruna Linzmeyer, que estará no remake da novela “Pantanal”, grande sucesso na extinta TV Manchete, revelou em entrevista que “ser sapatão é um encontro emocional” e espera que a novela chame atenção para os crimes ocorridos na região.

“Quando a gente fala do Pantanal, o fogo é o que mais chama a atenção, mas precisamos falar também das nascentes que estão secando, do desmatamento em volta delas, do veneno nessas águas, das plantações de soja. O Pantanal também está secando por uma exploração da natureza. Quando conseguiremos entender que a falta de luz, de ar-condicionado tem relação direta em quem a gente vota?”, diz Linzmeyer.

Ao ser questionada sobre o empoderamento LGBTQIA+ e a luta para viver livremente a sexualidade, a atriz afirmou que “somos muitas e diferentes, depende de onde a gente mora, da cor da nossa pele, das escolhas de cada um. Ao longo dos últimos anos a gente tem construído uma cultura lésbica. Ser sapatão não é sobre amar ou fazer sexo com mulher, mas sobre uma identificação histórica cultural, sobre um pertencimento que só é possível quando a gente encontra esse coletivo. Isso sempre vai ser importante, porque sozinha é muito difícil”.

Posteriormente, a atriz fala sobre a ideia e o que seria uma cultura sapatão. “A ideia de cultura sapatão é entender o que, para mim, é a vivência e a experiência de ser sapatão. Existem conversas e maneiras de perceber o mundo que só as sapatonas têm. Quais são as piadas das quais só a gente ri? Como vemos o mundo? Como nossa vivência pode ser interessante para o mundo no momento que não tem um homem aqui, para além da nossa sexualização, de duas mulheres se beijando? Há uma cultura musical explícita, Cássia Eller, Ana Carolina, Bia Ferreira. Há lacunas no audiovisual. O que gostaríamos de ver e não vemos?”, questiona.

Além de trazer para a entrevista ao Globo a questão artística, a atriz resgata pesquisadoras e militantes fundantes da Teoria Queer. “As teóricas feministas lésbicas Adrienne Riche e Monique Wittig falam sobre esse deslocamento da estrutura patriarcal que ser sapatão, no sentido do que esperavam da gente enquanto mulher. Parece simples, mas é desestabilizador para o sistema. Porque não existe uma necessidade de baixar a cabeça para um homem. Há uma possibilidade de subversão”.

“Ser sapatão não é só uma orientação, é também uma identidade. Para além do sexo e romance é uma identificação cultural, um pertencimento emocional, um lugar no mundo”, analisa Linzmeyer.

Em outro momento, Bruna fala sobre a ressignificação da palavra sapatão. “As capturas da nossa subjetividade se dão no dia a dia. Você fala: ‘Você está tentando me xingar de algo que eu sou, não vai dar para me ofender’. Essa é a construção do orgulho. Aquela famosa coisa que a gente precisa entender: LGBTfobia é um problema das pessoas héteras, assim como o racismo é um problema das pessoas brancas”, diz

Ao término da entrevista, Bruna Lynzmeyer fala sobre as violências que vivenciou com um psicanalista. “Vivi ano de lesbofobia, de muita opressão dentro do consultório. Ela não assumia que as relações com mulheres eram importantes para mim, dizia ‘isso é uma fase’. Esse tipo de opressão é tão violenta porque não se dá numa frase feita. É aos poucos, numa forma de falar, numa pergunta, num jeitinho. Quando vi, eu não dançava mais, não bebia, não amava, não me divertia mais.”

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A entrevista na íntegra pode ser conferida aqui.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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