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24 de junho de 2018, 09h52

Capitalismo e democracia: incompatibilidade de gênios

O futuro da democracia é não-homem, não-branco e não hétero-normativo. O capitalismo, este velho senhor hoje tão bem representado por Donald Trump, prepara o próprio velório ao tocar fogo nas instituições que o sustentaram ao longo das últimas sete décadas

Dotô,
jogava o Flamengo, eu queria escutar.
Chegou,
Mudou de estação, começou a cantar.

A música de João Bosco, composta quando o congresso brasileiro aprovou a lei do divórcio em 1977, serve de moldura para entender uma separação profunda e radical que vem acontecendo na última década: capitalismo e democracia não dormem mais juntos.

Certo que a democracia – me permitam destacar que democracia é substantivo feminino nas línguas latinas, daqui a pouco explico a importância disto – foi uma jovem, digamos, namoradeira. Flertou com a escravidão nos seus primórdios gregos e depois na versão norte-americana; namorou o nazismo quando elegeu Adolf Hitler em 1933 e nunca deu muita bola para o comunismo. Conversas em volta da mesa de jantar costumam passar por um silêncio constrangedor quando se discute a relação da democracia com qualquer tentativa de diminuição das desigualdades. Parte da família aponta a culpa dos primos ricos que fazem de tudo para minar e destruir os esforços democráticos na criação de um mundo mais justo, seja no Chile de Allende ou no Brasil de Dilma. Ao que a outra parte da família rapidamente lembra as tendências autoritárias do modelo cubano, chinês ou soviético, ressaltando sempre que a prosperidade da família sempre dependeu da capacidade da avó democracia em mediar os excessos do avô capitalismo – aqui claro, representado como substantivo masculino.

Este velho senhor capitalismo, por sua vez, precisa ser entendido dentro e fora de sua relação conturbada com a democracia. De tendência claramente autoritária, individualista e agressiva, o capitalismo nasceu aqui nas Américas quando espanhóis e portugueses, seguidos de perto por holandeses, franceses e ingleses; se arvoraram a exterminar ameríndios e escravizar africanos em nome de um lucro que, claro, não continuaria sendo pecado por muito tempo. Vale retomar Edmundo O’Gorman e Walter Mignolo para entender como a ocupação e exploração das Américas gerou a dita modernização europeia e não o contrário como insiste em nos contar a história familiar Eurocêntrica. Esta juventude violenta faz com que senhor capitalismo tenha uma certa culpa, promulgando a crença que o casamento dele com a democracia seria uma boa solução para ambos. Ao longo dos séculos 19 e 20 capitalismo e democracia viveram juntos um relacionamento que eu chamaria de aberto ou poliamor. Várias vezes o capitalismo foi infiel e se relacionou com muitas ditaduras (o que faz até hoje, diga-se de passagem) e várias vezes a democracia experimentou outros amores, nenhum muito duradouro.

Logo depois da segunda guerra do norte (1939-1945), os líderes do clã do Atlântico Norte acertaram um casamento de conveniência entre estas duas figuras apesar de suas significativas  diferenças. Uma união que durou mais ou menos 70 anos e que sedimentou a posição de liderança deste clã (chamado comumente Otan), servindo para justificar todo e qualquer abuso fora de sua zona central. Outros personagens importantes da guerra do norte: União Soviética e China, ovelhas negras por se recusarem a aceitar a liderança do velho capitalismo, foram chamadas para algumas festas (ONU) e não para outras como FMI, Banco Mundial, Plano Marshall, etc…. O clã da Otan arvorou para si poderes totalitários baseados justamente no casamento de conveniência entre o velho rico e rabugento capitalismo e a instável senhora democracia.

Pois bem, deixando agora a metáfora familiar de lado, o capitalismo venceu a batalha do século 20 e entrou no 21 sem nenhum rival a sua altura. Mal sabia o capitalismo que sua melhor arma é justamente  capacidade de se reinventar em face das dificuldades, por isso o casamento com a democracia foi tão importante. Cotidianamente a democracia colocava questões importantes na mesa e obrigava o velho capitalismo a se reinventar. Leis trabalhistas, sistemas de saúde, aposentadorias, educação universal. Notem que a maioria destas conquistas aconteceu no período em que democracia e capitalismo tinham um relacionamento aberto (antes da guerra de 39-45) e havia sempre um terceiro ou uma terceira ameaçando a relação deles.

Depois de consolidado o casamento e garantido o controle da Otan sobre o planeta inteiro (exceto os quintais da tia Rússia e da tia China), o capitalismo soube usar a aspiração universalizante representada pela democracia para se impor, enquanto a democracia continuou trabalhando para trazer parentes distantes para dentro do seu clube. Cito aqui os textos fundamentais de Arturo Escobar, demonstrando que a ideia de modernização, conceito-chave do capitalismo dos últimos 5 séculos, traz consigo inevitavelmente a ideia de colonização. O binômio modernidade/colonialidade foi vendido aos quatro cantos do mundo e beneficiou principalmente uma parte muito específica da família: homens, brancos, héteros. Por isso faz sentido falar de capitalismo sempre no masculino.

Agora usando a metáfora do casamento para entender a crise atual da democracia e do capitalismo, vejamos o que aconteceu nas últimas décadas. Sem um terceiro ameaçando a relação, o capitalismo decidiu que não precisava mais da democracia como mediadora. Questões como financiamento de campanha, hipertrofia do judiciário, oligopolização da mídia e precarização do trabalho foram implementadas sem que a democracia tivesse chance de discutir ou minimamente mediar o impacto destas transformações. Ao mesmo tempo, a democracia avançava no reconhecimento dos direitos dos não-homem, não-brancos, não héteros em sentar-se a mesa. A democracia nasceu masculina mas tornou-se feminina com o passar do tempo.

Não é nenhuma coincidência que Trump, Temer, Erdogan, Putin, Duterte e Berlusconi sejam modelos arcaicos do patriarcado. O medo dos não-brancos fez com que mulheres norte-americanas votassem em Trump, fechando os olhos para a misoginia explícita do candidato. O medo dos não-brancos também fez com que a classe média brasileira desse não um, mas dois tiros nos pés, buscando desesperadamente retornar a um tempo em que a maioria do povo brasileiro “sabia seu lugar”.

Pois bem, usando outra metáfora que ouvi de Patrus Ananias, a pasta de dente saiu do tubo e nem outros 21 anos de autoritarismo vão fazer o Brasil voltar a ser o que era no século 20. Enquanto muitos brasileiros se deixam levar pelo discurso autoritário, misógino e homofóbico de um candidato, outros enquadram o racismo do curso de direito da PUC-Rio. Enquanto Marielle Franco era assassinada pelas forças do atraso, outras mulheres, negras, faveladas e lésbicas vão apontar as soluções.

Como na música de João Bosco, o patriarcado não controla mais o que pode tocar no rádio, não tem mais o monopólio do controle remoto, não consegue mais se impor pelo argumento nem pela grana. Um artigo recente de Eliane Brum destaca a questão de gênero na greve dos caminhoneiros, e neste caso raro, concordo com sua análise. Existe aí um componente de perda de privilégios que começa na precarização do trabalho e chega até o controle remoto na TV no sofá da sala. Resta a força bruta.

O futuro da democracia é não-homem, não-branco e não hétero-normativo. O capitalismo, este velho senhor hoje tão bem representado por Donald Trump, prepara o próprio velório ao tocar fogo nas instituições que o sustentaram ao longo das últimas sete décadas. O divórcio com a democracia já parecia irreversível quando Trump resolveu implodir a Otan, abandonando Canadá, Japão e União Europeia para abraçar a Rússia de Putin, a Turquia de Erdogan, as Filipinas de Duterte e até a Coréia do Norte de Kim Jong-un.  Não é preciso ser especialista em geopolítica para perceber que este eixo-viagra representa tudo de velho e reacionário no mundo, enquanto o novo ainda não surgiu.

E ontem,
Sonhando comigo mandou eu jogar
No burro,
E deu na cabeça a centena e o milhar

Ai, quero me separar


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