O peso da decadência moderna no filme “High-Rise”

Um misterioso arquiteto planeja um arranha-céu que deveria ser uma incubadora de mudanças na sociedade. Um edifício idílico com todas as comodidades modernas destinado a ser uma “máquina de morar” autogerida. Mas algo deu errado, transformando o projeto em um pesadelo apocalíptico que mistura horror, sexo, drogas e a principal ironia: a Razão e a […]

Um misterioso arquiteto planeja um arranha-céu que deveria ser uma incubadora de mudanças na sociedade. Um edifício idílico com todas as comodidades modernas destinado a ser uma “máquina de morar” autogerida. Mas algo deu errado, transformando o projeto em um pesadelo apocalíptico que mistura horror, sexo, drogas e a principal ironia: a Razão e a Racionalidade de um projeto futurista se converte em niilismo, hedonismo e violência. É o filme “High-Rise” (2015), adaptação de obra do escritor J.G. Ballard de 1975 cujas visões sobre o futuro são considerados por muitos como proféticas – a sociedade corroída pelos seus principais males: a luta do homem contra si mesmo e de todos contra todos.

A sociedade parece funcionar basicamente sob duas categorias de conflito: do homem consigo mesmo (o inconsciente, pulsões, desejos, instintos etc.) e dos homens entre si (lutas entre classes, grupos, estamentos etc.). Os pessimismo freudiano sobre o mal estar da civilização e as visões marxistas da violência como “parteira da História”, deram o tom para as ciências sociais do século XX.

E no cinema a ficção científica, principalmente a distópica, o desenvolvimento desses dois tipos diferentes de conflitos foram bem marcantes: a luta do homem contra si mesmo (em filmes como Blade Runner ou Planeta dos Macacos nos quais o maior inimigo do homem é ele próprio); ou a luta de classes e a exploração em filmes Expresso do Amanhã (a dialética do senhor e do escravo) ou até mesmo Jogos Vorazes – uma elite ociosa explorando mão de obra farta e barata.

No filme High-Rise (adaptação do livro homônimo do escritor J.G. Ballard) assistimos a uma satírica fusão desses dois conflitos sociais em um arranha-céu que se transforma em um microcosmo dos pesadelos humanos resultantes de três traços contemporâneos: a violência, o niilismo e o hedonismo. 

Falecido em 2009, Ballard foi um brilhante escritor, mas principalmente um crítico social e, para alguns, um profeta. O Cinegnose já faz uma análise de outra adaptação de uma obra de Ballard, o filme Crash – Estranhos Prazeres (1996) – clique aqui.

O livro High-Rise de 1975 é um exemplo da sua visão de decadência apocalíptica, numa mistura de horror e excitação, sexo e drogas, ironia e sátira. 

À esquerda, pintura de Eric Fischl. Ao lado, cena do filme

Ao assistirmos ao filme, não é possível deixar de lembrar da estranha pintura do artista norte-americano Eric Fischl de 1982 chamado The Old Man’s Boat and The Old Man’s Dog. Para muitos, uma pintura também profética sobre os tempos que viriam: jovens no convés de um barco em uma atmosfera de orgia e beberagem. Parecem se preocupar apenas com o prazer momentâneo, alheios ao futuro ameaçador: uma tormenta se aproxima no oceano. O velho homem, suposto comandante, não mais existe. O barco está à deriva decorrente do niilismo e hedonismo dos seus passageiros.

Se substituirmos o barco de Fischl pelo arranha-céu de High-Rise, teremos uma situação idêntica, agravada pela luta de classes e pela presença do arquiteto que planejou tudo, mas perdeu o controle da sua criação.

O Filme

O filme se passa em 1975, mesmo ano da publicação do livro de Ballard, com uma produção em detalhado design retro-futurista que mistura suavidade com agressividade. Uma mistura adequada que capta a atmosfera do livro original.

A narrativa acompanha Robert Laing (Tom Hiddleston), um médico fisiologista assombrado pela memória de sua irmã morta. Ele se muda para um arranha-céu futurista projetado por um arquiteto misterioso e idealista chamado Royal – Jeremy Irons.

O edifício faz parte de um complexo ainda não inteiramente concluído que Royal concebia como um experimento social: transformar em uma incubadora para mudanças sócio-culturais. Mas o edifício acaba se transformando em um microcosmo paranoico, no qual são potencializadas as diferenças de classes e as disfunções sociais.

O arranha-céu é cercado por um amplo estacionamento para os moradores que apenas saem para o trabalho – além dos apartamentos, há andares com supermercado, piscinas coletivas e toda uma infraestrutura como fosse um condomínio fechado.

Como todos os projetos modernistas em arquitetura e urbanismo, de Le Corbusier a Oscar Niemayer, que vislumbravam uma sociedade mais igualitária com áreas de convívio público, tudo resultou no inverso: acabaram contaminados pelas próprias mazelas da sociedade que pretendiam sanar.

No filme vemos a cobertura habitada pelo arquiteto em um jardim suspenso idílico onde sua esposa cavalga por um lindo gramado como uma versão futurista da Lady Godiva. Royal continua projetando o restante do complexo, mas parece ter perdido o fio da meada.

Nos andares superiores está uma elite de esnobes brutos e inclinados a devassidão e embriaguez em constantes festas da qual ocasionalmente o arquiteto participa. Nos andares abaixo estão a classe média e o populacho. Tentam imitar a elite com suas festas  e orgias, porém com bebidas e drogas baratas e em apartamentos bem mais lotados.

O pesadelo hobbesiano

Através dos olhos de Laing vamos acompanhando o arranha-céu se transformando em um pesadelo hobbesiano de anarquia quando os moradores dos andares inferiores começam a escalar para os superiores, comprometendo a hierarquia social.

 

Tudo começa quando Richard Wilder (Luke Evans), um residente dos andares inferiores, pretende fazer um documentário sobre o arquiteto e inicia uma ascensão simbólica pelos andares em busca de Royal: quem é ele? O que pretende? Qual o sentido daquele edifício? Wilder é agressivo e repulsivo, mas também um aspiracional – acredita que pode subir na vida com seu documentário apresentado pela TV.

Como médico fisiologista, Laing é frio e calculista: com a mesma frieza que disseca um crânio diante de assistentes no hospital onde trabalha, ele apenas vê o mundo caindo aos pedaços sem fazer nada – apenas aprende a se adaptar.

No filme a figura do arquiteto tem um simbolismo ambíguo: é tanto o fracasso da Razão e da racionalidade de um prédio planejado com todos os confortos modernos; como também representa a própria divindade e o complexo planejado por ele como fosse o próprio cosmos.

Natureza humana e pessimismo

Como o leitor perceberá no filme, Ballard possui a mesmo pessimismo hobbesiano a cerca da natureza humana. O filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) na sua obra O Leviatã acreditava que o homem necessitava do Estado e sociedade fortes para estabelecer um contrato social – entregue ao seu estado natural, o homem tenderia a uma constante guerra de todos contra todos.

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Wilson Ferreira

Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.

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Renato Rovai
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