Cinegnose

por Wilson Ferreira

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22 de agosto de 2016, 11h59

Em “Esquadrão Suicida” o Coringa foi a maior vítima

A maior vítima do filme “Esquadrão Suicida” não foi a super-vilã do Outro Mundo Enchantress. Foi o Coringa de Jared Leto, vítima da diluição de todos os vilões do filme na estratégia ideológica do “good-bad evil”: maus, porém com bom coração. Os brutos também amam. Forma hollywoodiana de esvaziamento do Mal ontológico – o vilão não quer se vingar do herói, mas da sociedade hipócrita que o produziu. Em tempos de endurecimento da guerra contra o terrorismo, Hollywood não pode permitir mais um Coringa como o de Heath Ledger. Com a neutralização do arquétipo do Coringa, pelo menos Leto livrou-se da maldição sincromística que o palhaço do crime parece lançar sobre os atores que o encarnam.

Tecnicamente o filme Esquadrão Suicida é perfeito: tem ação, efeitos especiais, edição, ritmo acelerado e aventura. Porém sua narrativa é maciça, confusa e barulhenta. É mais uma tentativa da DC Comics em criar uma série de filmes interligados  como o bem sucedido universo cinemático da Marvel.

Assim como no universo Marvel, em Esquadrão Suicida acompanhamos o típico heroísmo amoral onde a Justiça está sempre acima de Bem e do Mal e os fins justificam os meios – toda escala de destruição e mortes não passa de efeitos colaterais. Mas enquanto na Marvel essa amoralidade está no plano da fantasia (e nem por isso menos ideológico), na DC Comics está sombriamente próximo da realpolitik do combate ao terrorismo internacional.

Apesar dessas semelhanças, Esquadrão Suicida explora uma novidade na atual tendência das adaptações dos quadrinhos para as telonas: por assim dizer, o “good-bad Evil”, o Mal simultaneamente bom e mau. Os piores assassinos seriais, sociopatas, psicóticos, confinados nas prisões de segurança máxima dos EUA, mas capazes de amar, ter compaixão, ser um bom pai e desenvolver algum tipo de idealismo e espírito de ética… pelo menos entre os vilões.

Como veremos adiante, o pesquisador alemão Dieter Prokop chamava esse estratégia do “cinema de monopólio” como “construção sígnica” a partir de uma tipologia baseada em “fantasias modais” de acordo com predisposições médias extraídas do público por meio de pesquisas.

Assim como a amoralidade heroica, essa construção sígnica de personagens é mais uma estratégia ideológica evitar que a “vilania” (sociopatia, psicose, sadismo etc.) se sobressaia na narrativa como produção social, como se notalibilizou a figura do Coringa de Christopher Nolan – o vilão como a contraparte do herói e como a evidência viva de uma sociedade hipócrita.

Por isso, a maior vítima do Esquadrão Suicida acabou sendo o Coringa de Jared Leto cujo resultado final virou um mix de Scarface com gangsta ostentação, diluindo a virulência desse arquetípico personagem. Ao anular a letalidade do palhaço do crime, pelo menos Leto livrou-se da maldição sincromística que acompanha atores que o encarnam – sobre isso clique aqui.

O Filme

Tudo inicia quando vemos Will Smith em uma prisão na Lousiana como o exímio atirador sniper Deadshot. Sob a música “Simpathy For the Devil” dos Rolling Stones vemos depois a sombria figura de Amanda Waller (Viola Davis), agente da Inteligência do Governo, com uma preocupante questão: “O que acontecerá se o próximo Super-Homem for um terrorista?”.

Após a morte do Super-Homem, a grande questão estratégica são os meta-humanos. E se um deles de repente quiser tirar o presidente da Casa Branca? Super-Homem era um meta-humano “bom”. Mas, e o próximo?

Meta-humanos não são confiáveis. Por isso, Waller tenta convencer os militares da necessidade de formar uma espécie de força-tarefa com os maiores super vilões do planeta para enfrentar potenciais novos inimigos.

Novos personagens menos conhecidos do que Batman e Super-Homem são introduzidos com rápidos flashbacks: a sensual e enlouquecida Harley Quinn – no passado foi uma doutora em uma prisão psiquiátrica na qual se apaixonou por um paciente muito especial: o Coringa.

Outros vão aparecendo como Killer Croc (que involuiu à condição de réptil), o tatuado Diablo (amaldiçoado com o poder de criar fogo), Bumerangue (assaltou todos os bancos da Austrália e tentava uma próspera carreira nos EUA), Katana (assombrada pelo espírito do seu marido morto na sua espada samurai) e outros de uma galeria de mercenários que ganharão muito pouco em troca da missão.

E para piorar, uma super-arma secreta se rebela contra os militares: a antiga bruxa asteca, Enchantress (cujo espírito possuiu o corpo de uma arqueóloga (June) e passou a prestar serviços à espionagem dos EUA) libertou seu irmão incubus e juntos planejam dominar a humanidade.

O estrago começa em uma estação de metrô na cidade de Midway (uma grande Nova York gótica). A cidade é evacuada e a força-tarefa do Esquadrão Suicida é convocada para entrar na cidade e derrotar a vilã do Outro Mundo.

Girl Power?

As mulheres parecem dar as cartas no filme: Waller e Enchantress são polos opostos de poder. Enquanto Harley Quinn, a amante do Coringa, é a cara do filme, o personagem disruptivo e mais ousado. E há ainda Katana, a samurai que com sua espada absorve o espírito das suas vítimas.

Girl Power? Esse é o início das camadas de aparência do filme. Waller é mulher e negra. Mas que repete a mesma amoralidade do poder dos brancos: é capaz de matar friamente os inocentes funcionários do FBI da sala de comando da força-tarefa para “apagar arquivo” como um infeliz efeito colateral. Uma referência involuntária ao presidente democrata Obama, senhor das armas e guerras que repete o mesmo traquejo belicista dos presidentes republicanos?

Harley Quinn veste-se e comporta-se como um fetiche ao voyeurismo masculino – parece ser o complemento erótico para tanta testosterona de metralhadoras e explosões.

O personagem mais interessante parece ser mesmo a deusa vilã Enchantress: ela revolta-se com um mundo que não respeita mais deuses e apenas idolatra máquinas. Tenta mudar tudo isso abrindo um portal para o Outro Mundo para criar uma máquina divina que destrua as máquinas humanas.

Mas esse interessante tema arquetípico é apenas sugerido em uma simples linha de diálogo. Para depois ser diluído em sequências risíveis que lembram um pastiche do filme Ghostbusters.

Vilões com bom coração

O que realmente desaponta em Esquadrão Suicida é o Coringa de Jared Leto. Como todos os outros vilões da força-tarefa suicida, sofre a construção sígnica do good-bad evil.

O pesquisador Dieter Prokop encontrou essa forma de diluição ideológica do vilões com o exemplo da mulher fatal ou vamp. Surgida no cinema pré-monopolista das décadas de 1910-20 era uma mulher autônoma, arruinava-se a si mesma e levava os homens à destruição através da sua sensualidade, como bem representou o mito de Greta Garbo.

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