domingo, 20 set 2020
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Vídeo revela surto semiótico-esquizofrênico que se espalha pelo País

Compenetrada e em tom de grave denúncia, um dos manifestantes que invadiram a plenária da Câmara dos Deputados na semana da passada, pedindo “intervenção militar institucional” no País, gravou um vídeo no qual aponta para um painel dos 100 anos da imigração japonesa dizendo: “cena nojenta, a nossa bandeira com o símbolo vermelho…”, numa alusão a um suposto complô comunista para alterar a bandeira nacional. Na verdade a bandeira era do Japão. E o círculo vermelho, o simbólico Sol Nascente. O vídeo da manifestante viralizou nas redes sociais como uma insólita gafe que, no máximo, provocaria apenas vergonha alheia. Porém, é mais do que isso: é um sintoma de um País doente, um surto semiótico-esquizofrênico. Patologia que, recentemente, acometeu até uma emérita professora de Semiótica que viu nas ciclofaixas pintadas de vermelho uma cilada subliminar do Comunismo em São Paulo. Originado no próprio cotidiano esquizoide das classes médias (submetidas a mensagens contraditórias da sociedade de consumo), e após ser açodada pela grande mídia para apoiar o recente golpe político, hoje a patologia espalha-se endemicamente na sociedade expondo três sintomas principais: paranoia, hebefrenia e catatonia.

Minha esposa tem uma amiga com um bom cargo Sênior na área de pesquisa em Marketing. Está na faixa dos 30 anos e vive a sua plenitude profissional, gerenciando esse setor na empresa. 

Recentemente, tomou a importante decisão de adquirir a casa própria, um apartamento de 60 metros quadrados no bairro nobre de Pinheiros, São Paulo. Apesar da reduzida metragem (talvez perfeito para uma pessoa), o valor do imóvel beira a casa do milhão de reais. Financiou em 30 anos, o que comprometerá a cada mês 5 mil reais dos seus rendimentos.  

Essa é um dos paradoxos da classe média: ela diz que o apartamento é seu, mas terá que pagá-lo até chegar à faixa dos 60 anos. Não importa o que ocorra em sua vida, nos altos e baixos de toda vida profissional e pessoal, terá que pagar as parcelas do financiamento vivendo a contradição salário versus renda – enquanto o banco extrai renda do financiamento, ela paga com o salário, meio evanescente de troca.

Ela acredita que está subindo na vida, embora a propriedade (a riqueza) seja apenas uma promessa futura, submetida às contingências do destino.

Imagino o custo psíquico dessa cena contraditória à qual a classe média submete-se diariamente. Ansiedade, expectativa, angústia mesclada com esforço, força de vontade e positividade.

É a sociedade do mérito, a Meritocracia, a qual submete seus devotos a uma situação de “duplo vínculo”- a sociedade de consumo que oferece lançamentos imobiliários com “pocket forest” e “varanda gourmet” em metragens mínimas e custos máximos; imagens publicitárias que transformam de cidadãos em máquinas desejantes. Assalariados que, através de um meio evanescente de troca, sonham galgar a hierarquia social e ficar ao lado daqueles que vivem da exclusivamente da renda e do lucro.

Gregory Bateson e o conceito de “Duplo Vínculo”

O paradoxo esquizofrênico

“Duplo Vínculo” (“Double Bind”) é um conceito clássico criado pelo antropólogo e psiquiatra inglês Gregory Bateson, o mais famoso membro da chamada “Escola de Palo Alto”, instituto de pesquisa mental na Califórnia que se tornou referência no âmbito da psiquiatria e terapia familiar. 

Trata-se de uma situação onde a pessoa se vê diante de mensagens simultâneas e contraditórias de aceitação e rejeição (“duplo vínculo”). Esse quadro é frequente no meio familiar, e ocorre em especial entre crianças e pais. Segundo Bateson, adultos jovens que desenvolveram esquizofrenia muitas vezes têm história de relação de duplo vínculo na infância. É comum crianças ouvirem dos pais variantes de um discurso com o seguinte teor: “gostamos muito de você, mas temos de castigá-lo porque se não o fizermos você irá se comportar mal, e não queremos que isso aconteça porque queremos continuar gostando de você”. 

Diante de tal paradoxo, a vítima vê-se presa num jogo que “não pode ganhar”: sem entender a metacomunicação, não consegue lidar com as complexidades do discurso (metáforas, paradoxos, etc.) desenvolvendo sintomas esquizofrênicos, ou mesmo o quadro pleno da doença. 

O duplo vínculo cria uma situação externa ameaçadora para o indivíduo porque incompreensível. Como resultado a pessoa procura modificar a realidade para que ela se mostre menos ameaçadora. A consequência final pode ser a alienação mental.

Esquizofrenia e sociedade de consumo (cena do filme “Eles Vivem”, 1989)

Esquizofrenia como patologia social

É claro que Bateson estudava quadros de terapias das relações familiares. Porém, estudiosos como Ciro Marcondes Filho acreditam que o conceito de “Duplo Vínculo” possa ser extrapolado para o estudo de patologias sociais dominadas por sintomas esquizoides – leia MARCONDES Filho, A Produção Social da Loucura. São Paulo: Paulus, 2003.

A sociedade de consumo e meritocrática é uma “doença contemporânea” não apenas porque cria uma cultura na qual o “ter” substitui o “ser”. O problema não é comprar, mas os significados esquizofrenicamente contraditórios que as mensagens publicitárias comunicam aos potenciais consumidores: de um lado, a afirmação universal de que todos têm o direito à felicidade e à realização dos seus sonhos, e, do outro, a situação particular de impedimento – a clivagem financeira.

Pois a publicidade e toda a sociedade de consumo criam essa verdadeira cilada comunicativa para os indivíduos: explicitamente, cada filme publicitário parece uma reivindicação universalista do direito à felicidade; mas uma contra ordem não-verbal, uma espécie de subtexto, transpassa todo o campo das mensagens publicitárias: sem dinheiro, não há felicidade.

A ameaça comunista está em toda parte?

Sintomas da patologia social

Vítima desse duplo vínculo, o sujeito não consegue criar uma metacomunicação (distanciamento) e compreender a situação paradoxal, contraditória e impossível de ser resolvida: sem compreender a cena, o indivíduo desenvolve os três sintomas clássicos esquizofrênicos:

(a) paranoia (sem compreender a mensagem contraditória, acredita que exista algum sentido oculto e, por isso, hostil),

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Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.