Cinegnose

por Wilson Ferreira

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11 de setembro de 2017, 11h32

Santos à espera do tsunami no feriado de sete de setembro

Cidade de Santos/SP. Feriado nacional de sete de setembro. Esse humilde blogueiro em mais uma caminhada pela cidade natal juntando lembranças da infância e juventude se confronta com uma sucessão de sintomas de um País psiquicamente doente. Ao redor do tradicional desfile cívico-militar na orla da praia, de singelas selfies de famílias com filhos e cachorros tiradas com soldados em trajes de ações de choques civis (talvez antevendo futuros distópicos) com reluzentes espadas a pessoas transtornadas gritando xingamentos contra Lula, Dilma etc.. Tudo isso ao lado de sem tetos e catadores de latas de alumínio nos jardins da praia replicando o mesmo ódio, dessa vez contra um escultor de areia acusado de fazer uma estátua da Dilma… A ex-presidenta falou em “calmaria que antecede o tsunami”. Mas talvez esse tsunami seja uma explosão de ressentimento sem direção ou sentido, apenas à espera de um gatilho sócio-econômico. Um tsunami bem longe da tradicional narrativa de “luta e resistência” tão apreciada pela esquerda.  

Mal sabia o que me aguardava na minha cidade natal, Santos. Morando em São Paulo, talvez pelo tamanho da metrópole, percebo que os sintomas sociais manifestam-se de maneira esparsa, revelando-se apenas em eventos especiais com grandes concentrações. Para assim ficarem bem explícitos e visíveis.

Mas em Santos, uma cidade bem menor, esses sintomas manifestam-se de maneira concentrada, sucessiva, em alguns momentos quase em metástase. E num feriado nacional da Independência do Brasil, com a cidade cheia de visitantes, aí vira quase uma espécie de laboratório social a céu aberto.

Chego na cidade um dia antes, para evitar os indefectíveis congestionamentos na descida da serra. No dia seguinte, bem cedo, saio para uma caminhada pela cidade. Sempre bom fazer um passeio sentimental pela memória dos lugares da infância e juventude.

Mas não sem antes assistir, nos telejornais das primeiras horas da manhã, ao bate-bumbo da delação premiada de Palocci a respeito do “Pacto de Sangue” Lula-Odebrecht. Expressão visivelmente escolhida a dedo e bem canastrona. Penso: Semioticamente perfeita! Sangue… vermelho… PT… comunismo… pacto… sangue… vampiro… chupar sangue… a corrupção que suga o País… semiose perfeita. Essas caras da Lava Jato são profissionais.

Ponho os pés na rua e saio caminhando. Passo em frente à portaria de um prédio onde dois respeitáveis senhores conversam. Ouço: “o Lula mandou tirar as câmeras do Palácio do Planalto…”. Nem me preocupo em aguçar a audição para ouvir mais. Nessa narrativa já sei qual é o final. Passo reto concentrado nos meus passos.

O catador de latas e a escultura de areia

Minha flanagem sentimental ganha os jardins da praia. Bastaram cinco minutos para ver perplexo um pobre catador de latas de alumínio, arrastando um grande saco plástico preto, gritando histérico e apontando para um escultor que trabalhava num bloco de areia. “Olha! Ele tá fazendo uma estátua da Dilma… A Dilma não presta!”. E pôs-se a vociferar um discurso antipetismo alucinado para o ar – não soube determinar se estava alcoolizado ou sofria algum distúrbio psíquico. 

Lembrei-me do relato de um amigo que num desses dias encontrou uma senhora em um supermercado, parada, olhando para os produtos em uma gôndola, ruminando para si mesma xingamentos contra Dilma e Lula.

 

Dei mais uns passos e percebi que o suposto busto em areia da Dilma era, na verdade, a escultura de um peixe. E lá foi o catador gritando transtornado o seu monólogo anti-Dilma, ironicamente vestido de camiseta e boné vermelhos… 

Lembrou-me dos estudos empíricos sobre recepção da TV por espectadores com desordem esquizofrênica: tornam-se paranoicos e tomam metáforas e efeitos de realidade televisivos ao pé-da-letra – passam a crer que pessoas de dentro da TV estão olhando para elas – Leia MARCONDES FILHO. A Produção Social da Loucura, Paulus, 2003. 

Levanto a minha vista e tomo um susto! Um susto típico de pessoas da minha geração, que passaram pela ditadura militar: vejo uma fila interminável de veículos do exército. Uma fila verde oliva serpenteando a orla da praia a perder de vista. Mas o susto e más lembranças passam rápidas – é nada mais do que um desfile cívico-militar de sete de setembro.

Passo ao lado das bandas de fanfarra de diversas escolas de Santos que evoluíam ao longo da avenida, com um repertório bem eclético: de Anita a Michael Jackson. Nos tempos da ditadura os temas musicais eram mais, digamos, marciais.

Selfies, Polícia Federal e o “kit galã feio”

Mas lá atrás, no final do bloco de bandas escolares que avançavam na avenida, estavam os personagens mais emblemáticos daquela festa cívico-militar: outra fila de carros anfíbios, de assalto e de transporte do Exército e Marinha com soldados portando espadas embainhadas, além de reluzentes carros da Polícia Federal (todas as viaturas com direito a “pretinho” nos pneus) e ao lado agentes federais com o indefectível “kit galã feio” (coque, barba, corpos sarados) e lenços bandanas na cabeça com estampa da bandeira nacional. Parece que a presença diária dos policiais federais nos telejornais da grande mídia despertou neles um certo, por assim dizer, orgulho cívico…

E cercando soldados e agentes federais, pais com seus filhos e cãezinhos tirando selfies ao lado deles. Forte déjà vu. As manifestações anti-Dilma lá em São Paulo e os chamados “coxinhas” tirando selfies ao lado da polícia de choque armada até os dentes.   

Chego em casa e encontro a TV sintonizada no SPTV: Márcio Canuto, jornalista especializado em matérias de “infotenimento” encerrando a suíte “Caminhos da Independência” no qual o seu traquejo folclórico transforma a rota de Dom Pedro I em São Paulo num roteiro turístico – ou talvez o que restará do País: atração turística com insistentes “empreendedores” perseguindo turistas estrangeiros enquanto seguram “moderninhas” e “minizinhas” – aquelas maquininhas de crédito e débito.

 

E toca mais bate-bumbo sobre o “pacto de sangue” de Lula com a Odebrecht, segundo o ínclito delator Palocci, cujas imagens são repetidas ad infinitum em cada canal disponível na TV.

E mais atualizações da sinistra notícia (além de uma aberração jurídica) de que a Polícia Militar publicara portaria para retirar da Polícia Civil da investigação dos homicídios dolosos praticados por PMs no Brasil. 

Após o almoço, retorno para a praia, dessa vez com filhos e esposa… até mais uma vez me deparar com aquele catador de latas de alumínio, ainda mais possesso e gritando a esmo contra Dilma e, agora, também contra Lula. Constato que aquela escultura em areia foi destruída pelo catador que, por algum motivo inescrutável, via na figura do peixe a imagem da ex-presidenta Dilma.

Dou alguns passos na areia fofa e quente e vislumbro um guarda-sol com estampa do artista plástico brasileiro, radicado nos EUA, Romero Brito. E na sombra daquele guarda-sol, um atento leitor confortavelmente sentado diante do livro aberto de Vladimir Netto chamado Lava Jato: O juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil. Cena prá lá de emblemática e repleta de simbolismos.

E nas horas finais do feriado nacional, as imagens de hordas de torcedores tentando invadir o antigo estádio (agora promovido a “arena”) do Maracanã instantes antes do jogo Flamengo X Cruzeiro – muitos sem ingresso ou sequer dinheiro e outros com ingressos falsos comprados das mãos de cambistas. 

 

E a mostra da parcimoniosa partilha do dinheiro público: enquanto no Rio a UERJ é ameaçada de fechamento e servidores aposentados passam fome sem o pagamento dos benefícios devidos, a polícia militar tem garantida seu farto estoque de bombas, spray de gás pimenta e muitas, muitas balas de borracha para serem disparadas no lombo da turba enfurecida.

O tsunami e a esquerda

Na TV as imagens de um desinterino Temer como que revivido e oxigenado (depois das trapalhadas do PGR de Janot) no palanque das autoridades assistindo aos desfiles em Brasília. Diante de protestos mornos e esparsos pelas capitais do País.

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