Cinegnose

por Wilson Ferreira

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04 de fevereiro de 2019, 22h39

A ameaça simbólica de Lula e a Síndrome de Brian da esquerda

Em todos esses últimos anos de Lava Jato, com os sucessivos nomes criativos das operações da PF para batizar cada show de meganhagem ao vivo na TV, é evidente que o Judiciário está muito consciente da natureza semiótica da atual guerra política brasileira

Fotos: Reprodução

“Covardia!”, “desumanidade!”, “barbárie!”. Assim reagiu a esquerda, chocada com a proibição de Lula (prisioneiro há nove meses) participar do velório do seu irmão em São Bernardo do Campo/SP. Até a ditadura militar autorizou que Lula fosse ao velório da mãe, em 1980!, acusa inconformada a esquerda. A Polícia Federal apresentou seis motivos para não conceder o benefício. Em cada um deles, está a evidência de que o atual oponente da esquerda não são mais os toscos militares da ditadura que, ironicamente, permitiam até gestos humanitários. Agora há um atento e utilitarista cálculo dos riscos na guerra semiótica: as repercussões simbólicas de Lula repentinamente aparecer em público, diante das lentes das câmeras. PF e Judiciário são mais zelosos com a ameaça simbólica de Lula do que a esquerda jamais foi – entregou de bandeja sua maior arma semiótica, agora condenada à invisibilidade. Enquanto isso, convive com a sua autoindulgente “síndrome de Brian” (relativo ao filme “A Vida de Brian”, do grupo de humor Monty Python), imaginando ainda estar enfrentando os velhos inimigos toscos do passado.  

Desde que os nazistas atrelaram uma sirene nos aviões bombardeiros de mergulho chamados Stuka, a guerra convencional tornou-se uma batalha semiótica. Enquanto davam voos rasantes e soltavam bombas, o indefectível uivo dos Stukas assombrava toda a Europa.

O projeto Stuka (criado pelo ás da Primeira Guerra Mundial, Ernst Udet, que trabalhou como assessor cinematográfico em Hollywood) foi uma evidência da transformação da guerra tradicional em guerra total (“blitzkrieg”): apenas bombas explosivas que causam morte e destruição não eram suficientes. Era necessário que sobreviventes carregassem para o resto das suas vidas o trauma e o horror em suas mentes – bombas simbólicas de efeito eterno. Assim como o cinema e o audiovisual.

Esse caráter semiótico de todas as guerras (desde a bélica militar até as batalhas jurídicas, midiáticas ou de propaganda) também está evidente nos seis pontos alegados pela Polícia Federal contra a autorização de Lula (prisioneiro na PF de Curitiba desde o ano passado) ir ao velório do seu irmão em São Bernardo do Campo/SP.

Estes foram os motivos alegados: fuga ou resgate de Lula; atentado contra a vida; atentado contra agentes públicos; comprometimento da ordem pública; protestos de apoiadores de Lula; protestos de grupos contrários a Lula.

Estariam preocupados com a integridade física do prisioneiro e agentes públicos? Estaria a PF tensa com a possibilidade de uma fuga espetacular do prisioneiro? Entretanto, esses seis motivos apresentados são meros álibis. A verdade está em uma outra cena: a simbólica.

O risco Lula

Em cada um desses seis motivos alegados está presente o cálculo dos riscos simbólicos de um personagem como Lula (preso há nove meses, proibido de conceder entrevistas e com visitas restritas) repentinamente aparecer em público, diante do foco das câmeras.

Principalmente nesse momento de comoção com o genocídio provocado pela Companhia Vale em Brumadinho/MG, enquanto o staff do Governo Bolsonaro bate cabeça e o próprio líder está internado no hospital Albert Einstein. Paralelo, a grande mídia cada vez se mostra mais interessada em dar destaque às opiniões do vice General Mourão do que aos arroubos do presidente.

Em todos esses últimos anos de Lava Jato, com os sucessivos nomes criativos das operações da PF para batizar cada show de meganhagem ao vivo na TV, é evidente que o Judiciário está muito consciente da natureza semiótica da atual guerra política brasileira. E, por isso, tem em mente que o simbolismo de Lula se tornou maior do que o próprio PT, partido que ajudou a fundar.

Enquanto, quase diariamente, algum ministro do atual governo vem nas redes sociais para colocar a culpa de qualquer mazela no PT, no comunismo ou no socialismo (o chefe da casa civil, Onyx Lorenzoni, chegou a colocar a culpa pela tragédia de Brumadinho no PT, apesar da Vale ter sido privatizada na Era FHC), o nome Lula é mantido em silêncio. Como se o líder político tivesse desaparecido da face da Terra.

Lembrando a velha máxima: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. Razão pela qual o conjunto PF e Judiciário se mostra muito zeloso com a posse da grande arma simbólica chamada Lula.

Muito mais zeloso do que o PT, que entregou de graça a sua mais poderosa arma na guerra semiótica – com Lula protegido no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, o PT virou às costas para qualquer possibilidade tática de empate ou desobediência civil (ou até mesmo pedido de asilo político), que acabaria por gerar uma grande incidente de repercussão global (era tudo o que a PF não queria), e entregou sua maior arma de bandeja – conscienciosos, meses antes já haviam entregue até o passaporte de Lula na PF… – clique aqui.

A reação “Síndrome de Brian”

“Negaram a Lula o direito mais sagrado!”, “violência jurídica”, “cinismo da juíza Carolina Lebbos”, “covardia do STF”, protesta a esquerda revelando, mais uma vez, aquilo que em postagem anterior esse humilde blogueiro chamou de “Síndrome de Brian”.

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