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por Wilson Ferreira

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19 de janeiro de 2011, 22h24

A “Barriga” Jornalística do Cão Caramelo: uma lição sobre a racionalização do Mal na mídia

Mais do que sintoma da espetacularização da notícia, a “barriga” jornalística do cão Caramelo é uma lição de como a mídia busca eliminar o Mal do horizonte da experiência humana. Por trás da urgente busca pela comoção do público está a racionalização e moralização para eliminar dos fatos a sua crueza, estupidez e tragédia.

Podemos aprender muito sobre o funcionamento da indústria do entretenimento em momentos trágicos como os que atravessamos com as enchentes e deslizamentos de terra em Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo no Estado do Rio de Janeiro.

A chamada “barriga” (gíria jornalística para designar uma grave bobeada de um jornalista que pensa estar publicando um “furo” quando não passa de engano ou má fé do próprio repórter) publicada por diversos veículos de imprensa ao comover a todos com a suposta história do cão Caramelo que guardava o túmulo da dona morta pelos deslizamentos de terra que atingiram as regiões serranas do Rio é um desses casos que denunciam a verdadeira natureza da indústria do entretenimento: ela não apenas produz “infotenimento” (informação + entretenimento) ou espetacularização da notícia, mas também em um nível ontológico, ela tem que produzir scripts para racionalizar a presença do Mal em nossas vidas.


A história de Caramelo realmente existiu (perdeu seus donos na tragédia), mas na foto publicada pela imprensa não era ele, mas o cachorro de Rodolfo Júnior, voluntário que trabalhava no cemitério local (clique aqui para ler a história completa).

Mas o que estamos querendo dizer por “nível ontológico” da indústria do entretenimento, revelado por essa “barriga”?

Sabemos que, pelo ponto de vista do Gnosticismo, o cosmos físico, desde o seu início, é constituído na sua essência pelo Mal. As manifestações dessa natureza ontológica do Mal estão no caos, aleatório, imperfeição. 

Como já afirmou Stephan Hoeller no seu livro “Gnosticismo: a Tradição Oculta” as descobertas científicas como a Teoria do Caos e da Incerteza no campo da Física comprovaram a desconfiança dos gnósticos em relação ao cosmos físico: o domínio da imperfeição e do Mal, uma espécie de ordem e simetria caótica e não-linear, onde cada ato resulta num efeito contrário em dimensões exponenciais.

Todos os principais avanços sejam científicos ou filosóficos no século XX desbancaram a mecânica newtoniana e o espaço-tempo absoluto. Os eventos, sejam no âmbito micro ou macro, teimam em corroer, minar ou simplesmente implodir modelos, conceitos, previsões. Um universo cujos fatos são governados por atratores estranhos, efeitos exponenciais, recursões ou loops tem o Mal como sua natureza constitutiva desde o início da sua criação.

“O princípio do Mal não é moral; é um princípio de desequilíbrio e de vertigem, princípio de complexidade e estranheza, princípio de sedução, princípio de incompatibilidade, de antagonismo e irredutibilidade”(MARCONDES FILHO, Ciro. Superciber: a civilização místico-tecnológica do século XXI, São Paulo, Paulus, 2009, p. 29.)

Mas na atual era tecnológica experimentamos uma curiosa regressão em relação a essas descobertas filosófico-científicas. A agenda tecnognóstica atual vai na contra-mão dessa complexificação do real ao tentar eliminar do horizonte da experiência humana tudo que seja considerado ruído para os sistemas: corpo, sensualidade, acaso, erro, orgânico, humanidade, morte etc. O que temos é o domínio dos modelos e simulações, uma agenda positivista que procura “a brancura total” dos sistemas governados por um homem telemático: conveniência, saúde total, imortalidade, simplificação, previsibilidade etc. Tudo isso impulsionado pelo desejo de virtualidade por meio de gadgets tecnológicos que prometem uma existência feliz e ascética.

Pois bem, a mídia como uma ferramenta importante dessa sociedade tecnológica, também participa dessa agenda ao procurar eliminar a experiência do Mal do horizonte humano. Os fatos são o que são: estúpidos, cruéis, inesperados, trágicos, dotados de uma ausência de sentido e de um niilismo perturbador para uma sociedade que tem na utopia tecnológica a solução messiânica para uma realidade que insiste em fugir de modelos simulados.

Diante disso, a mídia, mais do que filtrar, manipular ou espetacularizar os fatos, deve tentar encaixá-los dentro de scripts, roteiros pré-estabelecidos para que, igualmente, se virtualizem, assim como as relações humanas dos espectadores o são por meio de gadgets como Facebook ou Orkut.

Um exemplo dramático dessa natureza da mídia pode ser encontrada nos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA. Os atentados não tinham um objetivo pragmático ou lógico (chegar ao poder, iniciar uma guerra etc.). Nenhuma interpretação moral ou política podia ser dada: o atentado foi uma ação sem sentido político ou estratégico – não visava a tomada do Poder e, muito menos, a desestabilização do sistema político. Espetáculo puro, aparência pura. Mas, através de uma estratégia de simulação, a mídia procurou racionalizar, tentar trazer o episódio para o seu script racionalizante: fanatismo islâmico? Vingança de Bin Laden? Bonapartismo Civil de Bush? Todas as alternativas de explicação do porquê do atentado terrorista se anulavam e se equivaliam numa espiral interpretativa sem fim.

Ao racionalizar o “non sense” dos atentados, a mídia racionaliza e tranquiliza os fatos para o espectador: Ah, bom! Então foi tudo obra de fanáticos e loucos muçulmanos. Ufa!


O Script do cão Caramelo


Se dissermos que 500 ou mil pessoas morreram numa tragédia, isso pouco importa para o púbico. Mas se contarmos a história de uma das vítimas, isso vai atrair a atenção de todos para a notícia. Números são abstratos, enquanto a história de uma só morte é comovente. Isso é um clichê do jornalismo, aprendido desde os bancos da faculdade de jornalismo.

Porém, não é bem assim. Por trás dessa suposta comoção ou espetacularização dos fatos reside uma tentativa de moralizar o Mal. A “barriga” do episódio do cão Caramelo surgiu pela pressa e ansiedade do jornalista em procurar urgentemente uma angulação, um script onde pudesse encaixar a avalancha de terra e mortos da realidade. Ao procurar relatar a história de uma vítima, a mídia arranca muito mais do que comoção ou espetáculo. Em nível ontológico racionaliza e tranquiliza os fatos para o espectador: ao ser contada uma história, podemos, então, avaliar ou comentar moralmente o merecimento ou não da morte impingida à vítima.

Chamam isso de voyeurismo ou sadismo do público. Muito mais do que isso, acredito que a narração sobre a história de uma vítima facilita a moralização e, por conseguinte, a racionalização da ausência de sentido das tragédias (“non sense” ainda potencializado pelo descaso dos poderes públicos). Graças a esse script racionalizante podemos pensar: “ele não merecia” ou “ele mereceu”, ou ainda “não era seu dia, que azar” ou mais ainda “que imprevidente” e assim por diante.

Ainda há outro componente nessa histórica “barriga” jornalística: o hiperrealismo. Certamente não é mera coincidência, mas o relato forçado pelo repórter (e a foto do cão deitado resignado ao lado do túmulo da suposta dona) trás imediatamente o filme “Sempre ao seu lado” (Hachiko: A Dog’s Story, 2009) com Richard Gere cuja narrativa é sobre um fato real parecido ocorrido no Japão.

Além de moralizado, o fato é tomado pela sua precessão midiática. Em outras palavras, ao olhar para os fatos, a mídia os toma a partir de imagens anteriormente feitas sobre ele. Hiperrealismo: a história deve ser relatada a partir do repertório dos scripts midiáticos, assim como o mundo jurássico dos dinossauros na Disneylândia tomado a partir das referências hollywoodianas.

Procurar Richard Geres nas serras fluminenses e a moralização das tragédias são os dois lados de um mesmo movimento da indústria do entretenimento: a eliminação da experiência do Mal como forma ideológica que, em última instância, justifica e reforça uma sociedade dominada por uma tecnologia tecnognóstica.

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