Cinegnose

por Wilson Ferreira

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30 de outubro de 2010, 11h05

A Experiência Cinematográfica pode ser Transcendente? – 2: O Prazer do Espectador

Dando continuidade a nossa trilogia de postagens sobre a transcendência e experiência cinematográfica vamos nos deter no duplo vínculo que envolve o prazer cinematográfico: monotonia versus princípio do prazer, profano versus sagrado, tédio versus fascinação, arquétipo versus civilização. A articulação desses dois pólos dentro da narrativa fílmica é uma ritualística que mimetiza o drama da quebra-da-ordem-e-retorno-a-ordem. Por trás do prazer do espectador cinematográfico esconde-se o conflito potencial entre o espírito humano que aspira por transcendência e a ordem social e política que procura o oposto: o controle e a estabilidade.

Toda estrutura da obra de arte busca ultrapassar a si mesma. Vimos na postagem anteriora que o cinema, da mesma forma, contém elementos que buscam transcender o próprio meio. Por ser o cinema, desde o início, uma síntese criativa de diversas artes ou mídias (fotografia, pintura, literatura, música etc.), sua evolução estética e tecnológica força os limites das regras do ambiente perceptivo.

Vários exemplos da evolução da linguagem cinematográfica apontam para experiências perceptivas de transcendência que rompem com a convencional representação da realidade:

a) Movimento de câmeras que transcende os limites por meio de movimentos através de muros ou flutuando pelo ar como no filme Asas do desejo quando a câmera captura o olhar dos anjos flutuando através das barreiras do tempo e espaço.

b) Objetos ou figuras que se convertem em outras por efeitos óticos ou por imagens geradas em computador (CGI), permitindo aos diretores transformar a estrutura física dos personagens como no filme Hulk (2003) onde o pai do protagonista adquire poderes de fundir seu corpo com os objetos ao seu redor.

c) Representações audiovisuais de estados alterados de consciência, desde a utilização das lentes em grande angular, efeitos de justaposição de imagens na montagem e design de áudio.

d) Representações audiovisuais das distorções temporais e espaciais através de efeitos em CGI como em Matrix onde sentimos visceralmente a experiência da distorção tempo-espaço pela habilidade do protagonista em fazer as balas se deslocarem mais lentamente (time-bullet).

Esses exemplos de como a linguagem cinematográfica rompe com a experiência convencional de representação da realidade poderia, talvez, ser uma hipótese sobre o porquê do crescimento de gêneros fílmicos como o fantástico, terror, gótico e gnóstico. A evolução tecnológica e estética do cinema e audiovisual daria os instrumentos para o desenvolvimento de temas transcendentes, metafísicos, religiosos ou sagrados.

Por outro lado, o desenvolvimento desses temas transcendentes é potencialmente perigoso para a indústria do entretenimento. Se, por um lado, as imagens em CGI, efeitos especiais e câmeras deslizando pelo ar possibilitam um prazer voyeurístico ou escapista para o espectador, por outro lado podem possibilitar uma potencial experiência de transcendência ou de “quebra da ordem” ao romper com a percepção convencional da realidade. A curto prazo essa experiência provoca desprazer, inquietação (ou formações reativas como sono, bocejo ou negação), mas, ao longo do tempo, pode ser fator desencadeador de questionamentos em relação ao status quo.

O Duplo Vínculo da indústria cultural

Theodor Adorno pressentiu esse duplo vínculo na relação dos receptores com o produto cultural: o impulso por transcendência, imanente ao objeto artístico e ao receptor que o consome, e a totalidade falsa criada pela lógica da mercadoria na indústria cultural.

Em sua análise sobre música popular, Adorno descreve esse duplo vínculo que alimenta a recepção do ouvinte:

“Toda a esfera de diversão comercial barata reflete esse duplo desejo. Ela induz o relaxamento porque é padronizada e pré-digerida. Sendo padronizada e pré-digerida serve, na psicologia familiar das massas, para poupar-lhes o esforço dessa participação (mesmo de ouvir e observar), sem o qual não pode haver receptividade à arte. Por outro lado, os estímulos que ela providencia permitem uma escapadela da monotonia do trabalho mecanizado” (ADORNO, Theodor, “Sobre Música Popular”, In: COHN, Gabriel (org) Theodor W. Adorno, Coleção Grandes Cientistas Sociais, São Paulo: Ática,1986, p. 136.)

Escapar à monotonia e poupar esforços são movimentos incompatíveis. Como afirma Adorno, a indústria cultural lida com um problema insolúvel: ao mesmo tempo oferecer produtos novos e estimulantes que façam o receptor escapar da rotina e, simultaneamente, tornar essa novidade padronizada e familiar para relaxar e poupar esforços. Nesta corda bamba equilibra-se a indústria cultural ao ter que criar um entretenimento que mantenha a ordem institucional e, ao mesmo tempo, ofereça a esperança de rompê-la.

O “fugir da rotina” como falava Adorno são, em última instância, desejos de verem suas fantasias fixadas ou representadas e, ao mesmo tempo, colocadas sob controle. Aquilo que potencialmente transcende deve ser evocado para depois ser abatido.

A Experiência “numinosa” e a psicologia da religião

Se o desenvolvimento estético e tecnológico do cinema favorece a disseminação de temáticas do Gótico, do Estranho e do Fantástico, temos, cada vez mais, o trabalho com elementos potencialmente desestabilizadores do status quo. São gêneros fílmicos que exploram representações de medos arcaicos e a erupção do inconsciente. Como produtos comerciais da indústria do entretenimento, fascinam ao representar esteticamente elementos arcaicos ou arquetípicos do inconsciente, mas, ao mesmo tempo, criam o limiar de uma situação de conflito desses conteúdos com o princípio da realidade. Afinal, após acenderem-se as luzes do cinema precisamos retornar aos nossos deveres e obrigações como se nada tivesse acontecido.

Dessa maneira podemos aproximar essa discussão às idéias sobre experiência numinosa e a psicologia da religião tal qual apresentada por Jung.

Para Jung, o magnífico desenvolvimento científico e técnico da nossa época corresponde, diretamente, a um assustador desprezo à instrospecção e ao esquecimento do psiquismo humano. Mas, muito mais antigo do que todo desenvolvimento civilizatório, está o medo e a aversão primitivos a tudo que está confinado no inconsciente. A vida social é acompanhada pela contínua preocupação da possibilidade dos perigos psíquicos, e são numerosas as tentativas de reduzir tais riscos. Um exemplo é a criação das áreas culturais de tabus. Há inúmeros ritos mágicos cuja única finalidade é a defesa contra as tendências imprevistas e perigosas do inconsciente. Mais tarde, a sociedade criará sistemas simbólicos cada vez mais complexos para deter, filtrar ou racionalizar essa ameaça.

Desde os albores da humanidade observa-se uma pronunciada propensão a limitar a irrefreável e arbitrária influência do “sobrenatural”, mediante fórmulas e leis. E este processo continuou através da história, sob a forma de uma multiplicação de ritos, instituições e convicções. Nos dois últimos milênios a Igreja cristã desempenha uma função mediadora e protetora entre essas influências e o homem. (JUNG, Karl G., Psicologia e Religião)

Um exemplo é o das relações nada amistosas da Igreja com os sonhos. Nos escritos da Idade Média não se nega a possibilidade de os sonhos serem genuínas revelações divinas. Mas a Igreja se reserva o direito de decidir, em cada caso, se os sonhos têm origens revelatórias ou são causadas por doenças físicas, emoções violentas ou a astúcia do demônio.

Jung observa que com a derrubada da barreira dogmática pelo protestantismo o rito perde a autoridade da sua eficácia, tornando o homem desamparado para confrontar com sua experiência interior. Os matizes mais sutis do cristianismo tradicional (a missa, a confissão, a liturgia e a função do sacerdote como representante hierárquico de Deus) são perdidos. Em compensação, com a perda da autoridade da Igreja, reforçou a autoridade da Bíblia. Mas, revelou-se pouco apta para fortalecer o caráter divino das Escrituras Sagradas, pois certas passagens da Bíblia podem ser interpretadas de maneiras diferentes.

Ela [a religião] tem a finalidade evidente de substituir a experiência imediata por um grupo adequado de símbolos envoltos num dogma e num ritual fortemente organizados. A Igreja Católica os mantém, por força de sua autoridade absoluta. A “Igreja” protestante (se ainda se pode falar em “Igreja”) os mantém pela ênfase da fé na mensagem evangélica. Os homens estarão adequada¬mente protegidos contra a experiência religiosa imediata, en¬quanto estes dois princípios forem válidos. (IDEM, p. 48.)

Como “experiência religiosa imediata” Jung está se referindo à experiência numinosa, nos termos colocados por Rudolf Otto traduzido pela frase mysterium tremendum fascinans et augustum. O numinoso é um efeito que apodera e domina o sujeito, mais sua vítima do que criador. Condição do sujeito e independente da sua vontade, a percepção da presença do numen suscita o sentimento de grandeza, de maravilhamento, de respeito. É a percepção do misterioso, do inteiramente outro que ultrapassa a esfera do usual, do inteligível e do familiar. O mysterium representaria o das ganze Andere (o totalmente outro), o qualitativamente diferente, que apresenta dois conteúdos: o tremendum, elemento repulsivo, que causa medo ou terror, e o fascinans, o que atrai, fascina. É esta experiência religiosa imediata, a experiência numinosa (fascinante por ser uma manifestação do magma reprimido do inconsciente e repulsivo por ser a erupção do Estranho, ou seja, daquilo que é potencialmente desestabilizador) que necessita ser controlada pelos sistemas simbólicos religiosos para que a natureza ambígua e perturbadora do numen seja diluída.

Com o enfraquecimento de toda ritualística e liturgia católicas e o relativismo protestante, assim como a influência da chamada ilustração científica que afasta inclusive homens religiosos que não conseguem conciliar a religiosidade com a ciência, novas formas de mediação devem ser criadas. Surgem formas secularizadas de, simbolicamente, lidar com a “experiência religiosa imediata”, isto é, com o fluxo do psiquismo humano que vem à tona na vida cotidiana. O cinema seria uma delas.

Autores como Massimo Canevacci consideram o cinema uma máscara tecnológica que espetaculariza uma hipo-estrutura arcaica, isto é, como as máscaras ritualísticas antigas, continua a esconder e mostrar os conteúdos arquetípicos do inconsciente. Este seria o “espírito do cinema”:

“A tela do cinema é um véu de maia que esconde por trás de si o fato de que não há nada a esconder, a não ser a potência mimética da repetição. A repetição do igual como conteúdo do cinema é assim arrebatadora e transcendente, na medida em que reformula em termos modernos um enigma constante, que a humanidade sempre arrastou consigo e que sempre atualiza: como a potência da monotonia consegue aliar-se com aquela ‘zona’ que Freud situou além do princípio do prazer” (CANEVACCI, Massimo, Antropologia do Cinema, São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 34.)

Canevacci vê uma linha de continuidade secularizada ente ritual da missa católico a narrativa fílmica e a sala de projeção do cinema. Assim como a repetição do ritual da missa, fortemente simbólico e funcional, tem a capacidade de restaurar um equilíbrio entre vida cotidiana e eterno retorno, sagrado e profano, igualmente o cinema reproduzirá, em todas as fases do show fílmico, os mesmos eventos durante o drama do Calvário: nascimento, afirmação e morte do herói, depois o sacrifício da ressurreição até a vitória do bem. Para o autor, a própria arquitetura das duas salas é idêntica com platéia, galerias e corredores no meio. Este drama cosmológico divino é mimetizado pelo próprio comportamento do espectador ao consumir o rito:

“(…) a apresentação do ingresso, a entrada na grande e escura sala de projeção, a reconfirmação da aventura, a saída para o ar livre à guisa da ressurreição, o feliz retorno para casa (…) O fato de que se volte sempre ao cinema (ou à missa) para ver sempre a mesma história, saber que é preciso revê-la e desejar a coerção para poder suportar a ordem de coisas existente, tem sua origem na articulação entre hábitos imprimidos nos anos da puberdade e hábitos herdados hipo-estruturalmente desde a gênese da civilização” (Idem, p.47.)

Monotonia versus princípio do prazer, profano versus sagrado, tédio versus fascinação, arquétipo versus civilização. A articulação desses dois pólos dentro de uma narrativa e uma ritualística que mimetiza o drama da quebra-da-ordem-e-retorno-a-ordem parece ser a motivação por trás do prazer do espectador cinematográfico. Além do mais, o chamado “estado cinematográfico” favoreceria esse prazer mimético: a história narrada e os diversos mecanismos da linguagem cinematográfica colocam o espectador em um plano intermediário da vigília que em nossa vida cotidiana chamamos de “devaneio” ou “sonhar acordado”: Diferentemente do sonho, estamos conscientes da situação ficcional. Encontramo-nos numa situação limite: freqüentemente mergulhamos completamente na ficção e acabamos por nos desligar da realidade temporal e espacial que nos rodeia.

Por meio de dispositivos da narrativa clássica que permitem a identificação do espectador com a diegése fílmica, o espectador encontra-se fascinado em reconhecer conteúdos arcaicos do inconsciente representados simbolicamente na tela. Mas a narrativa não permite que o fascinans alcance o tremendum. O fascinante pode ser atrativamente chocante ou eletrizante, mas não se converte numa experiência numinosa.

Portanto, a pesquisa que envolve as relações entre o sagrado e o religioso no cinema e audiovisual deve estar atenta às formas narrativas através das quais a experiência potencialmente transcendentes são confinadas, neutralizadas ou simplesmente abatidas para que, no final, o prazer voyeurístico ou escapista se sobreponha à verdadeira experiência transcendente (o sagrado, o Tremendum, o numinoso).

Esse tema fica para a postagem final dessa trilogia.

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