Cinegnose

por Wilson Ferreira

O que o brasileiro pensa?
24 de dezembro de 2019, 12h55

A invenção do não acontecimento do Natal

Acredita-se que o Natal remonta aos primórdios da História e que o “Pai Natal” ou “Pai Noel” seja uma mera variante americana de alguma figura britânica atemporal

Fotos: Reprodução

Nessas épocas de festas de final de ano, não faltam as críticas de que tudo não passaria de manipulação de uma sociedade consumista. Presentes, comidas e bebidas nos entorpeceriam, fazendo-nos esquecer dos verdadeiros valores cristãos da fé, perdão e compaixão. Mas o dinheiro não arruinou o Natal: ele fez o Natal. Ao lado de outros megaeventos importados como Halloween e Black Friday, o Natal é mais uma tradição inventada a partir do século XIX nos EUA: primeiro, como invenção de um país jovem e carente de tradições e que, por isso, invejava a Europa com seus castelos e reis. E, segundo, pelas lojas de departamentos a partir de 1841 – a invenção de uma narrativa mercadológica que criou, por exemplo, o embrulho natalino para sacralizar os presentes e criou o Papai Noel como figura secular de Cristo. Como o espírito natalino foi inventado, escondendo sua natureza de não acontecimento? Isso é que o “Cinegnose” explica nessa véspera de Natal – jamais existiu o “verdadeiro Natal”.

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As imagens do Natal parecem ser inerentemente nostálgicas: árvores de Natal, casas cobertas de luzes, ruas decoradas que parecem fazer alusão a velhos cartões postais… e os indefectíveis filmes clássicos repetidos todo ano na TV: se no passado eram os velhos filmes em preto e branco como O Milagre da Rua 34 (1947) ou Felicidade Não se Compra (1947), de Frank Capra, hoje temos os novos clássicos coloridos como Esqueceram de Mim ou Duro de Matar.

É um espírito que parece evocar tempos mais simples da nossa infância: diante da lista de presentes, o caos da Black Friday e das músicas de Natal que ouvimos em shoppings, nos sentimos nostálgicos de supostos tempos (provavelmente dos nossos avós ou até antes) em que o verdadeiro espírito natalino não era dominado pelo marketing e o Natal não era apenas consumismo.

Tempos em que o Natal era imbuído apenas pelos verdadeiros valores cristãos da caridade e do amor ao próximo.

Porém, o Cinegnose revelará um segredo: esses tempos jamais existiram!

O Natal se coloca ao lado de outros megaeventos importados como Halloween ou Black Friday. Eventos irradiados dos EUA para todo o planeta através da sua indústria do entretenimento. Na verdade, não acontecimentos (ou “pseudo-eventos”), invenções criadas por um país que sempre careceu de tradições e, por isso, sempre olhou com inveja o velho continente europeu com suas monarquias, castelos e toda uma tradição de séculos do folclore à literatura.

Precisando de um verniz para a sua autoafirmação como nação, os EUA criaram uma sistemática indústria da simulação para inventar tradições de segunda mão.

A invenção das famílias presidenciais como neo-monarquias norte-americanas

Um desses exemplos é a invenção da mitologia em torno da família presidencial como no caso da criação do carisma em torno da família Kennedy – na falta da história de uma família real, os relações públicas inventam o carisma das famílias presidenciais transmitido por gerações.

Ou a Re-invenção da própria História e da Ciência nos parques temáticos como Disneylândia e Epcot Center.

Papai Noel começou como uma piada…

Acredita-se que o Natal remonta aos primórdios da História e que o “Pai Natal” ou “Pai Noel” seja uma mera variante americana de alguma figura britânica atemporal.

A grande contribuição da América para o Natal veio no século XIX, da caneta de Washington Irving, um nova-iorquino mais conhecido por suas histórias Sleepy Hollow e Rip Van Winkle. A imagem moderna do Papai Noel começou na verdade como personagem em uma piada.

Achando engraçado os esforços de alguns membros bem-intencionados da Sociedade Histórica de Nova York, que procuravam criar tradições para a cidade moderna que rapidamente se expandia, Irving decidiu parodiar seus esforços.

Em A History of New York, publicado pela primeira vez em 1809, ele creditou a São Nicolau, o tradicional portador de presentes da Europa, de ter direcionado os primeiros colonos holandeses a se estabelecerem Manhattan.

Gravura de São Nicolau encomendada pela Sociedade Histórica de Nova York, 1810

Irving então descreveu como os colonos naturalmente gratos a seus guardiões com a cerimônia de pendurar uma meia na chaminé na véspera do dia de São Nicolau, na qual a meia é sempre encontrada de manhã milagrosamente cheia. São Nicolau era descrito como capaz de cavalgar alegremente entre as copas das árvores ou sobre os telhados das casas e, de vez em quando, tirava presentes magníficos dos bolsos das calças e jogava-os pelas chaminés.

Irving se baseava no personagem Sinterklaas da tradição holandesa, cuja Sociedade Histórica de Nova York queria transforma-lo no Santo Padroeiro da cidade. Foi contratado um artista para desenhar uma imagem do santo para ser entregue aos convidados no primeiro jantar de aniversário de São Nicolau, organizado pela sociedade histórica. No retrato era ainda mostrado como uma figura religiosa que deixava presentes em meias junto à lareira e estava associado à recompensa pela bondade das crianças.

Mas o “Saint Nicholas Day” não decolou como John Pintard (fundador da Sociedade Histórica de NY) queria. Porém, a imagem de Anderson criada para o Papai Noel permaneceu como base para as futuras recriações.

A verdade é que até meados do século XIX, a maioria dos americanos não celebrava o Natal. Os puritanos que se estabeleceram na Nova Inglaterra proibiram o Natal. Em muitas partes do país, o Natal era considerado principalmente uma desculpa para as classes mais abastadas fazerem festas barulhentas e grosseiras.

Harper’s Weekly, 1871 (esquerda) e 1874.

Surge o Marketing

Então o que mudou? Por um lado, a América estava se tornando mais industrial e mais urbana. Isso causou um sentimento nostálgico no povo americano por tempos supostamente mais simples, além de uma obsessão em estabelecer tradições familiares como refúgio do mundo industrial.

Os americanos começaram a adotar as tradições europeias do velho mundo para reunir suas famílias. As árvores de Natal foram copiadas das tradições dos imigrantes alemães, por exemplo, enquanto a velha versão do Papai Noel foi originalmente trazido pelos holandeses.

Foi aí que o marketing entrou em cena.

O grande impulsionador da propagação do Natal foram as revistas femininas e outros produtos da imprensa. Tanto as histórias quanto os anúncios nessas revistas criaram peças de histórias de Natal, muitas das quais foram cimentadas na consciência pública. Por exemplo, a popularidade das árvores de Natal remonta a uma imagem no livro de Godey’s Lady’s Book, a revista mais lida na época, da rainha Victoria e sua família reunidas em torno de uma ricamente decorada.

Mas o Natal definitivamente decolou na época em que as lojas de departamento começaram a crescer e viram uma incrível oportunidade de negócios na entrega de presentes de Natal. Começaram a decorar suas lojas no Natal e a usar táticas criativas de marketing para atrair compradores. Grande parte da estética que agora associamos ao Natal foi espalhada e, em alguns casos, criadas por essas lojas de departamentos.

O impacto do marketing nas tradições e estética de Natal, no entanto, não é nada comparado ao impacto das histórias e personagens de Natal. Isso é verdade quando se trata do personagem de Natal mais famoso de todos, o Papai Noel.

A tradição holandesa do Papai Noel foi popularizada nos Estados Unidos pelo poema de 1822 “Uma visita de São Nicolau” (agora mais popularmente conhecido como “A noite antes do Natal”). Mas, naquela época, não havia um amplo consenso sobre como exatamente o Papai Noel era. As lojas de departamento, com uma pequena ajuda das revistas da época, ajudaram a corrigir isso.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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