Cinegnose

por Wilson Ferreira

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03 de dezembro de 2010, 08h13

A Jornada de Alice de Lewis Carroll: ritual de passagem?

A interpretação mais aceita sobre a jornada de “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll é a de que a obra representa o rito de passagem da adolescência para o mundo adulto. Porém, essa leitura enfraquece toda a dimensão ocultista (metafórica e alegórica) da obra de Carroll e, o que é pior, reduz obras literárias ao campo dos sintomas e até patologias clínicas.


No debate que se seguiu após a minha apresentação no VI Encontro Científico e de Iniciação Científica da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, foi colocada uma questão sobre a minha leitura da Wonderland de Tim Burton (como mais um exemplo da filmografia atual sintonizada com a agenda tecnognóstica) como uma jornada de auto-conhecimento de Alice para, mais tarde, após decepar literalmente a cabeça de seus temores e fantasmas, tornar-se senhora de si e assume os negócios do pai falecido. Afirmei que da viagem onírica de Carroll, Burton traduz a estória de Alice em exemplo de determinação de uma jovem que se tornará empresária empreendedora (estender os negócios até a China).

A questão apresentada foi essa: A versão do diretor Tim Burton para “Alice in Wonderland” não continuaria fiel ao propósito inicial de Carroll ao narrar a estória de Alice como um ritual de passagem? A adolescência, com uma entrada súbita (a queda na toca do coelho) seguida de mudanças físicas e a desorientação que isso causa em Alice, a ponto de ela não saber mais quem é após tantas transformações (explicada pela psicologia do adolescente).







De fato, essa leitura da obra de Carroll é a mais aceita. A meu ver, interpretar toda a jornada de Alice como um rito de passagem onde as mudanças físicas e desorientações que corresponderiam às vividas pela adolescência é reduzir “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho” em meros sintomas. Toda a dimensão alegórica e simbólica de Carroll é, de uma vez só, reduzida a uma causalidade linear (causa/efeito).







Uma lógica semelhante incorre o médico e escritor Moacir Scliar em artigo publicado no caderno Mais do jornal Folha de São Paulo de 18 de abril desse ano. Scliar analisa a obra de Carroll à luz da patologia clínica desde as suspeitas que recaíam, sobre o autor, de pedofilia, às alucinações que poderiam ter sido provocadas por raros efeitos de enxaqueca (macropsia/micropsia: a visão de objetos subitamente aumentados ou diminuídos em tamanho), de que talvez sofresse. Ou talvez o autor de Alice tivesse crises de epilepsia do lobo temporal, que também podem provocar tais sintomas…







Esvaziar toda a carga alegórica e metafórica ao campo do sintoma é reduzir toda a cultura a condição de patologia. No fundo, por trás dessa interpretação de Scliar, repousa o viés da autoajuda e o paradigma da terapeutização geral do espírito e da cultura: as manifestações individuais sempre serão fontes de erros e desvios, necessitando serem constantemente monitoradas para conseguir a “cura”.







Pelo menos, a interpretação da obra de Carroll como rito de passagem não chega ao campo da patologia, porém pode incorrer numa visão funcionalista de Alice: conceber a estória de Alice como um mero reflexo do funcionamento de instituições sociais.

Lewis Carroll e Neo-Platonismo







Sabemos que Lewis Carroll participou de sociedade de pesquisas sobre espiritismo e percepção extra-sensorial (veja link abaixo) e que, por isso, sua obra, em particular a jornada de Alice, deve ser analisada como uma alegoria de fundo esotérico e, por isso, neoplatônico.







Para a pesquisadora Victoria Nelson todo imaginário místico derivado do ocultismo, cabala e alquimia estão presentes na literatura fantástica e romântica dos séculos XVIII e XIX. Nelson argumenta que a partir da re-apropriação das idéias de Platão no século XV, principalmente a alegoria da caverna tal descrita em A República, a noção de “um mundo físico como um duplo refletido em um espelho” acabou influenciando profundamente as crenças religiosas e científicas a partir do século XVI até chegar ao campo da literatura como na obra escritores Coleridge, Kafka e Poe. A alegoria da caverna passa a significar “o meio caminho entre a parte superior do mundo e a grande e mais misteriosa região abaixo” (NELSON, Victoria. The Secret Life of Puppets, Cambridge: Havard UP, 2001).







Se em Platão o homem é um prisioneiro em uma caverna subterrânea e que toma as sombras do mundo exterior projetadas na parede dessa caverna (simulacros) como a realidade, na era moderna inverte-se a alegoria: a realidade passa a ser as misteriosas regiões subterrâneas e a parte superior o simulacro. (Daí, no cinema, as dimensões misteriosas, místicas, secretas ou demoníacas da realidade serem representadas por cavernas, becos, estacionamentos subterrâneos, metrôs etc. – sobre esse assunto veja link abaixo).







Sim, a estória de Alice pode ser vista como um rito de passagem, mas um rito especial, muito mais metafísico do que social: a Inglaterra é um simulacro da Wonderland do mundo das Idéias de Platão, transformado em um mundo subterrâneo. Através das charadas, paradoxos, trocadilhos, paroxismos e sátiras, Carroll mostra o ilógico e irracional por trás do mundo dos adultos para onde Alice irá quando crescer. Wonderland é o Céu das Idéias onde tudo é explícito sem o véu da racionalidade que encobre a verdade no mundo real simulacro da Inglaterra. Nada mais neo-platônico e gnóstico do que mostrar o lar real de Alice como um simulacro e, além disso, a dúvida radical da protagonista no final de “Alice Através do Espelho”: será que tudo pela qual passou foi o sonho do Rei vermelho ou o sonho dela? Ambiguidade que define a suspeita gnóstica de que o real nada mais seria do que um véu que encobre a verdadeira natureza das coisas.







Carroll quer mostrar a verdade através da alegoria e da metáfora. Nada mais esotérico e alquímico (sabemos que, no mundo antigo, a linguagem da Alquimia era alegórica, enquanto a Ciência atual é simbólica).

Tim Burton mantém essa interpretação dominante da obra de Carroll como rito de passagem. Porém leva ao extremo ao sintonizá-la com a agenda tecnognóstica atual: a jornada de Alice continua sendo uma alegoria, mas bem específica e diferente da alegoria metafísica de Carroll: uma alegoria que encobre, como uma interface, os símbolos de uma ciência que pretende mapear a mente para deletar os pensamentos, sentimentos ou impressões erradas e desviantes para nos tornarmos mais assertivos, empreendedores e sem culpas.
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