Cinegnose

por Wilson Ferreira

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03 de fevereiro de 2011, 15h19

A Mídia e os Cientistas “Cavalo de Tróia”

Quem não conhece a origem da expressão “cavalo de Tróia”? Diz a narrativa lendária que as legiões gregas deixaram o artefato de madeira oco, abrigando soldados gregos em seu ventre, junto às muralhas de Tróia. Os troianos acreditaram ser um presente dos gregos como sinal de rendição. Durante a noite os gregos deixaram o artefato e abriram os portões da cidade, que foi facilmente invadida, incendiada e destruída.

Atualmente essa expressão é famosa pela associação com códigos maliciosos (“worms”) que infestam computadores. 


Mas também podemos aplicar essa expressão “cavalo de Tróia” a um recorrente fenômeno do encontro entre a ciência e a mída. Mais precisamente, a exposição de cientistas na mídia onde expressam seus posicionamentos políticos “progressistas” ou “de esquerda”. Pela sua projeção midiática, passam a ser celebrados pela a intelectualidade e simpatizantes dessa ala política. Alguns passam a ser mais conhecidos pelas suas declarações políticas do que pela pesquisa cientifífica. Mas há algo contraditório: apesar dos posicionamentos midiáticos progressistas, os fundamentos das suas pesquisas científicas são conservadores, para não dizer reacionários em alguns casos.



Certa vez, o psiquiatra e psicanalista austríaco Wilhelm Reich, um pouco antes de estourar a II Guerra Mundial, já havia observado uma contradição parecida, se bem que em outro campo: ele notou como a intelectualidade e militância de esquerda era politicamente progressista, mas com uma moralidade conservadora (sexualmente repressores).

O cientista “Cavalo de Tróia”, essa nova espécie de personalidade midiática, ganha espaço, simpatia e elogios de jornalistas, intelectuais, blogs e grandes espaços ideologicamente progressistas. Alguns desses cientistas até são atacados pela direita, sem perceberem que sua ciência é ideologicamente conservadora. 

Parecem funcionar como um cavalo de Tróia de verdade: por serem cientistas famosos e respeitados que corajosamente assumem em público posicionamentos politicamente à esquerda, são recebidos como um presente pela ala progressista. Porém a ingenuidade ideológica não deixa perceber os fundamentos conservadores dos seus projetos científicos que, em última instância, ajudam a reproduzir a própria ordem que tencionam criticar.

Nessa postagem pretendo falar de três “Cavalos de Tróia”: o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, o linguista norte-americano Noam Chomsky e o cientista de computadores Jaron Lanier.

Do apoio à candidatura Dilma ao Delírio Digital

O caso do internacionalmente prestigiado neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis é o mais recente exemplo. Durante as últimas eleições presidenciais declarou seu apoio à candidatura Dilma do PT e criticou a parcialidade da grande imprensa brasileira, explicitamente a favor da candidatura de José Serra do PSDB. Ao mesmo tempo se posicionou a favor de políticas públicas que democratizassem o acesso à ciência através de um maior investimento do estado em pesquisas científicas.

Seu posicionamento ganhou ainda mais peso ao ter reconhecimento internacional ao ser nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, na qual já foi membro Galileu Galilei. Desde então, Nicolelis passou a ser atacado por sites de extrema-direita norte-americana enfurecida pelo fato de um cientista ateu e pró-aborto ter sido nomeado pelo Papa à Academia de Ciências do Vaticano.

Uauu! Um cientista progressista de coragem! Incensado pelos chamados “blogueiros progressistas” concedeu uma entrevista coletiva para eles em Natal, Rio Grande do Norte, sobre “ciência, democracia, política e jornalismo” (clique aqui e leia a matéria). Então, nessa oportunidade, pode demonstrar o seu conservadorismo científico, politicamente disfarçado, mas que expressa ao que me referi em outra postagem (veja links abaixo) como “delírio digital”: forma tecnocrática ou tecnognóstica de ciência autoritária.

Primeiro, decretou o fim da identidade na cultura de rede, “onde você pode assumir tudo o que sempre quis ser”. O desejo por virtualidade como liberdade de ser o que quiser sem “preconceitos”. Você é o seu avatar! Elogio ao sujeito fractal, com identidade fraca e facilmente integrada ao todo. Sob o discurso do “fim do preconceito” e “liberdade” fica difícil para os ouvintes perceberem a matriz autoritária desse discurso.

E mais: a integração mente/máquina (o “mentalismo”) como algo despolitizado (mas quem será o dono do hardware para onde nossas mentes migrarão?). E, para terminar, decreta a falência da democracia representativa. Já ouvimos em algum lugar esse discurso que, no limite, justificaria uma república comandada por uma elite tecnocrática. Da república dos filósofos imaginada por Platão à elite de neurocientistas que nos concederia a vida eterna da mente no interior das redes, o mesmo imaginário autoritário da utopias tecnocientíficas.

Das críticas ao capitalismo até o “Mentalismo”

Certamente o linguista norte-americano Noam Chomsky é mais conhecido pelos seus posicionamentos políticos de esquerda do que por sua ciência. É uma curiosa figura heterodoxa: como pesquisador do MIT (Massachusettes Institute of Technology) desde o auge da Guerra Fria nos anos 50 é um insider (sabemos que esse instituto é intimamente conectado com a inteligência militar dos EUA) e, ao mesmo tempo, é um outsider como ferrenho crítico da política externa do governo norte-americano, ao poder de manipulação dos meios de comunicação de massas e a formação de um Estado autoritário pelo capitalismo.

Idolatrado nos EUA como um intelectual anarquista, grupos musicais como o Rage Against Machine leva exemplares de seus livros nas turnês e o grupo de rock REM já chegou a convidar Choamsky a dar palestras em seus shows.

Curiosa essa condição de ser simultaneamente um insider e um outsider! Ainda mais quando descobrimos os pressupostos conservadores da sua pesquisa científica e, principalmente, como os seus resultados se encaixam na atual agenda tecnocientífica tecnognóstica: a virtualização da mente e da consciência com propósitos políticos de controle social e monitoramento, tão criticados em seu discurso crítico político.

Chomsky criou a Gramática Generativa, a proposta de uma gramática formal que explicasse, a partir de modelos algoritmos, como a mente consegue apreender estruturas gramaticais tão complexas das linguagens e, de forma tão rápida (principalmente em crianças), criar “enunciados infinitos a partir de meios finitos” (a estrutura gramatical fechada de todas as línguas). Negando a psicologia behaviorista onde o homem apreenderia a linguagem por imitação ou influência do meio externo, ela parte para a explicação de uma natureza inata da mente humana: a Faculdade de Linguagem, um “órgão mental” geneticamente recebido.

Choamsky retorna à noção de Descartes do século XVII de que a consciência estaria em algum lugar no cérebro (mais precisamente na glândula pineal, segundo a noção cartesiana do passado): é o “mentalismo”. Será a base de toda a ciência cognitiva e das neurociências que vão explicar o funcionamento do cérebro segundo o modelo computacional. Todo o mecanismo cognitivo do cérebro, segundo Chomsky, poderia ser descrito por meio de regras matemáticas e modelos algorítmicos.

Os profundos estudos em Inteligência Artificial e a tentativa de estabelecer uma conexão final entre mente/máquina reside na descoberta desta verdadeira “pedra filosofal”: como o ser humano poder criar o infinito a partir do finito? De onde vem a criatividade, o “insight” em seres que parecem predestinados à linguagem? Quantificar isso em rigorosos modelos matemáticos é a tentativa de Chomsky, tentar traduzir em linguagem binária ou digital algo que é analógico e sensual. Isso quer dizer que, ao reduzir a apreensão da linguagem e a consciência à mente (desprezando a realidade de que a “mente” está inserida num corpo), nega todos os avanços em Filosofia e Psicologia recentes (Fenomenologia e Existencialismo, por exemplo).

O Mentalismo de Chomsky reflete um projeto político, no final, autoritário: a consciência está para a mente assim como o poder deve estar em uma elite tecnocrática. Corpo e povo que sejam discriminados ou “virtualizados”.

Da religião das máquinas ao “mercado sem fronteiras”

O cientista de computadores e criador do conceito de realidade virtual no início da década de 80, Jaron Lanier, parece ser um dissidente da elite tecnológica do Vale do Silício. Com seus pesados dreadlocks e appeal de ciberanarquista, tem uma séria e consistente crítica em relação às tendências das tecnologias computacionais e a Internet.

Denuncia que uma “religião das máquinas” e um projeto “pós-humano” inspiram a elite tecnológica atual, que encara o ser humano como “um robô biológico” a ser superado pela Internet transformada num gigantesco cérebro. Vê nas redes sociais um início desse processo quando o usuário se transforma num aplicativo que apenas replica informações e converte-se a si mesmo numa versão simplificada, por meio de avatares ou perfis, para que o software possa entender: a identidade transformada em informações simples (status de relacionamento, gostos musicais etc.) para que o computador possa entender, catalogar e processar.

Ainda de forma mais incisiva, critica a Universidade da Singularidade do Vale do Silício, alimentada por dinheiro do Google e Yahoo!, onde pessoas obtêm diplomas absorvendo esses conceitos que preparam a humanidade para a vida virtualizada e artificial.

Uauu! Uma crítica de um cientista que trabalha ativamente no Vale do Silício, no centro da elite virtual! Mas, no bojo da sua crítica aparentemente ontológica, isto é, onde parece fazer uma crítica ao próprio cerne metafísico que estaria embutido na tecnologia (como a crítica feita pelo filósofo Heidegger sobre a metafísica da tecnologia), está um pressuposto bem conservador: a ideia de que por trás dessa “religião das máquinas” escondem-se ideologias “maoistas” ou “comunistas” de cientistas que contaminam a pureza da tecnociência.

Pasmem! Lanier sugere, nas entrelinhas, uma caça às bruxas comunistas no Vale do Silício! (clique aqui e leia entrevista concedida à revista “Veja”). Os mesmos cientistas que, segundo ele, querem uma Internet livre onde tudo é grátis por serem “comunistas que acreditam que o dinheiro é mau”.

Solução: uma Internet que seja um “mercado sem fronteiras” e um novo individualismo humanista sejam criados a partir da famosa “liberdade de mercado” do liberalismo clássico de Adam Smith do século XVIII. A volta da Guerra Fria e Macarthismo da década de 50, dessa vez no high tech Vale do Silício.

Portanto, qual seria a função política desses cientistas “Cavalo de Tróia? Hipótese para discussão: seriam peças de uma Engenharia de Consenso na medida em que, através da mídia, esses cientistas caem na simpatia das alas chamadas progressistas ou de esquerda, sem perceberem que em seu bojo trazem ideias científicas com pressupostos conservadores e reacionários. Dessa maneira, sua ciência é neutralizada transformando-se numa agenda tecnocientífica ingenuamente aceita pela opinião pública.

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