Cinegnose

por Wilson Ferreira

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11 de dezembro de 2011, 12h21

A Princesa não quer acordar em “A Bela Adormecida”

Concorrente à Palma de Ouro em Cannes, “A Bela Adormecida” (Sleeping Beauty, 2011) da estreante diretora australiana Julia Leigh desconstrói o conto de fadas clássico: e se a princesa não quisesse acordar? O cenário é o de uma sociedade onde o trabalho foi precarizado e a “princesa” é uma “freelance” numa roda-viva de subempregos marcada pela frieza emocional e onde príncipes foram substituídos por um submundo de milionários sexualmente pervertidos em uma mansão de “serviços à inglesa”.

Na versão original do francês Charles Perrault do conto “A Bela Adormecida” uma princesa é amaldiçoada a dormir por cem anos até ser despertada pelo beijo de um belo e corajoso príncipe que enfrentou uma floresta de espinhos venenosos para entrar no castelo. Cinquenta e dois anos depois da última releitura desse conto por Walt Disney em 1959, a escritora australiana Julia Leigh (“The Hunter” e “Disquiet”), em sua estreia como diretora, revisita a clássica estória de uma forma invertida: e se a princesa não quisesse acordar? Ela não possui um reino, mas é solitária. E sempre visitada por homens que não são mais príncipes, mas visitantes de uma só noite que se aproveitam sexualmente dela enquanto está imersa no seu sono voluntário.

Indicado à Palma de Ouro de Cannes nesse ano, o filme “A Bela Adormecida” reduz o clássico conto de fadas ao seu núcleo mítico ou arquetípico: o sono e o esquecimento. Através de uma narrativa estranha, espectral, etérea e fria narra a trajetória de uma “princesa” contemporânea, Lucy (Emily Browning), uma estudante universitária em Sidney, Austrália, de pele branca leitosa e cabelos de cor vermelho-ouro, onde, tal qual um hamster correndo em uma roda de gaiola, vive em uma ciranda de subempregos e identidades fragmentadas: cobaia remunerada de um laboratório, garçonete em um café, operadora de uma fotocopiadora em um escritório e, ocasionalmente, prostituta em pubs frequentados por yuppies.

Como pano de fundo, uma relação complicada com a mãe alcoólatra e com um amigo chamado Birdman que também está lentamente morrendo no alcoolismo e com quem Lucy, estranhamente, tem uma relação de culpa. Aliás, também é estranha a roda-viva de subempregos à qual Lucy se submete: tal como um zumbi, sem expressar sentimentos, automaticamente exerce suas funções. Ela parece uma sonâmbula que voluntariamente quer se esquecer de algo como forma de proteção emocional.

Mas tudo se torna ainda mais estranho quando Lucy aceita mais um freelance: uma espécie de serviço de acompanhante de executivos. Na verdade, tal qual o protagonista do filme de Stanley Kubrick “De Olhos Bem Fechados”, ela desce ao submundo de velhos homens da alta sociedade que contratam jantares confidenciais “à inglêsa”, onde garçonetes trajando lingeries servem refinados pratos em uma mansão, em uma atmosfera sado-masô que remete também ao filme “Saló” de Pasolini.

Logo, sua figura de beleza fria e etérea se destaca, sendo convidada a uma “promoção” com alguns riscos a mais: voluntariamente deverá tomar um chá com um sonífero que a faz passar a noite em um quarto em revezamento com os velhos milionários dos jantares. Ela jamais saberá o que eles fizeram com ela enquanto dormia, mas uma regra deve ser respeitada: não pode haver penetração! O que vemos a partir daí são velhos milionários impotentes que se sucedem vivendo fantasias de necrofilia em sequências perturbadoras.

Sono e Esquecimento

Por que essa bizarra versão invertida da Bela Adormecida? É evidente que Julia Leigh cria um pano de fundo sociológico para a sua desconstrução do conto de fadas: a precarização do trabalho na sociedade atual. A certa altura da narrativa Lucy justifica sua ciranda de subempregos como “aprimoramento de habilidades”. O anúncio do “serviço à inglesa” procura garotas “magras e audaciosas” e que vai torná-las “bonitas e talentosas”.

Uma série de eufemismos é utilizada para encobrir trabalhos precarizados, de curto prazo, sem vínculos ou sentido. A sua “promoção” final onde assume o papel de uma bela adormecida pós-moderna visitada por milionários pervertidos é o ápice e a metáfora da sua ausência emocional que usa como mecanismo de defesa diante da fragmentação da sua vida.

Durante toda a narrativa, em cada sequência (construída em longos enquadramentos que reforça a frieza da protagonista), Lucy está simultaneamente presente e ausente, como se já estivesse dormindo há muito tempo antes do chá sonífero do emprego final. Ela não quer acordar. É a única estratégia minimalista de sobrevivência psíquica diante de uma rotina esquizofrênica de múltiplos papéis que não se somam, apenas subtraem dela sua vitalidade e viço.

Toda a narrativa é permeada pela atmosfera de sono, esquecimento e impotência. Lucy tenta despertar da letargia, mas o resultado é a perversão e autodestruição, assim como os velhos milionários veem na fantasia necrófila com Lucy uma resposta pervertida à impotência sexual.

A certa altura, na entrevista inicial onde a empregadora Clara (Rachael Blake) apresenta o “serviço à inglesa” ela destaca a regra de não haver penetração: “Sua vagina será seu templo”, a que Lucy responde impaciente: “minha vagina não é um templo!”. Quanto mais indiferente e distante emocionalmente se torna Lucy, mais seu corpo é exposto de forma destrutiva.

Cada momento como se fosse o próximo

Numa leitura rápida e moralista podemos afirmar que a protagonista Lucy é niilista ou imediatista por querer viver cada momento como fosse o último em baladas, carreiras de cocaína, bebidas e prostituição entre os intervalos na roda-vida de subempregos.

Se pegarmos como referência a análise das patologias temporais do italiano Giacomo Marramao (veja MARRAMAO, Giacomo. Kairós – Apologia del tiempo oportuno. Ed. Gedisa, 2002), veremos que a questão é mais profunda: não se trata mais de viver intensamente os momentos de forma irresponsável, mas de atrofiar a experiência do presente para viver uma hipertrofia de expectativas futuras. Esse descarrilamento emocional de se projetar continuamente no futuro conduz a patologia da melancolia: a sensação de estar sempre chegando demasiadamente tarde ao encontro com a vida.

Lucy sempre está pensando no próximo freelance para “aprimorar habilidades”. A experiência presenciais se tornam genéricas, vazias e destituídas de investimento emocional. Sua mente está apenas no “futuro”. Mas um futuro não mais como projeção onírica de sonhos, fantasias ou metas, mas como um sono sem sonhos: espera apenas acordar, sem ter consciência do que ocorreu com seu corpo naquele quarto da mansão do “serviço à inglesa”.

O pano de fundo construído pela diretora Julia Leigh de uma sociedade de trabalho precarizado para jovens abre uma leitura muito mais ampla para além da desconstrução do conto de fadas “A Bela Adormecida”. A incapacidade de Lucy em investir emocionalmente em experiências presenciais e a hipertrofia de expectativas como mecanismo de defesa psíquico faz refletir sobre a condição de incomunicabilidade em um mundo cercado de mídias sociais em banda larga:  jovens se reúnem com amigos e namoradas em bares e pubs para ficarem distantes da experiência presencial com a cabeça no futuro através das interfaces de palm tops, celulares, Ipods etc. A bizarra experiência de estar simultaneamente presente e ausente, aqui e lá, no espaço e ciberespaço e assim por diante.

Sem vivermos o presente, todos nos tornarmos “belas adormecidas” em um sono sem sonhos, sem termos consciência do aviltamento a que nossos corpos são submetidos em situações presenciais, como, por exemplo, os subempregos freelance que acumulamos tal como hamsters girando em gaiolas.

Ficha Técnica

  • Título: A Bela Adormecida (Sleeping Beauty)
  • Diretor: Julia Leigh
  • Roteiro: Julia Leigh
  • Elenco: Emily Browning, Rachael Blake, Ewen Leslie
  • Produção: Screen Australia e Magic Films
  • Distribuição: Paramount Pictures
  • País: Austrália
  • Ano: 2011



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