Cinegnose

por Wilson Ferreira

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17 de maio de 2016, 10h53

A profecia autorrealizável de Temer: assim nascem as crises

No discurso de posse como vice-agora-presidente-interino-em-exercício, mais uma vez Michel Temer exibe a sua tradicional canastrice telegência (gestual, entonação e postura corporal alusivos a apresentadores de TV), atualmente elemento importante na propaganda político. Mas Temer foi além. Já no final, mais descontraído, exortou os brasileiros a “não falar mais em crise” a partir de um outdoor que teria lhe inspirado, onde lia-se: “Não fale em crise… trabalhe!!!”. Temer quer espalhar outdoors como esse pelo País. Ironicamente, depois de três anos onde a grande mídia cultivou meticulosamente o baixo astral para reverter as expectativas dos agentes econômicos. Dessa maneira, Temer sem querer revelou como nascem as crises econômicas: profecias autorrealizáveis. Crises cujas causas estariam muito mais no campo semiótico do que nas conjunturas dos fatores econômicos.

Já que estamos iniciando tempos de back to the future com a posse do vice-agora-presidente-interino-em-exercício Michel Temer e seu ministério somente de homens brancos e ricos, poderíamos lembrar dos chamados escritores fisionomistas do século XIX como, por exemplo, Honoré de Balzac autor de A Comédia Humana. Ele acreditava que poderíamos conhecer a índole de uma pessoa pela observação da sua fisionomia.

Certamente o physique du rôle de Temer seria um prato cheio para o fisionomista Balzac. Escreveria muitas linhas sobre a personalidade por trás de uma fisionomia que provoca alcunhas como “Mordomo do Drácula”, “ave de rapina” ou “O Amigo da Onça”, referência ao personagem traiçoeiro criado pelo cartunista Péricles. 

Em postagem passada o Cinegnose já analisou a canastrice telegênica de Temer como importante elemento de propaganda política – o peito empolado, as mãos gesticulando sempre em movimentos circulares e o corte reto ultrapassado do terno e a cabeça sempre maneando  lembrando alusões televisivas como Silvio Santos, Raul Gil e a seriedade estudada de William Bonner – sobre isso clique aqui.

Mas além de todos esses aspectos que envolvem o artificialismo da canastrice na propaganda política, o discurso da posse de Michel Temer trouxe uma inesperada revelação de como nascem as crises, sejam elas econômicas ou políticas. 

No final do discurso de posse, visivelmente mais solto e com uma gesticulação ainda mais frenética com os mesmos movimentos circulares (o velho tique do Sílvio Santos que reflete uma espécie de etiqueta pseudo-chique afetada de classe média, assim como tomar um copo de uísque com o dedo mínimo levantado), Temer entusiasmado disse:

A partir de agora nós não podemos mais falar em crise… há pouco tempo passava por um posto de gasolina na Castelo Branco e um sujeito colocou uma placa: “Não fale em crise, trabalhe”. Eu quero até ver se consigo espalhar essa frase em 10, 20 milhões de outdoors por todo o Brasil, porque isso cria um clima de harmonia, interesse, de otimismo… Portanto, não vamos falar em crise…

Esse pequeno trecho renderia várias teses e dissertações em áreas tão diversas como Economia, Psicologia e Comunicação Social.  Revela o fenômeno inercial cognitivo da profecia autorrealizável, presente na inseminação de crises, sejam econômicas, pessoais ou nos efeitos virais dos climas de opinião. 

O desafio de Temer

Esse é o desafio de Temer: dar a uma previsão positiva a força de uma profecia autorrealizável. Como veremos, esse fenômeno inercial cognitivo parece apenas funcionar em previsões negativas como nos boatos ou expectativas sobre inflação, falências, crises, pânico etc.

E também parece que esse wishful thinking de Temer começou bem desastrado: o dono da frase que inspirou o presidente-interino-em-exercício é um empresário que está preso por tentativa de homicídio e ainda responde por estelionato e receptação – clique aqui.

A exortação “a partir de agora não devemos falar de crise” sugere que até minutos antes da posse do novo ministério todos estavam falando em crise. Interessante exortação, já que Temer admite que não é apenas suficiente adotar as clássicas medidas técnicas para a criação do  Estado Mínimo neoliberal para que tudo melhore – é necessário também um, por assim dizer, “pensamento positivo”, o desejo e a admissão de que não existe mais crise. 

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

Wittgenstein: a pragmática antecede a semântica

Filósofos da linguagem como Wittgenstein diriam que esse é um típico exemplo de como a pragmática antecede a semântica, os diferentes modos ou jogos de linguagem antecipam qualquer iniciativa da linguagem representar qualquer realidade. O contexto antecede o significado. O signo não representa – antes disso pede uma reação.

A grande mídia nos últimos três anos bateu diariamente, manhã tarde e noite, na tecla de uma crise econômica descontrolada: desemprego, inflação, dívida pública, apagões etc. Se até 2012 o País tinha um “crescimento econômico invejável” e “decolava” com a entrada nos BRICS, como observava a revista The Economist, repentinamente tudo mudou como se tivesse virado um disco de vinil para o lado B. Da euforia para a catástrofe de uma hora para outra.

O mito da “decisão errada”

E todas as mazelas seriam fruto das “decisões erradas” da presidenta que fariam os investidores retraírem, o PIB cair e a nota de crédito do País despencar.

O mito da “decisão errada” em economia (o viés errado da taxa Selic, o travamento de investimentos em infraestrutura, manter juros elevados, taxa de câmbio fixa etc.) encobre essa natureza pragmática dos discursos apontado por Wittgenstein. A aparente tecnicidade das críticas esconde a disputa inerente à toda ação política – puxar a brasa da fogueira para o seu lado.

O discurso não é semântico, mas pragmático. Quer induzir uma ação, um efeito. Por isso o mecanismo da profecia autorrealizável talvez seja o elemento mais forte tanto na Economia quanto na Política, principalmente em tempos onde o contínuo midiático dá sentido e repercussão a discursos e ações.

Através desse mecanismo, mesmo que as condições para que algo ocorra não existam, tais condições podem ser construídas por comportamentos, percepções e desejos convergentes (que são facilitados pela Consonância, Acumulação e Onisciência midiáticas – CAOs) que acabam impactando a opinião pública. 

Pérsio Arida e o Plano Real

A profecia autorrealizável econômica

Mesmo que não existam todas as condições para surgir uma crise, ao ser admitida como inevitável e, portanto real, pode induzir a comportamentos que a tornam não somente possível, mas efetivamente realizável.

Mesmo os economistas admitem essa possibilidade e levam em conta nas suas fabulações técnicas. Por exemplo, na época da hiperinflação no princípio dos anos 1990, diante da expectativa do controle dos preços do Governo, os agentes econômicos puxavam os preços para cima com o medo das medidas restritivas. O suposto remédio anti-inflacionário potencializava a própria inflação – o aviso de que uma autoridade monetária iria agir alimentava o incêndio que iria apagar.

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