Cinegnose

por Wilson Ferreira

#Fórumcast, o podcast da Fórum
12 de setembro de 2019, 22h55

Ao invés de conquistar corações e mentes, Esquerda prefere ser o cão de Pavlov

Diante da repetição de estímulos diários através de bravatas, provocações escatológicas, chulas e autoritárias do Governo, a guerra semiótica criptografada tem jogado a esquerda e oposições num labirinto de informações desconexas, transformando-as em um cão de Pavlov pós-moderno

Há 100 anos o célebre médico russo Ivan Pavlov realizou um experimento que iria mudar para sempre a natureza da propaganda política, além de criar o motor psicológico da sociedade de consumo e transformar a forma como o seu humano vê a si mesmo.

Pavlov descobriu o condicionamento das funções fisiológicas: treinou cachorros a ficarem com água na boca mesmo sem ter um prato de comida por perto.

Reflexo fisiológico diante da presença do alimento, Pavlov conseguiu que os animais salivassem mesmo sem a presença da comida com o simples som de uma sineta – toda vez que Pavlov os alimentava, tocava a sineta. Até o momento em que percebeu que mesmo com o prato vazio, a sineta fazia os cães babarem famintos. Pavlov descobria o reflexo condicionado.

Dos estímulos de propaganda (medo, provocação etc.) aos estímulos publicitários fazendo o papel da sineta de Pavlov que nos faz desejar coisas mesmo sem necessidade fisiológicas (fome, sede etc.), certamente foi o experimento mais influente do século XX. A partir daquela descoberta do médico russo, estava disponível mais uma ferramenta do imenso kit semiótico de manipulação das massas – sobre esse kit semiótico clique aqui.

Aqui no Brasil, como era esperado, a proximidade da simbólica data do sete de setembro fez as estratégias criptográficas para embaralhamento e confusão da opinião pública se intensificarem.

Principalmente quando a sineta pavloviana soa para produzir reflexos condicionados – no caso, não a saliva, mas a reação com o fígado, bem ao gosto da extrema-direita que precisa do ambiente de contínua conflagração e tensão. Como observou em cheio Romulus Maya do blog “Duplo Expresso” – clique aqui.

Presos num labirinto

Uma conflagração estratégica: deixar a esquerda perdida dentro de uma espécie de labirinto de informações, cheia de raiva e indignação. Enquanto lá fora do labirinto, o Estado, patrimônio e soberania nacional vão sendo fatiados, queimados, pulverizados ou simplesmente vendidos na xepa do mercado.

Confusa e sempre reagindo de forma reflexa ao som das sinetas (as provocações diárias de Bolsonaro elogiando torturadores, falando mal dos dotes estéticos de esposas de presidentes; ou a censura do prefeito Crivella mandando apreender livros LGBT na Bienal do Rio etc.), a esquerda está paralisada e sonhando com algum tipo de intervenção, um “Deus ex-machina” – velho truque em roteiros malconduzidos para designar soluções arbitrárias ou sem nexo na narrativa para solucionar becos sem saída.

A possibilidade de um impeachment… seja através da CPMI da fake news funcionando no Congresso… ou pelas atitudes chulas de Bolsonaro… ou pela fúria dos caminhoneiros que se sentem traídos … ou, quem sabe, pelo Tribunal Internacional de Haia que puna Bolsonaro por “ecocídio… ou que, de repente, o STF caia em si e reconstitua o Estado de Direito libertando Lula.

Um laudo médico, pelo amor de Deus!

Um exemplo flagrante dessa ausência total de foco como cães de Pavlov que salivam sem ver o prato de comida é o artigo do veterano jornalista Ricardo Kotscho “Um ano após facada, quem está na UTI é o Brasil”.

De início, acertadamente, Kotscho faz o diagnóstico do sucesso da guerra criptografa de Bolsonaro:

Já pensei mil vezes em mudar de assunto e deixar de falar no inominável, mas é impossível. Basta abrir o computador ou o jornal, ligar a televisão ou o celular, lá está ele falando merda, anunciando decisões malucas, contrariando a lógica e a ciência, desafiando repórteres e adversários, ofendendo e agredindo pessoas com seu vocabulário escatológico, defendendo torturadores – clique aqui.

O linguista e ativista Noam Chomsky também observa essa mesma estratégia alt-rigth de Donald Trump na qual a grande mídia, supostamente de oposição, cai feito patinho nas provocações diárias do presidente:

Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós” – clique aqui.

“O que fazer?”, indaga Kotscho. Logo apresenta a solução, indicada pelo médico Vitor Buaiz, ex-prefeito de Vitória e ex-governador do Espírito Santo: sugerir à Sociedade Brasileira um laudo médico sobre o estado de saúde mental do presidente como fundamento para sua interdição.

Kotscho acaba invocando o mesmo modus operandi “Deus ex-machina”: suplicando algum tipo de intervenção externa à atual narrativa de um governo que, intencional e provocativamente, repercute tosquices, autoritarismo, escatologias e intolerância.

Soma-se a esse suposto laudo psiquiátrico que interditaria Bolsonaro, vídeo postado em perfis progressista de Macron confessando para um interlocutor na reunião do G7 sua vergonha alheia de Bolsonaro. Graças a reações como essas do presidente francês, a esquerda nutre a esperança que, de algum lugar do planeta, surja uma corrente de juristas, advogados ou pensadores “do Bem” que façam algum tipo de abaixo assinado que ajude a barrar Bolsonaro. Ou que a vergonha alheia do mundo, por si, enfraqueça o autoritarismo do mandatário.

Se nos EUA é a grande mídia liberal que cai na estratégia traçada por Trump, aqui é a esquerda e oposição que salivam como o cão de Pavlov a cada provocação. Qual a consequência? Reage com o fígado, se enche de ódio e indignação e tenta, de qualquer forma, revidar à altura “lacrando” com vídeos ou “textões” em redes sociais.

Guerras culturais, o “libelo da Folha” e Bárbara Paz

O episódio da tentativa de censura do prefeito do Rio Marcelo Crivella de querer recolher na Bienal do Livro do Rio o gibi da Marvel “Os Vingadores: A Cruzada das Crianças”, na qual aparecia um beijo gay, é emblemático. Rendeu protestos, “beijaços” entre casais LGBT, além de impulsionar a própria venda do livro.

E mais: a esquerda saudou como “edição histórica” a primeira página do Jornal Folha de São Paulo na qual a imagem do beijo da HQ ocupa grande parte do espaço. Um “libelo da luta contra a censura e autoritarismo que tomam conta do País”, exultaram. Por participar das apurações da “Vaza Jato de Glenn Greeenwald, de repente a Folha parece que tornou-se uma aliada, supostamente “arrependida” em ter feito parte, no passado, da câmara de eco da Lava Jato e da guerra híbrida.

Mas diligentemente a Folha participa da guerra criptografada do governo atual publicando essa primeira página. Estrategicamente reforça a cegueira da esquerda e a bipolaridade da qual vive o clã Bolsonaro. Ajudando a estender o véu que esconde do brasileiro médio a bomba-relógio da agenda neoliberal.

Pior ainda: blogs progressistas destacaram vídeo com discurso da atriz Bárbara Paz ao ser premiada no Festival de Veneza pelo documentário sobre a vida de Héctor Babenco. “Esse prêmio é importante para o meu país. Precisamos dizer não à censura: vida longa à liberdade de expressão”, exaltou emocionada.

“Um coro pela liberdade de expressão!”, saúda entusiasmada a esquerda.

Certamente um gesto tão heroico quanto o protesto da atriz Maitê Proença em manifestação no Rio em defesa da Amazônia ao lado de artistas progressista e de esquerda – logo ela que apoiava Bolsonaro afirmando que ele era “autêntico”.

Em 2013 Bárbara Paz ajudou a glamourizar a Guerra Híbrida brasileira

Com Bárbara Paz não é para menos: no auge da “revolução colorida” das manifestações de rua patrocinadas pela guerra híbrida (2013-16), estratégicas para a derrubada do governo Dilma, a atriz deu uma força ao protagonismo dos black blocs ao participar de ensaios fotográficos de moda que glamourizavam o ativismo dos “mascarados” que supostamente lutavam contra a “bandalheira nacional” e um governo “autoritário e policial” – veja fotos acima.

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