Cinegnose

por Wilson Ferreira

O que o brasileiro pensa?
06 de janeiro de 2019, 11h39

As guerras táticas da comunicação de Bolsonaro

Bastaram apenas quatro dias desde a posse (ou possessão?) do presidente eleito, para ficar clara a linha de continuidade entre a campanha eleitoral e a estratégia de Governo: uma atividade sistemática e diária de comunicação que objetiva criar uma espécie de fosso repleto de crocodilos em volta do castelo. 

Guerra econômica, guerra cinética, guerra da informação. Esses três princípios da guerra moderna parecem estar estruturando a tática militar de comunicação do “staff” de Bolsonaro. Em quatro dias desde a posse do capitão da reserva, ficou evidente a linha de continuidade entre a campanha eleitoral e a rotina diária do governo. Marcadas não pela estratégia clássica de propaganda, mas por táticas diversionistas de comunicação: “Marxismo cultural”? “Ideologia de gênero”? Bolsonaro desautorizou Paulo Guedes? Quem é menina ou menino? Quem veste rosa ou azul? A logística da guerra é uma questão de desorientar e criar pânico no adversário – no caso atual, criar dissonâncias e ambiguidades. Com isso, qualquer discussão sobre a “guerra econômica” (“tirar”, “acabar”, “reduzir”, “diminuir” etc.) e a guerra cinética (a guerra ao pan terrorismo narco-político), embora com impactos bem concretos num futuro próximo, está oculta da opinião pública com a proliferação de memes, metamemes e análises da grande mídia que escondem o essencial: a guerra produzida sob o discurso da “terra arrasada”.

Em postagem anterior, esse humilde blogueiro argumentava que desde a campanha eleitoral, Bolsonaro não utilizou estratégias de propaganda, mas de comunicação: ao invés dos instrumentos de convencimento e persuasão (doutrinação ideológica, retórica, repetição de slogans, festas e discursos em palanques), sistematicamente produziu informações dissonantes, ambiguidades, bravatas e provocações para criar, principalmente, polarização – clique aqui.

Por isso, é sintomático que o seu “parlatório” sejam as mídias sociais no lugar dos meios de comunicação de massas – apesar do papel fundamental dessas mídias clássicas como função de pauta ou agendamento dos pitacos no WhatsApp e Twitter: o pano de fundo da grande mídia acaba sendo o condutor dos “debates” nas redes sociais.

Propaganda não é comunicação, é a esteticização da informação, de caráter acumulativo, aditivo, afirmativo; e comunicação é acontecimento – tudo aquilo que gera eventos que criam dissonâncias, que confrontam, interferem, tornam-se agentes disruptivos.

Bastaram apenas quatro dias desde a posse (ou possessão?) do presidente eleito, para ficar clara a linha de continuidade entre a campanha eleitoral e a estratégia de Governo: uma atividade sistemática e diária de comunicação que objetiva criar uma espécie de fosso repleto de crocodilos em volta do castelo.

O castelo do “núcleo duro”

Esse castelo seria o “núcleo duro” do Governo (economia, justiça e segurança) que, à todo custo, deve se manter longe de qualquer debate racional na opinião pública.

Enquanto os “crocodilos ferozes” são jogados diariamente nesse fosso para chamar a atenção e distrair – são as dissonâncias e provocações.

Desde o primeiro dia do ano, a estratégia de comunicação foi a de encher esse fosso de proteção com diversos “crocodilos”:

(a) Meganhização da posse com Brasília em estado de sítio não declarado: soldados fortemente armados com toucas ninja e ordens para abater qualquer “OVNI” (desculpe a ironia…) que aparecesse no espaço aéreo da capital – na verdade, apenas a continuação icônica das imagens diárias dos telejornais nos últimos quatro anos com policiais federais nas ruas armados até os dentes para fazer prisões coercitivas nas inesgotáveis operações da Lava Jato;

(b) Contenção e maus tratos dos jornalistas na posse como indício do alvorecer de uma distopia autoritária brasileira na qual os pobres jornalistas serão censurados e executados. Enquanto isso, nas telas da TV, Bonner só faltou bater continência para as câmeras do Jornal Nacional, elogiando a tecnologia de informação da emissora que conseguiu suplantar os “desafios logísticos” da cobertura da posse presidencial;

(c)  Em pouco mais de 12 horas, recorrentes dissonâncias de informações entre o que Bolsonaro fala daquilo que efetivamente a equipe econômica está planejando – o capitão da reserva fala em aumento da alíquota do IOF, redução das faixa de Imposto de Renda e anúncio de idade mínima para aposentadoria (57 para mulheres e 62 para homens), enquanto integrantes do Governo como Marcos Cintra (secretário da Receita Federal) e Onix Lorenzoni (ministro chefe da Casa Civil) tentam acalmar os ânimos diante de estupefatos jornalistas, tentando traduzir a fala presidencial: “não era bem assim…”, “ele estava querendo dizer…”;

(d) O confuso e inacreditável discurso do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo dizendo que o “marxismo cultural pilota o globalismo”, a “fé em Cristo para lutar contra o globalismo anti-cristão”, entre citações a Raul Seixas e Renato Russo;

(e) O discurso de posse (ou possessão?) do novo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, dizendo que vai acabar com o “marxismo cultural nas escolas” e “ideologia de gênero” porque “faz mal à saúde”;

(f) E, o mais pirado crocodilo do fosso que cerca o castelo, a fala da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) dizendo que “o Estado é laico, mas essa ministra é terrivelmente cristã!” e que “é uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa”, tendo ao fundo uma bandeira de Israel desfraldada por apoiadores…

Esquerda identitária namastê

De (a) a (f), tudo foi repercutido pelos analistas econômicos e políticos da grande mídia. Mas, em particular, a “metáfora” de Damares gerou a previsível reação da chamada “esquerda identitária namastê” com direito a Fernando Haddad posando de camisa rosa e livro na mão em foto nas redes sociais e o inefável Caetano Veloso posando no Instagram com uma camiseta rosa e a inscrição “proteja seus amigos”.

Modus operandi do artista que posava vestido de black bloc no auge das manifestações de 2013. Mais do mesmo: criação reativa de metamemes, atingindo em cheio o objetivo dessas verdadeiras bombas semióticas de dissuasão criadas pela estratégia de comunicação da assessoria de Bolsonaro.

E toca até a fazer análises linguísticas cognitivas de um não-acontecimento criado pela dublê de ministra e pastora neopentecostal. Como se houvesse algum substrato em um simulacro propositalmente plantado como “pseudo-evento”.

Sintomaticamente, enquanto grande mídia e a pretensa oposição política criam metamemes (recombinações e variações reativas das provocações) para supostamente denunciar as incorreções autoritárias e ideológicos do novo governo, o discurso do núcleo duro segue numa fileira de verbos no infinitivo: “acabar”, “tirar”, “reduzir”, “diminuir”, “cortar”, “encolher”, “fundir”, “finalizar”, “extirpar” e assim por diante.

Enquanto a grande mídia coloca acima de qualquer crítica esse discurso de gestor (sem projetos, imaginação ou criação), a esquerda se perde na polarização artificialmente criada. Para os luminares da esquerda, o ministério de Bolsonaro é formado por aloprados, pirados e proto-fascistas que poderiam tranquilamente figurar como personagens da distópica República de Gilead da série Handmaid’s Tale.

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