Cinegnose

por Wilson Ferreira

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28 de novembro de 2010, 15h44

Cartografias e Topografias da Mente no VI Encontro Científico da Universidade Anhembi Morumbi

Abaixo um resumo da apresentação dos resultados iniciais e das primeira hipóteses da pesquisa “Cartografias e Topografias da Mente” dentro do VI Encontro Científico e de Iniciação Científica da Universidade Anhembi Morumbi realizado na última sexta-feira. Se o cinema representa o imaginário social de uma determinada sociedade e de uma determinada época, o cinema atual reflete uma agenda tecnocientífica marcada pelo impacto das Neurociências e Ciências Cognitivas. Essa agenda tecnocientífica perpassa hoje a Internet com o frenesi das pessoas, espontaneamente, quererem registrar sua experiências privadas por meio de “lifestreams”, life-trackings” “inner geographies” e toda uma gama de cartografias da vida mental.


Quem acompanha a evolução temática das postagens do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”, percebe que, em diversas análises de filmes, identificamos a recorrência de argumentos, ideias e narrativas que refletem o que chamamos de agenda tecnognóstica. 
É uma característica dos filmes gnósticos desse começo de novo século. Filmes como Vanilla Sky, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, A Passagem (Stay), Sonhando Acordado (The Good Night), Ciência dos Sonhos, A Origem (Inception), Almas à Venda (Dead Souls) e Alice no País das Maravilhas de Tim Burton são verdadeiros mergulhos no mundo interior do protagonista (sonhos, memórias, devaneios, mas não apenas num sentido alegórico ou metafórico (como no filme “Quero Ser John Malkovich”), mas instrumental.


É como se tentasse um mapeamento ou cartografia das representações da mente para alcançar uma finalidade determinada: libertar-se de barreiras, constrangimentos ou traumas para ser uma pessoa mais assertiva, moralmente leve e sem culpas, liberar as potencialidades latentes e tornar-se um profissional ou pessoa bem sucedida.


A Gnose aqui é traduzida como autoconhecimento. A transcendência não é mais ambientada dentro da narrativa cósmica do gnosticismo clássico (transcender um universo artificialmente criado por um deus demiurgo que aprisiona o homem), mas, agora, como uma viagem introspectiva.

Se todo filme é um documento porque representa o imaginário de uma determinada sociedade ou período histórico, esse conjunto de filmes supracitado parece fortemente refletir uma agenda tecnológica atual marcada pelas neurociências, ciências cognitivas e memética e seus subprodutos como o neuromarketing e toda uma literatura em torno da auto-ajuda e autoconhecimento.

Explicando melhor, essa agenda tecnocientífica (tecnognóstica) surge, a princípio, da motivação mística que impulsiona as tecnologias computacionais: a busca da inteligência artificial a partir da solução do mistério da natureza da consciência, da mente e da alma. É essa motivação transcendentalista que conduz a eliminação do corpo (por meio de próteses) e a virtualização da subjetividade:

“As novas criações (biotecnologia, clonagem, nanotecnologia, realidade virtual ou a própria tecnologia computacional) apontam para a superação dos limites do orgânico. Victor Ferkiss vai caracterizar esta nova perspectiva com um conceito aparentemente paradoxal: “gnosticismo tecnológico”. O gnosticismo histórico caracterizava-se pelo horror ao orgânico e a uma aversão ao natural. Tais elementos seriam inimigos do espírito na sua busca por iluminação. Ora, a tecnociência atual aproxima-se de tal filosofia ao propor a superação dos parâmetros básicos da condição humana: finitude, contingência, mortalidade, corporalidade, animalidade e limitação existencial. Ferkiss, assim como Martins, apontam para esse surpreendente cruzamento entre as aspirações tecnológicas contemporâneas e as utopias gnósticas por transcendência.” (FERREIRA, Wilson Roberto V. Cinegnose. São Paulo: Giz Editorial, 2010, p. 25).

O final do século XX foi marcado pela primeira fase desse gnosticismo tecnológico: a possibilidade da criação de mundos virtuais. A virtualização da subjetividade se daria através da mediação de avatares ou interfaces gráficas que criariam a ilusão de experiências análogas ao mundo físico. Os capacetes de realidade virtual, data-gloves e a digitlização das sensações corporais estavam nesse projeto de “imersão” do Eu num mundo virtual. Filmes como Show de Truman e Matrix refletiram criticamente essa imaginário tecnognóstico da época: protagonistas aprisionados em mundos sem conseguir estabelecer a diferença entre o simulacro e a realidade.


No começo do século XXI temos o segundo estágio dessa agenda tecnognóstica: a busca da última interface da história da tecnologia, a conexão entre o biológico e o eletrônico, entre as redes neuronais e redes computacionais. Se o projeto da arquitetura da Internet foi baseada na arquitetura neuronal da mente (descentralizada, fractal etc.), o destino das tecnologias digitais seria o de buscar o modelo de simulação mais perfeita da dinâmica de funcionamento da mente e da consciência, tão perfeita que o mapa coincidiria com o território e a simulação substituísse a própria base orgânica da consciência.



Filmes como “Vanilla Sky” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” tematizaram criticamente essa possibilidade ao mostrarem que por trás dessa aspiração tecnognóstica escondem-se projetos manipuladores comerciais . De outro lado, filmes como “A Origem” e “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton fazem a apologia dessa agenda.


Cartografias e Topografias da Mente


Vivemos na atualidade um frenesi por mapeamentos ou representações cartográficas de nossos pensamentos, hábitos, relacionamentos, escolhas por meio de redes sociais, softwares e projetos pessoais que buscam elaborar verdadeiras “geografias interiores”. Há um esforço e incentivo deliberado para que todos os usuários, espontaneamente, disponibilizem seus dados pessoais ou apresentem, por conta própria, seus mapas metais e geografias pessoais. Temos uma série de exemplos:


1- Inner Geographies Project: levado a cabo pelog geógrafo e professor da Sonoma State University nos EUA Heidi K. LaMoreaux. Dividido em vários núcleos, o projeto pretende aproximar a
metodologias das ciências naturais na exploração “do que acontece em nossa vida interior: mente, corpo, nossas percepções de lugar e nossos mundos imaginários. Um verdadeiro mapeamento das memórias das nossas experiências emocionais e afetivas (isoladas em “lâminas” como aquelas usadas em microscópios) e mapas com a sucessão de eventos das nossas vidas como planos que se sobrepõem como os anéis do tronco de uma árvore em corte longitudinal, dando uma visão topográfica da linha da vida pessoal. Ou ainda os “Childhood Maps”, mapas criados por crianças representando sua “posição cosmológica”, expondo as conexões entre os lugares físicos e os “terrenos internos” (veja fotos ao lado e abaixo). O resultado é uma série de mapas e topografias pessoais. Um projeto que não apenas reflete essa agenda tecnocientífica atual mas que produz dados organizados que, facilmente, podem se constituir em matéria-prima para futuros softwares baseados em mapas mentais.

2- “Mundos Espelhados” ou “Lifestream”- ideia seminal de David Gelertner, catedrático de Ciências da Computação da Universidade de Yale. Em meados dos anos 90 afirmou: “Você vai olhar para uma tela de computador e vai ver a realidade”, previu. “Uma parte qualquer do seu mundo – a cidade em que você vive, a empresa onde trabalha, a sua escola, o hospital municipal – vai aparecer lá em uma imagem nítida e colorida, abstrata, porém reconhecível, movendo-se sutilmente em mil lugares.” Na época Gelernter pensava em um software, os Lifestreams, que substituiriam os desktops de computadores: um programa de armazenamento em ordem cronológica desde documentos até suas experiências digitais. Isso não ocorreu, porém, hoje, algo similar pode ser encontrado por toda web em diferentes formatos: blogs (verdadeiros diários eletrônicos), atualizações de notícias pessoais como o Facebooks e outras redes sociais. Isso claramente permite um sociograma ou um fluxograma das relações sociais e pessoais, além de um mapeamento permanente de hábitos e atitudes, como a notícia divulgada pela BBC que os dados do Facebook revela os períodos em que mais namoros terminam (clique aqui para ler a notícia).

3- Life-Tracking – Tendência recente onde os participantes fazem um meticuloso registro de tudo o que fazem por meios manuais, PCs ou smartphones: quantos cafés tomam, livros que estão lendo, horas de trabalho diárias etc. Algumas pessoais ainda usam sensores para mapearem seus sinais vitais para ver, por exemplo, como estão dormindo. Gary Wolf, escritor de tecnologia e cofundador do site The Quantified Self (“O Ego Quantificado”) faz parte de um grupo de pessoas que quer usar a tecnologia para ajudá-los a identificar fatores que os deixam deprimidos, impedem de dormir ou, ainda, que afetam o desempenho cognitivo. Segundo matéria da revista The Economist (traduzida pela revista CartaCapital de 01/12/2010 “Sua Matrix particular”) já está surgindo um mercado para aparelhos autotracking.









“A Zeo desenvolveu um despertador que vem com uma faixa na cabeça para medir a atividade das ondas cerebrais das pessoas à noite e exibir graficamente seu sono na Web”

Essa “quantificação do Eu” tem um evidente aspecto do gnosticismo tecnológico cabalístico. Como vimos em postagens anteriores (veja links abaixo) o gnosticismo cabalístico tem um discurso transcendentalista radical: eliminação do corpo e virtualização da subjetividade, isto é, eliminar mediante a imposição de códigos sagrados (digitais) os constrangimentos físicos do espírito (contingência, finitude, corporalidade, animalidade etc.) para que o Eu se funda no ciberespaço, a Nova Jerusalém celestial digital, e alcance sua plenitude. É a motivação por trás de cada linha dos livros de auto-ajuda e autoconhecimento: uma vida sem culpas, mais assertiva, sem traumas ou memórias que causem indecisões e conflitos. Deletar, negar ao invés de compreender e superar.

Para além das motivações místicas ou transcendentalistas, há ainda a dimensão imediatamente política: o espaço privado expondo-se à dimensão pública por meio de mapas, cartografias e topografias da mente. Se antes as pesquisas de mercado gastavam fortunas para prospectar informações e tendências, hoje espontaneamente as pessoas não só disponibilizam seus dados privados como, agora, os organizam em mapas para imediata aplicação comercial e de vigilância global.

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