Cinegnose

por Wilson Ferreira

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03 de outubro de 2016, 17h08

Com Doria Jr mídia não quer mais intermediários

Desde a chamada “crise hídrica”, o Estado de São Paulo é o laboratório de testes para tudo aquilo que espera o restante do País para o futuro. Lá, foi a engenharia de opinião pública para demonstrar que a água é um bem escasso e que, portanto, deve ser regulado pelo mercado como uma mercadoria qualquer. E o Parque Victor Civita na cidade de São Paulo foi o seu showroom. Agora, o teste bem sucedido do primeiro “gestor-midiático” vitorioso nas eleições municipais de São Paulo. João Doria Jr. representa a impaciência da grande mídia em cumprir sua agenda: chega de intermediários! Políticos tradicionais, com a sua melodramática “mise-en-scène teatral”, não têm timing midiático. Doria Jr. é o novo espécime da transpolítica futura: egresso do mundo da mídia e publicidade, aquele que nega a si mesmo como político. Assim como aquela campanha publicitária de um banco que foi adquirido pelo Itaú: “nem parece banco…”. Enquanto isso, as esquerdas lamentam mais uma “revolução traída”.

Assim como o Deserto de Nevada, nos EUA, foi a área de provas dos testes das bombas nucleares, o Estado de São Paulo é o laboratório de testes de preparação do “brave new world” que espera o restante do País para o futuro. Testes com duas bombas: a da água e, agora, a do “gestor midiático”.

Tudo começou com a chamada “crise hídrica”, teste de vanguarda para, sob o álibi do discurso “verde” (alterações climáticas, aquecimento global etc.), sucatear deliberadamente o sistema público de produção e distribuição de água, tornando escasso um bem universal (assim como educação e saúde) para ser entregue à regulação do mercado como simples mercadoria.

E a Praça Victor Civita, na cidade de São Paulo (entre a decadente editora Abril e o fétido Rio Pinheiros) foi o showroom dessa nova ordem da “sustentabilidade sustentável” com a estética da escassez do lixo reciclado – a convergência do ambientalismo com o hiperliberalismo das mercantilização generalizada sob a chantagem da crise econômica e da catástrofe ecológica – sobre isso clique aqui.

Com a vitória acachapante do candidato João Doria Jr. à prefeitura de São Paulo já no primeiro turno, confirma-se a agenda desse vanguardismo paulista, já antecipada por este Cinegnose no ano passado: a vitória eleitoral, para um cargo executivo,  de um personagem midiático, egresso do mundo da publicidade, lobby e programas televisivos, cuja imagem é não mais de um “político”, mas de um “gestor” – sobre a sinistra profecia do Cinegnose clique aqui.

A engenharia de opinião pública da “crise hídrica”

Uma eleição onde outros dois candidatos também acumulavam capital midiático-televisivo: Celso Russomano, suposto defensor dos direitos do consumidor em programas como o sensacionalista Aqui e Agora do SBT, e Marta Suplicy cujo start up da carreira política foi em um quadro onde apresentava-se como sexóloga no antigo programa TV Mulher da TV Globo nos anos 1980.

Para quê intermediários?

Depois de um trabalho diário do complexo judiciário-midiático em não só destruir o PT, mas em desconstruir a própria Política e a figura do político, a grande mídia realiza o sonho de mandar às favas os intermediários – para quê ter que levar à reboque os políticos, roteirizando e turbinando suas pautas, se as próprios produtos televisivas podem assumir o protagonismo das ações?

Até aqui a grande mídia tem realizado um trabalho hercúleo de alavancar políticos canastrões com expressões tão confiáveis como a de um vendedor de carros usados. Desajeitados diante de câmeras e teleprompters, excessivamente vaidosos diante da presença de repórteres, boquirrotos, desajeitadamente empolados. E alguns com um português parnasiano e cheio de mesóclises.

Grande mídia quer se livrar dos seus intermediários canastrões e boquirrotos

O “proto-coxinha”

Que a Política é tributária da cena teatral, não é novidade na Ciência Política. A novidade é que o laboratório dessas eleições municipais revelaram é que a mise-en-scène teatral será substituída pelo timing midiático – um discurso em primeira pessoa, destinado não para o público, mas para VOCÊ! O apelo não mais para um receptor enquanto público (o enfadonho discurso de “políticas públicas”, “ideologias” e “programas”), mas para um receptor pensado como “proto-coxinha”: individualista e sedento por modelos bem sucedidos de self made man.

O sucesso desse primeiro espécime gestor-midiático testado no laboratório paulistano revela o discurso voltado para o indivíduo e não mais para o coletivo. O discurso de Dória desceu para as profundezas da psicologia coletiva, foi além dos chamados “coxinhas” – esses são bem sucedidos e, como ele, dependentes das gordas verbas públicas provenientes da Política que tanto supostamente rejeitam. 

O timing midiático de Dória encontrou um tipo-ideal ainda mais insidioso e volátil: o “proto-coxinha”: o ressentido de não ter aquilo que acha que merece, em busca de modelos de sucesso, campeões da meritocracia. Em síntese, o protótipo do Estado “locomotiva da nação”, aquele que acredita no sucesso e não em qualidade de vida – crê que a sua fortuna pessoal viria de si mesmo e não de uma política pública ou qualquer tipo de projeto coletivo ou política pública.

Mas ironicamente para realizar esse projeto de criar o primeiro gestor-midiático na política, a grande mídia teve que primeiro servir-se dos políticos tradicionais para a desconstrução da própria política. Isso foi necessário para criar uma onda despolitizadora perfeita para que o gestor-midiático surfasse em um tsunami anti-política.

Doria Jr. e o “zeitgeist”

Por isso, os números das eleições municipais que apontam votos brancos, nulos e abstenções superior aos votos do primeiro colocado João Dória Jr. (1/3 do eleitorado se recusou a votar) não surpreende.

Por isso o discurso do gestor-midiático Dória Jr. foi perfeito para capturar o zeitgeist do momento: pouco falou em políticas metropolitanas ou práticas modernas das grandes capitais do mundo. Pensando nas funções da linguagem, seu discurso foi apenas fático e conativo – colcha de retalhos de slogans como “acelera São Paulo” (o apelo fático para apenas manter contato, assim como o singelo “alô” telefônico) e o apelo não ao coletivo (nós ou vocês), mas ao individual (VOCÊ!) – VOCÊ! Vítima da “indústria da multa”, dos “petralhas”, do “IPTU”, da “gestão ineficiente” e assim por diante.

Enquanto o político tradicional, imerso no seu papel da mise-en-scène teatral, tenta ser messiânico ou épico (apela para a “Nação”, o “Povo”, a “Pátria”, o “cidadão”), o gestor-midiático fala para o indivíduo, seja pensado como consumidor (Russomano) ou como vítima de gestores ineficientes – Doria Jr.

Com o gestor-midiático finalmente a mídia consegue colocar um “político” em sintonia com a sua própria linguagem apelativa em segunda pessoa (“TU”, “VOCÊ”), essência da linguagem dos meio televisivo. Afinal, o que é o teleprompter? Senão a simulação da intimidade, da conversa olho no olho, escondendo o fato de que o emissor fala para alguém ausente.

Toda revolução será traída

Mas também a bem sucedida experiência com o novo espécime midiático João Dória Jr. revela que todas revoluções foram, desde o início, revoluções traídas: síndrome que historicamente as esquerdas não conseguem superar.

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