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por Wilson Ferreira

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24 de dezembro de 2011, 09h52

“Cristo em Nós”: Uma Mensagem Gnóstica de Natal

“Aquele que beber da minha boca se tornará como eu e eu serei ele”. Essa frase atribuída a Jesus no evangelho gnóstico de São Tomas encontrado no Egito há quase 70 anos é fonte de controvérsia por inspirar uma visão herética de Cristo e da sua missão aqui na Terra: Ele não veio nos “salvar”, mas nos “curar”, isto é, despertar Ele dentro de nós mesmos.


O historiador e mitólogo Joseph Campbell no livro O Poder do Mito nos oferece uma didática interpretação dessa passagem do Evangelho de São Tomas. “Que blasfêmia”, teria observado um padre na plateia em uma conferência de Campbell. Claro, “somente um deus pode se equiparar a outro deus.”

Para além da sua figura histórica, como Mito, Jesus Cristo reflete nossas potencialidades espirituais, evocando poderes em nossas próprias vidas. Para Campbell é uma ideia potencialmente revolucionária: além da fé em Cristo suplantar a própria religião institucionalizada, significa, também, superar o nosso próprio ego ao voltarmos à raiz da palavra “religião”: religio, religar, onde a nossa vida isolada é ligada a uma vida una.

Nessa entrevista no livro O Poder do Mito, Campbell explica melhor:

MOYERS: Naturalmente, o âmago da fé cristã é que Deus está em Cristo e que essas forças elementares, das quais você está falando, encarnaram se em um ser humano, que reconciliou a humanidade com Deus.

CAMPBELL: Sim, e a idéia gnóstica e budista básica é aquela que é verdadeira tanto para você como para mim. Jesus foi uma pessoa histórica que percebeu em si mesmo que ele e o que ele chamou de Pai eram um só, e viveu o conhecimento do estado crístico em sua própria natureza. Lembro me de certa vez em que estava dando uma conferência, na qual falei sobre viver a partir do sentido do Cristo em nós, e um padre que estava na platéia (como eu soube mais tarde) virou se para a mulher ao seu lado e sussurrou: “Que blasfêmia!”

MOYERS: O que você quer dizer com Cristo em nós?

CAMPBELL: Quero dizer que você deve viver de acordo não com o sistema do seu próprio ego, dos seus próprios desejos, mas com aquilo que você poderia chamar senso de humanidade – o Cristo – em você. Há um pensamento hindu que diz: “Ninguém a não ser um deus pode adorar um deus”. Você deve se identificar, de algum modo, com o princípio espiritual, qualquer que seja, que seu deus represente para você, a fim de venerá-lo adequadamente e viver de acordo com a palavra dele.

MOYERS: Ao se discutir acerca do deus interior, o Cristo interior, a iluminação ou despertar que vem do interior, não há o perigo de nos tornarmos narcisistas, de sermos tomados por uma obsessão pelo próprio ego, o que pode levar a uma visão distorcida de nós mesmos e do mundo?

CAMPBELL: Isso pode acontecer, claro. É uma espécie de curto circuito na trajetória. Mas o objetivo é ultrapassar a si mesmo e o conceito que se tem de si mesmo, para atingir aquilo de que não somos senão uma manifestação imperfeita. Ao termo de uma meditação, por exemplo, espera se que você distribua os benefícios advindos dela – quaisquer que sejam – a todos os seres vivos e ao mundo. Tais benefícios não podem ficar apenas para você. Veja, há dois modos de pensar “Eu sou Deus”. Se você pensa: “Aqui, em minha presença física e em meu caráter temporal, eu sou Deus”, então você está louco e provocou um curto circuito na experiência. Você é Deus não em seu ego, mas em seu mais profundo ser, onde você é uno com o transcendente não dual.

A palavra “religião” significa religio, religar. Se dizemos que há uma única vida em nós ambos, então minha existência separada foi ligada à vida una, religio, religada. Isso está simbolizado nas imagens da religião, que representam aquela união. (CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990, p. 229-230).

Gnósticos votos de Feliz Natal!

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