Cinegnose

por Wilson Ferreira

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16 de março de 2011, 16h16

Da NASA à Hollywood: o Cinema Reflete a Agenda Tecnognóstica


Em palestra proferida na World Future Society no mês passado em Boston, o cientista chefe da NASA Dennis Bushnell apresentou a nova roupagem para a Tecnognose: a preocupação ecologicamente correta pelo aquecimento global e mudanças climáticas. Despachar o homem para mundos virtuais para deixar o planeta em paz, através da IA, nano e biotecnologia, é a sua proposta. Hollywood parece refletir essa agenda tecnológica ao narrar estórias de tecnologias que escaneiam e mapeiam os sonhos, memória e o psiquismo humano.

Um mundo ameaçado pelo aquecimento global e guerras. Causa: política, religião, megalomania, crescimento populacional, relações face-a-face e disputas territoriais. Solução: Inteligência Artificial (IA), Nanoteconolgia e Biotecnologia, substituindo progressivamente a ação humana pela automação e robótica.

Afastado de profissões “enfadonhas” como “caixas de banco, frentistas de postos de gasolina, ensino, pilotos, soldados”, o ser humano ocupará seu tempo livre habitando mundos virtuais tri-dimensionais simulando, por exemplo, “a experiência de se sentar numa praia tropical”. Mais do que isso, o planeta se livraria da ação econômica e política humanas historicamente danosas ao meio ambiente simplesmente transferindo a humanidade para o mundo virtual das redes eletrônicas conectadas com as neuronais.

Sobre o quê estamos falando? A sinopse de um filme gnóstico sci-fi? Longe disso. Essa é a síntese de uma palestra proferida por Denis Bushnell, cientista chefe da NASA Langley Research Center, na Conferência da World Futurist Society em Boston, EUA em Julho desse ano. Se essas previsões futuristas vão ou não acontecer, pouco importa. O que é interessante para quem pesquisa sobre tecnologia e gnosticismo é perceber nesses delírios tecno-científicos a base imaginária que direciona a agenda do desenvolvimento tecnológico atual.

Um imaginário Tecnognóstico com uma perigosa mistura de eugenia, misticismo transcendentalista e neo-malthusianismo.

Dennis Bushnell é um cientista focado na necessidade de combater as alterações climáticas e desenvolvimentos de recursos renováveis. Para ele, a única solução é retirar o ser humano com “seus corpos com água” das atividades econômicas, substituindo por robótica, automação e nano implantes no cérebro humano. Todo o sistema educacional seria substituído por downloads de softwares diretamente para o cérebro. Biotecnologia substituindo a “enfadonha” atividade de ensino.

Esta aversão do gnosticismo cabalístico pelo corpo (“corpos com água”, na expressão de Bushnell) e matéria é o imaginário místico que subjaz nesse discurso tecnológico. Bushnell, portanto, defende o controle populacional, o desaparecimento das “subclasses” nos EUA e, implicitamente, o domínio político de uma elite tecnológica esclarecida (pessoas como ele) que comande todo esse processo.

Como já vimos em postagens anterioras (veja links abaixo), a Tecnognose é a conjunção entre Gnosticismo e Ciência, uma afinidade entre gnose, tecnociência e cibercultura. A eliminação do corpo e a virtualização da subjetividade propiciados pelas novas tecnologias computacionais parece favorecer esta espécie de “religião da tecnologia”. Devido a determinadas circunstâncias sociais e culturais do século XX, um tipo de gnosticismo (o cabalístico) tornou-se o verdadeiro imaginário tecnológico que redirecionou a história da tecnologia, fazendo-a ingressar na etapa atual das próteses e simulações.

Simulações serão a respostas para o desemprego em massa produzido pela robótica e automação: Bushnell imagina desempregados afastados do mundo real, vivendo em praias tropicais virtuais. Esse parece ser a ideia recorrente de futuro que permeia a NASA. Outro cientista dessa instituição, Robert Jawstron, certa vez vislumbrou um futuro dominado pela “inteligência descoporificada”

Um dia um cientista será capaz de retirar o conteúdo da sua mente e transferi-lo para a memória do computador. Porque a mente é a essência do ser, podemos dizer que tal cientista entrou no computador e passou a habitá-lo. No mínimo podemos afirmar que a partir do momento que o cérebro humano habita um computador ele está liberado da fraqueza da carne mortal … Ele está no controle do seu próprio destino. A máquina é seu corpo, ele é a mente da máquina… Esta parece ser para mim a forma mais inteligente e madura de vida no universo. Habitar placas de silício e não mais limitado pela duração da vida no interior do ciclo mortal de um organismo biológico. Tal espécie de ser viverá para sempre.” (Robert Jastrow, The Enchanted Loom: Mind in the Universe, New York, Simon and Schuster, 1984, pp. 166-67)

… E Por que não?

Que mal há em abandonar as atividades estafantes e chatas do dia-a-dia e, através da bio-informática, conectar seu cérebro a um mundo virtual e viver em paradisíacas praias simuladas?

Primeiro, a evidente ideologia eugênica no discurso de Bushnell. Ele refere-se ao planeta como “nave espacial Terra”, cuja tripulação perdeu o manual de controle e cresce a uma razão de 2 milhões de pessoas por semana,” engajando-se em lutas sangrentas pelos cantos da espaçonave”. Portanto, somente uma elite tecnológica esclarecida pode comandar o processo de salvamento ecológico do planeta simplesmente expurgando os seres humanos da vida social e econômica para despachá-los para o mundo virtual das placas de silício. Sob o comando da elite intelectualmente superiora comandando corpos inertes cujo Eu circula pelo ciberespaço.

Sob uma roupagem ecologicamente responsável, repete a ideologia que o nazismo uma vez tentou colocar em prática, somente que, dessa vez, com a bio-tecnologia computacional e engenharia genética à disposição.

Segundo, a questão da hipertelia tecnológica. Vimos em postagem anterior que todos sistemas tecnológicos tenderiam a um estado de obesidade generalizado que inviabiliza a finalidade original. A obsessão da tecnologia em expandir-se para alcançar funcionalidades e utilidades cada vez mais precisas, eficazes e de alto desempenho, resulta, ironicamente, na absoluta inutilidade. Alcançando a última interface da história da tecnologia (biologia/eletrônica, rede neuronal/rede eletrônica) virtualizaremos não apenas os paraísos dos sonhos mas, também, os pesadelos. Se nosso psiquismo possui instâncias de repressão aos pesadelos inconscientes, o mesmo não poderemos dizer em relação às redes eletrônicas.

Filmes como Vanilla Sky (2001) tematizaram essa reversão tecnológica onde narra de forma irônica a irrupção do inconsciente nos “sonhos lúcidos” do protagonista mantido em estado criogênico por uma empresa.

A ciência e o conhecimento produzem luzes, mas a claridade também produz sombras.

Hollywood e a Agenda Tecnognóstica

O filme Matrix (1999) foi o ápice do chamado “gnosticismo pop”. Fortemente sintonizado com a euforia tecnológica computacional do século XX (Internet, realidade virtual etc.) temos nos filmes gnósticos desse período (1995-1999) narrativas que vislumbram um mundo simulado por poderosas tecnologias onipresentes e oniscientes, capazes de criar uma contrafação da realidade tão perfeita que se confunde com o original, pelos menos para a percepção dos protagonistas. Temos a clássica narrativa gnóstica de um mundo criado por um Demiurgo (a tecnologia) para aprisionar seres humanos.

A partir do ano 2000 temos a introjeção da tecnognose no interior da mente humana, na memória e nos sonhos. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine os the Spotless Mind, 2004), Vanilla Sky, A Passagem (Stay, 2005) e o atual A Origem (Inception, 2010) apresentam tecnologias futuras (ou não tão futuras assim) que fazem um mapeamento topográfico das nossas memórias e sonhos.

Ao tomarmos as previsões futurísticas de Bushnell de que até 2025 os problemas ambientais e climáticos da “espaçonave Terra” estarão resolvidos ao migrar a humanidade para paraísos tropicais virtuais, parece fazer sentido a convergência de todos os esforços das neurociências, neuromarketing e pesquisas em IA. Esse conjunto parece fazer parte de uma agenda tecnológica refletida nos filmes gnósticos atuais: escanear, mapear e perscrutar por meio de interfaces bio-eletrônicas o dinamismo do funcionamento do psiquismo, dos sonhos e das memórias para, no futuro, reproduzi-las virtualmente.

Para o cientista-chefe da NASA Dennis Bushnell, essa será nossa última morada. Mas, junto com os sonhos, virtualizaremos também nossos pesadelos.

Veja os slides da apresentação de Dennis Bushnell: Future Strategic Issues/Future Warfare [Circa 2025]
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