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por Wilson Ferreira

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20 de dezembro de 2009, 09h16

Dialética Negativa: o Adorno Gnóstico

Ao ler dois tópicos da Dialética Negativa de Theodor Adorno (“Experiência Metafísica e Felicidade”e “Niilismo”) encontramos uma crítica à religiosidade vulgar que aproxima a transcendência à busca de um “sentido para a vida”.

“O Todo é a Verdade” (Hegel)
“O Todo é o Falso” (Adorno)


Na obra Dialética Negativa Adorno rompe com o passado “apocalíptico” das discussões sobre a indústria cultural para buscar a alternativa do “inteiramente outro”, a busca pela transcendência de uma falsa totalidade que nos envolve. Para tanto, Adorno parte uma decisiva crítica contra a dialética positiva de Hegel (a transcendência por meio da síntese do Espírito em um Absoluto), ao propor as bases de uma “Dialética Negativa”: o resgate da experiência do particular, do concreto e do individual por meio de uma dialética que não liquide o particular por meio de conceitos universais. Se em toda filosofia ocidental identificamos essa liquidação do particular em nome do Universal, Adorno propõe redimir a experiência individual, trazendo materialidade à metafísica por meio de uma dialétida negativa que negue a formação de conceitos para apreender a experiência. Para ele, os conceitos abstratos nada mais são do que reflexos de uma totalidade falsa por ser abstrata (as trocas mercantis, a religiosidade deteriorada, etc) que mata qualquer possibilidade de alteridade e verdade.
No mundo cotidiano essa liquidação do particular pelo universal é experimentada como sofrimento e mal-estar. Nesse cenário vão se propagar cada vez mais idéias que aspiram por um vulgar impulso por transcendência :

“O desespero pelo que existe propaga as idéias
transcedentais, que em outros tempos foram contidas. Qualquer um, unclusive as que se ocupam com negócios desse mundo, considerará um desvario a idéia de que esse mundo finito de tormento infinito seja abarcado por um plano universal divino” (ADORNO, La Dialectica Negativa. Madrid: Taurus, p. 375.)


Para Adorno a questão do “sentido da vida” é uma metafísica secularizada, isso é, já contaminada pela própria natureza do mundo que pretende questionar. A pergunta obterá uma “falsa resposta”: este impulso religioso vulgar que pretende transcender a miséria reinante somente reproduz a própria totalidade que pretende superar ao entronar uma nova totalidade. É como se pulasse da frigideira para cair no fogo. Diante da totalidade inautêntica do mundo mercantil, a resposta procura por uma nova injeção de sentido a uma realidade vazia, ou seja, procura uma novo universal que continuará liquidando a autêntica experiência de singularidade individual.
Adorno refere-se a essa experiência como “imediatez subjetiva intacta” ou “subjetivismo do ato puro”, experiência que nos daria o “interior dos objetos”, a redenção do materialismo por meio da metafísica que, finalmente, revelaria a verdade do mundo. É uma espécie de teologia invertida onde a redenção é menos a fuga do espírito em direção do Absoluto do que o resgate do Absoluto no interior dos objetos do mundo.
Adorno exemplifica esse momento sagrado com a reconstituição proustiana da experiência. O que Proust descobre na Busca do Tempo Perdido são experiências singulares extraídas de pequenos lugares e prosaicos acontecimentos, mas que almejam espontaneamente a universalidade, não pela violência de conceitos que abstraem a concreção dos fatos mas da força do individual, do irreprodutível.

O Niilismo Gnóstico

Se vida tivesse um sentido não nos perguntaríamos pelo sentido dela, afirma ironicamente Adorno. Ao verdadeiro fascínio pela totalidade que a pergunta contém, Adorno contrapõe com o elogio do niilismo: a busca por sentido é paralizante para a liberdade e a felicidade. Aos ataques da consciência moral contra o niilismo, Adorno responde: o niilismo não significa “acreditar em nada” porque crer significa acreditar em algo e não em nada. Esse algo, portanto, é o inteiramente outro, algo para além da totalidade desse mundo, desde já ausente de sentido, tão niilista quanto a própria crítica que se dirige ao Niilismo:

“O niilismo dessa maneira implica no contrário da
identificação com o nada. Seu gnosticismo vê no mundo criado o radicalmente mal, e na negação deste pela possibilidade de outro, todavia ainda por ser. Enquanto o mundo for o que é, todas as imagens de reconciliação, paz e tranquilidade se assemelham a imagens da morte” (ADORNO, Dialéctica Negativa, Madrid: Taurus, p. 381).


Aqui Adorno identifica a natureza gnóstica latente na sua Dialética Negativa. Para ele, não se trata mais de recusar o existente por meio da crítica ideológica (subjacente na sua fase da crítica da indústria cultural). A negação por meio da crítica das ilusões ideológicas (fetichismo, coisificação etc.) esbarra na radicalidade do mal presente na realidade. Não há exterioridade para a crítica. Ser e Totalidade não têm sentido já que se constituem por uma série de abstrações que violentam a felicidade individual e a autenticidade da experiência singular. As dicotomias racionalistas da mera crítica ideológica (verdade/mentiral, real/ilusão etc) não conseguem dar conta de um niilismo desde sempre presente no mundo material. Por isso, para Adorno, a crítica deve ser Niilista e Metafísica ao aspirar pelo terceiro elemento, o tertium quid dos gnósticos: nem ilusão nem a realidade, mas o Inteiramente Outro.
Portanto, extrapolando esta aproximação que Adorno faz entre a experiência metafísica e niilismo, a verdadeira experiência do sagrado ou da gnose não advém da súbita descoberta de um “sentido” ou de um “desígnio”ou “propósito” para a mera existência cotidiana. Para além desse impulso metafísico vulgar, o Sagrado é a súbita descoberta do fascinante vazio e vertigem ao pressentir a ilusão que constitui a realidade.

Quem Foi Theodor Adorno: considerado o principal expoente da chamada Escola de Frankfurt, Instituto de Pesquiss Sociais que reuniu entre as décadas de 30 e 40 do século XX, entre outros nomes, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Walter Benjamin. Sistematizaram a Teoria Crítica da Sociedade, quadro conceitual que implicava não apenas na crítica das mídias como Indústria Cultural mas, também, a revisão crítica da filosofia iluminista ocidental.


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