Cinegnose

por Wilson Ferreira

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28 de dezembro de 2009, 17h40

Dicionário de Comunicação apresenta o verbete “tecnognose”

A conjunção entre Gnosticismo e Ciência (a princípio na Cosmologia, passando pela Biologia e, mais tarde, concentrando-se na Teoria da Informação e nas novas tecnologias computacionais) tornou-se a verdadeira porta de entrada para as mitologias gnósticas no século XX. O verbete “tecnognose”apresentado pelo Dicionário de Comunicação da Editora Paulus lançado recentemente define este conceito, fundamental para compreendermos como o gnosticismo vai manifestar-se nos produtos audiovisuais e cinematográficos contemporâneos.

Reproduzimos abaixo o verbete apresentado pelo
Dicionário:

Tecnognose

(S.f.) # Etim.: Do grego téchne “arte”, “ofício” + do
grego gnôsis “conhecimento”, “sabedoria”.

O progresso tecnológico pode ser caracterizado unicamente pela necessidade instrumental de busca por soluções econômicas para o mundo dos negócios. Porém, paralelo a este discurso, encontramos outro de natureza diversa, isto é, de motivação mística ou espiritualista: onisciência, ubiqüidade, superação de limites pessoais, utopias (“estrada para o futuro”, “o futuro é agora”) e toda uma série de nominações transcendentalistas que, para muitos autores, apontam para uma secreta afinidade entre tecnologia computacional e pós-religiões tradicionais. New agers, cyberpunks, desenvolvedores de programas e demais tecnófilos parecem conceber o ciberespaço não apenas no restrito aspecto da racionalidade instrumental, mas como um espaço sagrado que traria imortalidade e onisciência numa fusão gnóstica entre o self e o divino reino da informação. Se a história da racionalidade ocidental é marcada pelo embate contra o mito, temos uma mudança de rumo inesperada: o misterioso e o mítico penetram no próprio discurso atual da ciência e da tecnologia. No cerne das narrativas atuais que defendem a supremacia da ciência e do poder sem limites da tecnologia, encontramos uma fala “parasitária” promovendo o mistério e o mí(s)tico: uma fala “gnóstica”. Esta afinidade entre gnose, tecnociência e cibercultura foi sugerida por diversos pesquisadores de diferentes linhas como Hermínio Martins e Erik Davis. Por Gnose nos referimos ao conjunto de seitas sincréticas combinando idéias cristãs, neoplatonismo e as religiões de mistérios pagãs que florescem nos primeiros tempos da difusão do Cristianismo (séculos II e III DC). A eliminação do corpo e a virtualização da subjetividade propiciados pelas novas tecnologias computacionais parece favorecer esta espécie de “religião da tecnologia”. Esta fala seria mais do que parasitária, ou seja, devido a determinadas circunstâncias sociais e culturais do século XX, o gnosticismo teria se tornado o verdadeiro imaginário tecnológicoä que redirecionou a história da tecnologia, fazendo-a ingressar na etapa atual das próteses e simulações. A afinidade entre gnosticismo e tecnologia presente nas ciberutopias atuais apontaria para aquilo que Heidegger já havia pressentido: a essência da tecnologia não é técnica, mas metafísica. Diversos autores, entre eles Raymond Ruyer e Theodore Roszak,
detectaram e mapearam a semente do misticismo nas comunidades científicas, sejam
acadêmicos ou tecnófilos. Ruyer afirma que este movimento gnóstico surge discretamente nos meios científicos das universidades de Princeton e Pasadena nos EUA durante a II Guerra Mundial. A princípio entre físicos, cosmólogos e biólogos para, em seguida, alastrar-se por outras áreas, principalmente através da Cibernética e Teoria da Informação. Já Roszak rastreia este mesmo movimento na formação do Vale do Silício na Califórnia e entre as comunidades de
tecnófilos que participaram da revolução do computador pessoal e da Internet. Todos eles, com forte influência dos movimentos contra-culturais da Costa Oeste dos EUA, fortemente influenciados por utopias gnósticas que, mais tarde, tornaram-se Ciberutopias.
Wilson Roberto Vieira Ferreira

MARCONDES FILHO, Ciro (ORG.) Dicionário de Comunicação. São Paulo: Paulus, 2009.


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