Cinegnose

por Wilson Ferreira

24 de julho de 2019, 06h00

Do Estado mínimo ao Estado líquido: bullying midiático “pilha” as esquerdas

Num esforço de jornalismo investigativo, a revista Época descobriu que americana Lanchonete Popeyes, na qual Eduardo Bolsonaro supostamente trabalhou, não tem hambúrguer... temos agora o “hambúrguer leaks”

Fotos: Reprodução

Não existe fome no Brasil? Vai acabar com a Ancine ou criar “filtros culturais”? Fritar hambúrgueres é credencial para ser embaixador? Como ficaram as multas de motoristas que trafegam sem cadeiras infantis? E os radares móveis nas estradas? Vão desaparecer? Depois das bombas semióticas que marcaram a bem-sucedida guerra híbrida brasileira, agora estamos acompanhando a essência da atual guerra criptografada: o “bullying midiático”. Assim como a psicologia do bullying, na qual a vítima deve ficar “pilhada” (gritar, chorar, correr etc.) para retroalimentar a dinâmica do assédio, também como estratégia diversionista de comunicação essa psicologia encontra sua aplicação como tática de guerra: caos de informações dissonantes e provocações do inimigo através do sequestro da pauta da mídia por uma agenda conservadora. Principalmente no campo cultural e de costumes. “Pilhar” as esquerdas, que reagem com o fígado, gastando tempo e indignação com questões periféricas. Para desviar da atenção do distinto público do drama principal: o assalto do Estado pelo sistema financeiro. Depois da dívida pública, tomar a Previdência e o FGTS. Depois do Estado Mínimo o futuro será o Estado Líquido.

É bem conhecida a dinâmica do bullying num ambiente escolar: busca-se uma vítima dentro de um grupo não apenas pelas suas características fóbicas – físicas, raciais ou comportamentais: o(a) “gordo”, o(a) “nerd”, o(a) “caladão”, o(a) tímido, e assim por diante.

É necessário mais uma coisa: que a vítima “se queime”, assim como a cabeça de um palito de fósforo – que reaja de forma “desproporcional” (do ponto de vista do assediador), gritando, chorando, acovardando-se, entrando em pânico, correndo, xingando etc.

Quanto mais a vítima reage “pilhada”, mais a fobia do grupo é gratificada de forma auto-realizadora. Como se alimentasse a psicologia fóbica coletiva, provocando escárnio e mais agressividade num movimento de retroalimentação.

Como é própria da cultura “alt-right” (destruir toda forma de consenso estabelecido), o “politicamente correto” foi execrado como uma grande conspiração das esquerdas, supostamente hegemônicas no campo educacional, inspiradas por alguma coisa intitulada “marxismo cultural”.  E as críticas incisivas do “politicamente correto” contra o bullying na Educação foram denunciadas como forma de controle orweliano de um Estado tido como “esquerdista” e “stalinista”.

O bullying passou a ser encarado pela direita alternativa como forma positiva de socialização masculina numa sociedade naturalmente competitiva e darwinista social – a “alt-right” gosta muito mais de ver a seleção natural darwinista aplicada na sociedade do que na natureza criada por Deus.

E se o bullying é o ritual de passagem necessário para todo homem (o paradigma do novo neopatriarcalismo – paradoxalmente, o patriarcado sem pai), logo torna-se mais do que uma visão de mundo: é também uma estratégia de ação política e de comunicação da extrema direita.

Bullying: paradigma de comunicação para extrema direita

Bullying midiático

O “bullying midiático” pode ser considerado a ferramenta central da guerra semiótica criptografada: criar sistematicamente crises, contradições, dissonâncias, declarações com posteriores recuos.

Mas, essencialmente, fazer provocações. Tomar como refém a pauta midiática para que seus apresentadores, analistas e colunistas gastem tempo e energia em profundas análises sobre factoides, superfícies. Enquanto a esquerda, “pilhada”, se queime como o palito de fósforo, sempre de maneira reativa. Sempre pautada pelo bullying midiático.

Sistema financeiro, Previdência do FGTS

Sabemos que todo o terrorismo dos economistas-chefe dos bancos e empresas de investimento (que a grande mídia chama genericamente de “mercado”) em torno da necessidade da aprovação da “reforma da Previdência” é a óbvia evidência de que a extrema direita somente chegou ao poder para permitir que o sistema financeiro ataque o Estado e o transforme em banco particular – encher os cofres privados com dinheiro público para que os bancos alavanquem a especulação financeira através do dinheiro-crédito – voltaremos a esse tema à frente.

Por isso, duas demandas recentes do “mercado” (Reforma da Previdência e liberação dos saques do FGTS) foram cercadas pela tradicional guerra criptografada de informações com dois objetivos:

(a)fazer bullying midiático com as esquerdas;

(b)criar a chamada cortina de fumaça diante dos olhos do distinto público, desviando a atenção para a agenda pessoal conservadora (“alt-right”) do capitão da reserva.

Bullying midiático: chamar as esquerdas para participarem da cortina de de fumaça

Guerra criptografada e reforma da Previdência

A guerra criptografada do Governo em torno da reforma da Previdência passou uma ideia de que “esforços” estariam sendo feitos numa conjuntura de “crises”, como se tudo estivesse no fio da navalha. Como num bom roteiro cinematográfico para criar teasers, tensão, conflitos que sempre serão resolvidos no último ato.

A prisão preventiva do ex-presidente Temer e do ex-ministro Moreira Franco; o bate-boca entre o presidente da Câmara Rodrigo Maia e o presidente Bolsonaro nas redes sociais; ataques do filho Carlos Bolsonaro contra o vice General Mourão; o julgamento da Quinta Turma do STJ sugerindo redução da pena de Lula; a autorização do STF liberar a entrevista de Lula à Folha…

Sem falar nas polêmicas provocadas por questões como acabar com radares móveis em rodovias (“para que o povo brasileiro tenha prazer em dirigir”, afirmou o presidente) e a proposta de não multar motoristas que trafeguem sem cadeirinha infantil – “todo pai é responsável”, asseverou o capitão da reserva.

Enquanto as esquerdas se assanharam com uma suposta crise que revelaria sinais de um governo que cairia por si mesmo, o “tic-tac” preciso dos azeitados mecanismos de aprovação da reforma funcionaram – a prisão de Temer supostamente assustaria o Congresso e dificultaria a reforma; subitamente Maia e Mourão viraram vozes racionais num governo de napoleões de hospício; Lula poderia finalmente ser libertado e… até a deputada Tabata Amaral (PDT) virou progressista… Sucessivos factoides para iludir as esquerdas, desviar sua atenção e energia para pautas periféricas.

Diante de tudo, a “opinião pública” sempre ficou alheia lutando pela própria sobrevivência (fazendo os “corre” para garantir ou achar emprego) e a esquerda, “pilhada”, gastando toda sua indignação na superficialidade das “caneladas” e factoides.

Guerra criptografada e saques do FGTS

Depois da banca facilmente conseguir encaminhar a privatização da Previdência para o segundo turno na Câmara, o saco de maldades neoliberais continua com a aparente boa notícia da liberação do FGTS para a patuleia desempregada e endividada.

Até a escultura dos candangos em frente ao Palácio do Planalto sabe que o pretenso “aquecimento da economia” não passa de um álibi para o destino certo deste dinheiro liberado: a choldra endividada e desempregada se apressará em pagar suas dívidas ao invés de fazerem os comerciantes sorrirem – segundo IBGE, 62 milhões estão negativados no Serviço de Proteção ao Crédito, SPC.

O pior é que macroeconomicamente o suposto benefício resulta em soma zero: o FGTS representa 60% do financiamento imobiliário e do mercado da construção, já que as grandes obras de infraestrutura praticamente pararam.

Estrategicamente, esse outro assalto da banca contra o Estado veio nos últimos dias acompanhado de uma sequência de provocações de Bolsonaro, num verdadeiro bullying midiático contra as esquerdas:

(a)Bolsonaro diz que pretende “beneficiar” o filho Eduardo com a indicação ao posto de embaixador em Washington. O tom das declarações é de provocação e escárnio: “Lógico, que é filho meu, pretendo beneficiar filho meu, sim. Pretendo, se puder, dar filé mignon, eu dou…”.

Enquanto Eduardo afirma que, entre suas credenciais para o cargo, está no fato de ter “fritado hambúrguer” nos EUA. E Bolsonaro ainda “amplia seu currículo”: “ele ainda entregou pizza”.

(b)Bolsonaro declara em um encontro com jornalistas estrangeiros em Brasília que “não existe fome no Brasil, é uma grande mentira”. Numa provocação frontal ao “Mapa da Fome” da FAO, organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

(c)Ao receber relatos de projetos aprovados pela Ancine (Agência Nacional de Cinema), Bolsonaro se diz “insatisfeito” com “Born to Be Fashion”, reality para revelação de modelos trans. E fala em transferir a Ancine do Rio para Brasília e a necessidade de criar “filtros culturais” (eufemismo para censura) para que o cinema nacional trate de “heróis nacionais” ao invés de “pornografia, como o filme Bruna Surfistinha”, atacou o presidente.

O tom das declarações sempre é provocativo, em estilo rompante, acompanhado pelas indefectíveis expressões fáticas “pô”, “tal quei”, rosto crispado e mãos com gesticulação indignada. Como se estivesse sempre respondendo a algum inimigo imaginário.

Factoides na guerra semiótica

São estocadas para pilhar ainda mais as esquerdas e ocupar a pauta midiática – até num esforço de jornalismo investigativo, a revista Época descobriu que americana Lanchonete Popeyes, na qual Eduardo Bolsonaro supostamente trabalhou, não tem hambúrguer… temos agora o “hambúrguer leaks”…

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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