Cinegnose

por Wilson Ferreira

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20 de fevereiro de 2010, 08h43

Em busca da Negativade do Sagrado

Devemos buscar na experiência fílmica os momentos onde a narrativa não retorna à ordem, onde os conflitos não são conciliados, onde as sequências finais do filme não se integrem a uma totalidade (retorno à ordem), mas deixe ao espectador o vazio cognitivo, a ambigüidade.
Para esse blog o conceito de sagrado deve ser buscado a partir do referencial de uma Teologia Negativa. Por que?

Assistimos neste início de século a uma onda de filmes documentários ou ficcionais que falam em nome de uma experiência sagrada, jornada espirituais de auto-conhecimento etc. que ou vão de encontro ao universo da auto-ajuda e do espiritualismo new age ou, mais filosoficamente elaborados, falam de uma unificação entre Ciência e Religião e a unificação de todos os dualismos presentes nos discursos religiosos ou científicos.

O problema é que tanto essa concepção do sagrado associado ao espiritualismo como o discurso da crítica aos dualismos da Ciência e Religião partem de uma mesma matriz teológica: a Teologia Positiva. Ao contrário da Metafísica, a Teologia, como sabemos, acredita na realidade transcendente como já existente. E este transmundo sagrado ou divino só pode ser uma totalidade, que antecede a existência individual. Enquanto esta possui uma existência descontínua marcada pela morte, aquela é eterna, e, por isso, verdadeira.

Diferente disso, a metafísica traria potenciais elementos negativos para a formação de uma Teologia negativa. Vejamos essa distinção entre Metafísica e Teologia feita por Eduardo Losso a partir de um texto de Adorno:

“A diferença entre a metafísica e a religião consiste no fato de aquela não se dirigir a um deus pessoal ou a um elemento transcendente existente. Não é uma ciência, antes, procura pensar algo “atrás do mundo”, ou um outro mundo oculto, acentuando a diferença entre essência e aparência. Se a religião possui uma essência divina e absoluta, a metafísica pensa no problema da relação entre esse sentido anterior , dessa essencialidade com o mundo da aparência. (…) A metafísica não postula a divindade e não dá a ela uma forma determinada como os teólogos.(…) Adorno não disfarça uma defesa da metafísica, precisamente nesse aspecto, ao afirmar que ela possui a qualidade de não se contentar com o que é, nem dizer que o que não é existe. Se religiosos precisam da segurança de afirmar a existência do não-existente, o metafísico, bem mais realista e idealista, recusando por isso mesmo ilusões, deseja o não-existente sem afirmá-lo.” (LOSSO, Eduardo Guerreiro B. Teologia Negativa e Adorno – A secularização da mística na arte moderna. Tese Doutorado Faculdade de Letras da UFRJ, 2007, p.112-3)

“Desejar o não-existente sem afirmá-lo” é, talvez, a essência da Teologia Negativa que se contrapõe à positividade tanto da teologia quanto do sagrado.
A Positividade tanto da ciência como da religião partem de uma ordem supra (a totalidade divina ou natural) já existente, cabendo à ciência (por meio do método) reconstituí-la ou a religião (por meio da fé) possibilitar a experiência do sagrado. Nesse sentido, o Sagrado passa a significar uma experiência mística ou de fé que se apodera do indivíduo, fazendo-o vislumbrar sua conexão com o Todo ou a Verdade.

Ao contrário, ao “desejar o não-existente sem afirmá-lo”, temos uma reversão tanto da metafísica quanto da teologia, a negação da totalidade diante da experiência concreta do indivíduo. A experiência negativa do sagrado passa a ser não a anulação do indivíduo ao conectar-se com um Todo (“somos todos um”, slogan totalitário da espiritualidade New Age), mas, diferente disso, somente pode ser a experiência dolorosa de ruptura com uma totalidade falsa e inautêntica. Enquanto a religião transmite uma suposta segurança de que estamos amparados por uma totalidade que nos consola, a negatividade sagrada eleva ao nível do conceito o mal estar e a dor do indivíduo integrado forçosamente a totalidades ou sistemas (social, político, religioso, metafísico etc.).

Buscar a negatividade da experiência do Sagrado é buscar esses momentos onde o indivíduo eleva o mal-estar no mundo ao nível do conceito (gnose?). Vanish points, momentos em que pressentimos a inexistência dessa totalidade simultaneamente autoritária e confortadora. Esses momentos são aqueles de ruptura e transformação originados em estados alterados de consciência: suspensão, paranóia ou melancolia. Enquanto a consciência moral positiva, a religião ou simplesmente o bom senso qualificam a dor individual como limitações de potenciais, erros, pecados, fraquezas, é precisamente aí, no aparente niilismo, na negação de todo e qualquer sentido totalizante que reside a verdadeira experiência transcendente. Lá onde tudo parece indicar precariedade, insuficiência está a verdadeira transcendência onde o espírito anseia elevar sua existência física a uma supra-realidade ainda não existente.

A experiência do sagrado, nesse sentido, é muito mais o desejo individual por transcendência do que a transcendência já existente, elevação para uma dimensão já pré-existente ao indivíduo. Assim como a Teologia negativa afirma a existência de Deus pela sua negação (“Se Deus está ausente é porque é necessário que exista; se ele não existisse não poderia estar ausente”), a negatividade do sagrado nega uma transcendência já existente em nome do desejo por uma supra-existência que ainda não existe.

O discurso do sagrado que invade a produção audiovisual e cinematográfica atual confunde imanência com transcendência. Produções como “Somos Todos Um”, “Quem Somos Nós” vendem uma suposta transcendência ao falar de busca de um propósito, sentido para a vida, conexão com um todo, consciência cósmica. Essa abstração somente pode ser a das totalidades bem conhecidas (mercado, sociedade, corporação etc.) às quais o indivíduo deve se integrar forçosamente, superando seus “medos” e “limitações”. É aí que reside o aspecto crítico da negatividade do sagrado: o desejo por transcendência só pode significar a ruptura com essas totalidades.

Por isso devemos buscar na experiência fílmica os momentos onde a narrativa não retorna à ordem, onde os conflitos não são conciliados, onde as sequências finais do filme não se integrem a uma totalidade (retorno à ordem), mas deixe ao espectador o vazio cognitivo, a ambigüidade. Onde a experiência de retorno à realidade após serem acesas as luzes da sala de exibição não seja de reconfortadora harmonia após ver protagonistas que abandonaram o desejável pelo possível, justificando a resignação individual em relação à vida. Momentos onde o mal-estar individual em relação ao mundo seja elevado ao conceito e se expresse por meio das alterações de consciência (suspensão, paranóia e melancolia) que vislumbre a possibilidade de uma existência inteiramente outra, o desejo pela transcendência.

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