Cinegnose

por Wilson Ferreira

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19 de janeiro de 2018, 22h34

Em “La Casa de Papel” ladrões roubam o bem mais importante: o Tempo

Diante de toda uma geração que vive sob o impacto do desemprego e da perda de direitos sociais desde o crash financeiro internacional de 2008,  a Espanha vem produzindo uma série de filmes que pensa essa condição. O mais recente é a série para TV “La Casa de Papel” (2017-), disponível no Netflix, que reflete a perplexidade de todos diante da natureza dessa crise: como conformar-se com bancos, agentes financeiros e especuladores capazes de fabricar, sem limites, o próprio dinheiro enquanto o restante da sociedade sofre as consequências? Um grupo de ladrões trajando macacões vermelhos e com máscaras do Salvador Dalí invade a Casa da Moeda da Espanha, liderado por alguém cujo codinome é “Professor”. Eles não vieram roubar, mas fabricar seu próprio dinheiro com a ajuda dos próprios reféns. Mas o “Professor” terá que roubar um bem menos tangível e muito mais importante: roubar o tempo do Governo, da Polícia e da grande mídia. Quais as conexões entre um sistema monetário-financeiro sem lastro e o controle do Tempo?

Se a sociabilidade é uma ficção necessária para que não retornemos à natureza, talvez o dinheiro seja a instituição social mais cercada de simbolismos, relações fetichistas, mágicas e religiosas, muitas vezes travestidas por conceitos da chamada “ciência econômica”. 

Paradoxalmente, porém, a crença que sustenta essa instituição é de cunho moral: o dinheiro conquistado é sempre fruto do nosso trabalho e merecimento, nas suas diversas formas como espécie, crédito, débito eletrônico etc. Mas, principalmente, a crença na sua intercambialidade, remuneração, valor, lastro, riqueza e assim por diante.

As sucessivas crises financeiras desde os anos 1990 (México, mercados asiáticos etc.) até chegar ao crash de 2008 e a subsequente crise do Euro que repercute até hoje, abriram fissuras na credibilidade do sistema financeiro: como conformar-se com bancos, agentes financeiros e especuladores capazes de fabricar, sem limites, o próprio dinheiro? Como entender que a moeda de referência mundial, o dólar, é arbitrariamente impressa pelos EUA e sem lastro desde 1971 quando Nixon rasgou o Acordo de Breton Woods?

Diante disso, a Espanha, um dos países europeus mais atingidos pelo crash financeiro com taxas de desemprego que chegaram a 30%, produziu nos últimos anos uma série de filmes que reflete todas essas questões: Hermosa Juventude (2014), 5 Metros Cuadrados (2011), La Chispa de la Vida (2011), El Mundo es Nuestro (2012) e Terrados (2011) são uma pequena amostra de como o cinema espanhol descreve o desemprego, a falta de perspectivas de toda uma geração e a perda dos direitos sociais.

 

Quem é bom? Quem é mau?

A série do canal espanhol Antena 3, La Casa de Papel (2017-) não é apenas mais um produto audiovisual que reflete esses tempos. É a mais contundente narrativa sobre um momento histórico no qual a linha que separa o bom dos maus desapareceu: como pensar a ilegalidade dos pequenos golpistas e falsários quando o próprio sistema global se funda na fabricação arbitrária de papéis, títulos, moeda e crédito? E mais: com as bênçãos de governos e grandes agências classificadores de risco como Moody’s, Standard & Pool e Fitch.

Então, de que adianta pensar em um pequeno golpe como no filme argentino Nove Rainhas (2000) se poderíamos dar um grande golpe explorando as fraquezas das três entidades que ajudam a manter a ordem das coisas: governo, polícia e grande mídia.  

Todas essas questões surgem na mente maquiavélica de um personagem chamado “O Professor” que tem a brilhante ideia de invadir a Casa da Moeda da Espanha com a intenção de fechar-se lá dentro e imprimir mais de dois bilhões de euros – sem matar ninguém ou roubar dinheiro dos contribuintes. Apenas fabricar o próprio dinheiro. Para isso recruta oito ladrões, de acordo com sua especialidade, que aceitam participar do maior roubo da História. 

Junto com o grupo recrutado, durante cinco meses o Professor planejou milimetricamente cada etapa da operação para que nada fosse deixado ao acaso. O único problema é que necessitarão de 11 dias dentro do edifício, junto com os reféns, para imprimir o dinheiro, procurar uma saída e fugir com o produto do roubo impossível de ser rastreado.

La Casa de Papel propõe uma curiosa questão: se os ladrões querem apenas roubar papel (sem lastro efetivo, assim como todos os títulos e papéis especulados no sistema financeiro global) o quê na verdade estão roubando? Resposta: o Tempo. Roubando o tempo da polícia, do Governo e da grande mídia, para distraí-los, enquanto imprimem bilhões de euros.

 

A questão que a série suscita é essa: seria o Tempo aquilo que o sistema nos rouba para manter toda essa ficção necessária para manter a sociabilidade? 

A Série

Tudo começa quando um grupo trajando macacões vermelhos e máscaras de Salvador Dalí, fortemente armados com escopetas russas, invadem a Casa da Moeda e toma todos os funcionários de refém. Incluindo um grupo de um colégio de elite que fazia uma visita escolar monitorada. E o detalhe. Entre os alunos, o trunfo mais importante para o assalto: a filha de um diplomata da embaixada da Inglaterra na Espanha.

O grupo está determinado e todos os passos parecem que foram detalhadamente planejados: pedem a senha do cofre e começam a encher sacolas com o dinheiro. O desfecho parece previsível – fugirão antes que o alarme dispare. 

Mas algo estranho ocorre diante dos perplexos funcionários: os próprios assaltantes disparam o alarme e ficam parados, ao lado dos sacos de dinheiro, diante da porta à espera da chegada dos policiais. Que são recebidos à bala, enquanto o grupo sela todas as entradas do edifício.

Para a Polícia e a mídia, parece que os assaltantes foram pegos de surpresa e estão desesperados e escudados por reféns. Mas tudo faz parte de um ardiloso plano criado pelo Professor (Álvaro Morte), planejado e treinado intensamente por cinco meses.

Narrado em of por um dos assaltantes chamado Tóquio (Úrsula Corberó – todos eles têm codinomes de cidades: Helsinque, Nairóbi, Oslo, Berlim etc.), através de vários flash backs o espectador vai montando o quebra-cabeças do plano e as motivações da operação.

Nos 13 episódios dessa primeira temporada acompanhamos um verdadeiro jogo de xadrez entre o Professor e a inspetora responsável pelas operações policiais, Raquel Murillo – Itiziar Ituño. Raquel atravessa naquele momento um inferno pessoal: num mundo policial eminentemente masculino tem que aparentar força. Enquanto passa por uma dolorosa separação litigiosa e luta na justiça pela guarda da sua filha com o ex-marido. E o Professor saberá explorar ao máximo esse ponto fraco da oponente.

 

 Enquanto o grupo de assaltantes mantém os reféns na linha, o Professor monitora de fora todas as operações através de câmeras internas do edifício, além de hackear as comunicações policiais. 

Todos os celulares foram desligados e as comunicações são unicamente analógicas por meio de cabos instalados nos meses que antecederam o assalto – tudo para evitar rastreamentos da inteligência policial.

Tal como um Big Brother, da sua sala de controle, o Professor cria jogos e iscas para a polícia e a mídia morderem, enquanto ganha tempo – os dias necessários para as máquinas funcionarem a todo vapor para imprimirem os bilhões de euros.

Mas os episódios aos poucos revelarão também os pontos fracos do grupo: o líder Berlin (Pedro Alonso) é um narcisista esquizofrênico, Tóquio vive um romance tórrido com o jovem Rio (Miguel Herrán, o especialista em informática do grupo), Moscou (Paco Tous) sente-se culpado por trazer seu filho Denver (Jaime Lorente) para o assalto e assim por diante.

E do lado dos reféns a tensão entre o Diretor da Casa da Moeda Arturo (Enrique Arce – o típico burocrata e infiel no casamento das estórias de Nelson Rodrigues) e sua secretaria Mónica (Esther Acebo), grávida depois de um caso com Arturo. Tensão que determinará as reações dos reféns ao assalto.

 

Tempo é o bem mais valioso

Tempo. É apenas isso que o Professor pretende roubar da Polícia. Por isso, La Casa de Papel lembra dois novos clássicos sobre assaltos: Quarto Poder (1997, quando John Travolta invade um Museu e pega reféns na tentativa desesperada de recuperar seu emprego) e Velocidade Máxima (Dennis Hopper monitora toda a operação pela tela da TV, intervindo em tempo real nas operações policiais – “É a TV do futuro!”, dizia cinicamente) de 1994.


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