Cinegnose

por Wilson Ferreira

O que o brasileiro pensa?
25 de fevereiro de 2020, 19h13

Fascistas e invisibilidade midiática não se combatem com flores

O mais importante na grande mídia não é o que ela pauta. É o que ela não diz.

Foto: Reprodução

O mais importante na grande mídia não é o que ela pauta. É o que ela não diz. O jornalismo corporativo tem o dom de atribuir invisibilidade a fatos que não atendem a atual pauta que sustenta a estratégia semiótica de guerra criptografada: a pauta identitária, cultural e de costumes. A invisibilidade do documentário “Democracia em Vertigem” na premiação do Oscar e os 20 dias de greve dos petroleiros são exemplos: depois que o documentário “perdeu” e a greve foi suspensa, de repente a mídia descobriu que existiam, mas como “derrotados”. O que há em comum nesses fatos “invisíveis”? São contra-pautas – revelam temas econômicos que mostram a insustentabilidade da agenda neoliberal. Grande mídia fala agora em impeachment de Bolsonaro depois do ataque à jornalista Patrícia Campos? Agora colunistas da grande mídia descobriram o “projeto de poder autoritário” de Bolsonaro? Mais uma tática de jornalismo Snapchat que hipnotiza a esquerda. Mas a retroescavadeira de Cid Gomes jogada contra policiais milicianos amotinados no Ceará mostra que não se combate o fascismo com flores, mas com uma contra-pauta que faça a esquerda abandonar as lacrações das guerras identitárias-culturais. 

Mais uma vez este Cinegnose vai citar uma frase emblemática do velho Leonel Brizola, que deveria ser o princípio metodológico fundamental par a esquerda: “Quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem: se a Rede Globo for a favor somos contra. Se for contra, somos a favor”.Em outras palavras: o mais importante na grande mídia não é o que ela pauta. É o que ela não diz. Aquilo que é omitido e se torna invisível para a agenda midiática, é o que dá o verdadeiro significado para tudo que é destacado nas escaladas dos telejornais ou nas primeiras páginas dos jornais.Se não, vejamos. Até há poucos dias, diante dos arroubos, bravatas e medidas intempestivas do presidente da república e seus filhos, a grande mídia assumia uma espécie de “jornalismo de faxina”. Passava o pano e dizia que tudo era “polêmico”. Nunca se leu ou ouviu tantas vezes essas expressões: “declaração polêmica”… “governo polêmico”… “ministro polêmico”. Com algumas variações como “intempestivo”, “falar sem pensar” e outras que limpavam a poeira, relativizando declarações.Nunca se ouviu também falar tanto em “é o novo normal”. Outros cravavam que o País estava sendo dominado pela “cultura do foda-se”…Mas, de repente, parece que a grande mídia fez uma surpreendente descoberta: Bolsonaro e o General Augusto Heleno têm um “projeto de poder autoritário” e estão “forçando os limites da Democracia”.
As ofensas de cunho sexista de Bolsonaro com trocadilhos em torno da expressão “furo de reportagem” contra a repórter da Folha Patrícia Campos parecem ter sido a gota d’água. Por exemplo, num estalo a colunista do conservador Estadão, Vera Magalhães, escreve sobre impeachment por “crimes de responsabilidade e quebra de decoro”.A revista informativa igualmente “faxineira”, Isto É, passou a pedir abertamente o impeachment do capitão da reserva dizendo que “o chefe de Estado já deu caudalosas razões para a abertura do processo de impeachment”. Fala também em “quebra de decoro e de ferir a liturgia do cargo que ocupa”. 

E o que diz a Globo, a chefia da faxina dos últimos meses? A “voz dos mercados”, Miriam Leitão, alertou de que “assim morrem as democracias e nascem as tiranias” e que “o presidente radicalizou e está descontrolado”. 

O áudio “vazado”

E, por último e não menos importante, a grande imprensa dá destaque ao áudio “vazado” (sempre quando a grande mídia fala em “vazamento” devemos desconfiar do oportunismo de um fato supostamente aleatório…) do general Heleno – na presença do Ministro Paulo Guedes e de Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) disse: Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. Foda-se!”.Muito sensacional, impactante! Revela-se a vocação democrática da grande mídia que arma as garras na defesa da ordem democrática e do Estado de Direito! Mas, o que a grande mídia não mostra? O que jornalões e telejornais condenam à invisibilidade parcial ou total?Somente alguns exemplos entre inúmeros. Para começar, a indicação de Democracia em Vertigem para o Oscar de Melhor Documentário. No início, críticos especializados da grande mídia audiovisual usavam a indefectível expressão “polêmico” para qualificar a produção que descrevia como a elite brasileira se cansou da Democracia e articulou o impeachment de 2016. Para depois condena-la à invisibilidade, até chegar a noite da entrega dos prêmios… só para dizer que Petra Costa tinha “perdido o Oscar” – quando somente a indicação já tinha sido uma vitória. Menos para a mídia que tirou o pó e escondeu tudo debaixo do tapete.O mesmo destino teve a greve dos petroleiros: depois de 20 dias de paralisação, só ganhou as manchetes quando foi suspensa. E ainda assim, escondendo a vitória do movimento – a suspensão da demissão dos mais de mil empregados da Fábrica de Fertilizantes do Paraná, Fafen-PR.Para a grande mídia, a liderança do movimento suspendeu a greve para “dialogar em Brasília com a Petrobrás em audiência do Supremo Tribunal do Trabalho”. Ou seja, o vitorioso fora o ministro Ives Gandra Martins, do TST, que havia declarado a greve como ilegal. E não os petroleiros que reverteram as demissões.                   Enquanto isso, a notícia de que a produção industrial brasileira fechou 2019 em queda de 1,2%, simultânea à disparada do dólar e saída em massa de dólares do País foram recebidos com a expressão eufemística “sinais contraditórios da economia”, segundo o solerte Gerson Camarotti na Globo News, tentando apagar o incêndio.

Jornalismo Snapchat

Mas o gênio irascível do ministro Paulo Guedes veio salvar o dia: a sua ironia contra as empregadas domésticas conseguiu sequestrar a pauta, alimentando a agenda identitária da grande mídia que serve de tática diversionista para desviar a atenção do respeitável público.Discutir se Guedes foi preconceito ou ofensivo é melhor do que a ter que falar dos incômodos “sinais contraditórios” que possam colocar em xeque a agenda neoliberal. Mas depois do jornalismo de faxina, também entra em ação o chamado “Jornalismo Snapchat”: a crise dos serviços públicos com a fila de 2 milhões de pedidos de concessão da aposentadoria, além da fila de 3,5 milhões que esperam pelo Bolsa Família, foram noticiados em brevíssimas edições para depois ser esquecida – assim como no aplicativo de mensagens Snapchat onde cada “snap” dura um breve período, para depois ser excluído do aplicativo e servidores.

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