Cinegnose

por Wilson Ferreira

11 de novembro de 2017, 14h59

Globo despacha William Waack para tirar a lama das próprias mãos

Assim como no episódio do assédio sexual do ator José Mayer (naquele momento a Globo fez o cast feminino da casa vestir uma camiseta estampada “Mexeu com uma mexeu com todas”), da mesma maneira prontamente a emissora despachou William Waack depois da repercussão de um antigo vídeo no qual o jornalista fazia afirmações racistas em tom de galhofa enquanto aguardava para entrar ao vivo. Fosse em outros tempos, episódios como esses entrariam para o folclore da história dos bastidores televisivos.  Quem armou essa cilada contra William Waack levou em conta o atual contexto delicado da Globo: depois de seu jornalismo de guerra nos últimos anos ter dado visibilidade e repercussão à direita raivosa (aquela que vê o “politicamente correto” como “conspiração comunista”) para acirrar a crise política que culminaria no impeachment, agora a emissora tenta limpar suas mãos da lama que estrategicamente revolveu por anos. Disse em nota que é “visceralmente contra o racismo”. A Globo tenta ignorar de forma tautista a patologia psíquica que ajudou a incitar, da mesma maneira como até hoje tenta provar que nada teve a ver com a lama da ditadura militar que ajudou a esconder. 

Nesse momento há um movimento de manada, uma atmosfera de revanche e linchamento contra o jornalista (ou ex) da TV Globo William Waack depois do episódio do vazamento de uma gravação antiga, feita durante a cobertura das eleições nos EUA – com a Casa Branca ao fundo, Waack aparece ao lado do diretor do Instituto Brasil do Wilson Center, Paulo Sotero. Os dois esperam o momento de entrar ao vivo até serem incomodados por uma insistente buzina alguns andares abaixo na rua.

“Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou falar quem é… é preto… É coisa de preto”, fala Waack em tom de galhofa, enquanto o constrangido Sotero deixa escapar uma gargalhada. 

É tido e sabido que William Waack é um dos jornalistas mais odiados, seja dentro da própria emissora (não costumava tratar com, digamos, cavalherismo o “baixo clero” jornalístico da casa) ou fora dela – nos últimos anos fez parte da linha de frente da polarização política que culminou no golpe, desde que em 2005 apresentou o Jornal da Globo em frente ao Congresso Nacional para repercutir a crise do mensalão.

É evidente que Waack foi o pivô de uma armação típica daquelas em que o peixe sempre morre pela boca. Na atmosfera nacional dos últimos anos em que a grande mídia (capitaneada pela própria Globo) açodou o conservadorismo até chegar ao protofascismo para criar o clima propício para o desfecho do impeachment, jornalistas como Waack e Augusto Nunes se colocaram ao lado de próceres como Alexandre Frota, Constantino e Diogo Mainardi para desancar o chamado “politicamente correto” – para eles, uma agenda esquerdista que deveria ser banida do País.

No topo da cadeia alimentar

Surfando na onda do neoconservadorismo incorreto, sentiram-se à vontade para arroubos como, por exemplo, o de Boris Casoy ridicularizando garis ao vivo em um telejornal da Band ou Mainardi mandando o desafeto Reinaldo Azevedo “dar a bunda”, em rede social.

E como podemos perceber no vídeo vazado, Waack estava bem à vontade e confortável como estivesse em terra conquistada, no topo da cadeia alimentar política, sem ameaças, como um capitão que venceu a guerra e colhe os louros da vitória.

Seja quem for o “Edward Snowden” de dentro da Globo que conseguiu ter acesso às imagens e vazá-las, foi capaz de destruir o jornalista desafeto em pleno voo, no auge da arrogância.

Mas os cálculos dessa eminência parda que atingiu mortalmente Waack certamente levaram em conta o atual contexto tautista (tautologia + autismo) em que a Globo vive depois de uma década atuando como oposição política explícita aos governos lulopetistas: depois de anos pegando pesado e dando espaço a tudo de mais baixo que podia ser reunido às hostes da oposição (da bancada de Bala, Boi e Bíblia do Congresso até simpatizantes da intervenção militar e histeria anticomunista do anti politicamente correto), agora tenta se desvencilhar dessa agenda que ajudou a criar.

Assim como até hoje a emissora luta para desassociar sua história com a do apoio ao golpe de 1964 e da ditadura militar brasileira.

Por isso, ato reflexo, a Globo teve que largar na estrada o fiel oficial ferido mortalmente. 

Augusto Nunes: “punhado de frases sem importância”

Isenção politicamente correta

Em outras palavras, nesse caso a questão principal não é o boquirroto William Waack, por mais que se satisfaça o doce sabor siciliano da vingança – o sabor de um prato que se come frio. 

Assim como no caso do assédio sexual do ator José Mayer a uma figurinista terceirizada da emissora (prontamente a Globo fez o cast feminino da casa vestir camisetas com dizeres “Mexeu com uma mexeu com todas”), da mesma forma prontamente a Globo rifou Waack para provar sua isenção politicamente correta. 

E tentar limpar das mãos a lama que teve que revolver nos últimos dez anos.

Talvez na defesa do amigo de guerra feita pelo apresentador do Roda Viva da Cultura e colunista da Veja e rádio Jovem Pam, o jornalista Augusto Nunes, esteja a origem da contradição tautista da Globo por trás desse episódio:

“Não é surpreendente que por um punhado de frases sem importância, ele vire alvo de seitas repulsivas:  os politicamente corretos, os fanáticos extremistas, os perdedores congênitos, os patrulheiros esquerdopatas, os cretinos fundamentais e os idiotas em geral”.

É dessa “incorreção política” (a visão do racismo como “frase sem importância”) que a Globo tenta agora se livrar, depois de estrategicamente instiga-la em passado recente. 

Rapidamente a Globo se livrou do ator José Mayer: o politicamente correto tautista

Efeito colateral

Nesses últimos anos de oposição política, a Globo colheu como efeito colateral o choque entre a agenda comercial e o papel de oposição política assumido conjunturalmente diante da inépcia da oposição parlamentar.

 


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