Cinegnose

por Wilson Ferreira

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03 de agosto de 2016, 10h23

Globo promete cobertura tautista das Olimpíadas

Metalinguagens e efeitos visuais tautológicos dominaram a cobertura do programa Fantástico do último domingo sobre as Olimpíadas Rio 2016, com a mesma estética apoteótica das transmissões do Carnaval, dando o tom geral da cobertura da emissora. Mais do que mau gosto, é a evidência do “tautismo” (autismo + tautologia) crônico da Globo nos anos recentes. Para uma emissora que se fechou em si mesma como reação à crise de audiência e a concorrência das mídias de convergência, não existe mais mundo externo: as Olimpíadas só acontecem no Rio para que a Globo possa transmiti-la. E o auge do tautismo é quando jornalistas começam a entrevistar outros jornalistas da própria emissora. Para a Globo, a cobertura jornalística em si é mais importante do que o próprio evento e os relatos das emoções de seus apresentadores é mais dramático do que as dos próprios atletas.

Em pouco mais de uma hora da cobertura dos preparativos para o início das Olimpíadas no Rio no programa Fantástico, um terço do tempo (algo em torno de 20 minutos) foi dedicado a um exercício de metalinguagem: a Globo falando dela mesma sobre como vai cobrir o evento. O ápice da contínua auto-referência foi quando um jornalista entrevistou outro jornalista da própria emissora.

O restante do tempo, a emissora nada mais fez do que transformar o evento em uma espécie de suíte da pauta do seu telejornalismo da últimas semanas: a suposta ameaça de terroristas brasileiros de uma “célula amadora” (segundo o ministro da Justiça Alexandre de Moraes) e o escândalo do esquema de dopagem generalizada de atletas russos.

A novidade foi a mudança de humor e atmosfera da cobertura jornalística: uma pauta pra lá de positiva, bem diferente da Copa do Mundo de 2014 com denúncias de arenas superfaturadas, previsões sombrias sobre um possível caos nas telecomunicações e obras de infraestrutura que jamais seriam inauguradas. 

A mudança da pauta da grande mídia: da Copa negativa às Olimpíadas positivas

Dessa vez, haverá legado olímpico (a infraestrutura de transporte do Rio de repente passou a funcionar), bem diferente da Copa onde tudo era reportado como um grande gastança de dinheiro público. Agora o pensamento é positivo e patriótico. Afinal, a torre de marfim do estúdio da Globo está no Parque Olímpico. Por isso, repetir o baixo astral da Copa não vem ao caso.

O que é “tautismo”?

Tudo isso evidencia que a TV Globo fará uma cobertura tautista (autismo + tautologia) do evento olímpico, confirmando a tendência dos últimos anos que coincide com a sua queda vertical de audiência. Autista porque a linguagem começa a misturar elementos de ficção e não-ficção onde a cobertura torna-se mais importante do que o próprio evento; e tautológico pela lógica auto-referencial onde as fronteiras entre o “dentro” e “fora” começam a desaparecer.

Tautismo é um neologismo criado pelo pesquisador francês Lucien Sfez para designar o que ele chama de “comunicação confusional”: traço dominante contemporâneo onde o processo comunicacional teria se tornado um diálogo sem personagem. Só leva em conta a si mesmo, isto é, a comunicação como o seu próprio objeto. 

Seguindo o paradigma dos estudos sobre sistemas dos pesquisadores Varela e Luhumann, para Sfez o tautismo é o resultado da hipertrofia de sistemas que de tão grandes e complexos começam a se auto-organizar e fechar em si mesmos – “auto-organização” e “fechamento”, como chamado nos estudos sistêmicos – sobre isso leia SFEZ, Lucien. Crítica da Comunicação. São Paulo: Loyola, 2000.

Por “fechamento” entende-se que no momento quando o sistema troca informações com o mundo externo, qualquer dado de fora é  traduzido por uma descrição que o sistema faz de si mesmo.

Da metalinguagem ao fechamento operacional

A TV Globo sempre abusou das metalinguagens como forma de demonstração do seu poder tecnológico e financeiro em relações às concorrentes. O estardalhaço com que falava da câmera nos trilhos sobre os boxes do autódromo de Interlagos ou da sua câmera exclusiva nas transmissões das copas do mundo sempre foi para a emissora uma prova inconteste do seu monopólio das comunicações no País.

Embora ainda a TV Globo mantenha o seu poder econômico graças a sua estratégia de BV (Bônus por Volume) para garantir a maior parte do bolo das verbas publicitárias, seu poder simbólico vem decrescendo com a constante queda de audiência e a concorrência das tecnologias de convergência e Internet.

Como um sistema de comunicação que cresceu, tornou-se hegemônico e complexo com seus interesses e ingerências na política brasileira, a Rede Globo começa a expor as características de todo sistema: buscar a todo custo o equilíbrio, prevenindo que qualquer informação que venha do ambiente exterior possa desestabilizá-lo. Isso se chamaria “fechamento operacional”.

Por isso, diante das novas condições políticas (parcialmente resolvidas com o afastamento da presidenta Dilma e o sucesso do afastamento do PT do poder) e tecnológicas (ainda não resolvida com o ameaça das redes sociais, blogs e dispositivos móveis) a Globo radicalizaria esse processo de fechamento para tentar expurgar qualquer evidência de decadência.

O destaque dado à “célula amadora” brasileira supostamente cooptada pela Internet como ameaça terrorista real torna-se uma tradução do mundo através da projeção de uma descrição que a Globo faz de si mesma: transformou-se numa pauta obrigatória das Olimpíadas, para provar como a Internet e novas tecnologias seriam, em si mesmas , criminógenas – vício, pedofilia, violência de torcidas de futebol, golpes cibernéticos etc.  

 Mas o momento culminante desse autismo e recorrente auto-referência é quando jornalistas entrevistam outros jornalistas do próprio grupo – o repórter José Burnier “entrevistou” o locutor Galvão Bueno sobre suas impressões de décadas cobrindo olimpíadas.

Jornalistas entrevistando outros jornalistas sempre foi um fato corriqueiro em coberturas extensivas como Copa do Mundo e Olimpíadas: sem notícias novas, inventam-se pautas para encher buracos da programação.

Mas nos tempos recentes da Globo isso vai além: transforma-se em tautismo. Por exemplo, no programa Estúdio I do canal Globo News tornou-se corriqueiro a apresentadora Maria Beltrão e seus comentaristas entrevistarem repórteres do jornal O Globo – nos últimos dias abordando os temas da violência no Rio e a ameaça terrorista no Brasil. O que contradiz qualquer parâmetro de uma suposta objetividade que o jornalismo sempre prezou.

 


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