Cinegnose

por Wilson Ferreira

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28 de fevereiro de 2010, 17h15

Gnose e estados alterados de consciência em filmes

Melhor que qualquer outro meio artístico, o cinema dilui as fronteiras entre o mito e a realidade. É partindo dessa idéia que o livro The Secret Life of Movies – Schizophrenic and Shamanic Journeys in American Cinema de Jason Horsley explora não apenas o reino do insconsciente social mas, principalmente, a potencialidade desse meio proporcionar a experiência da gnose.

Este livro examina cineastas e filmes que se centram em torno de temas da alienação esquizofrênica, paranóia, discriminação, fantasia, sonhos, a demência e a violência. A perda da identidade individual, tal como refletida nos filmes, é investigada, assim como a potencial “viagem xamânica” ou a gnose inerente ao tema.

No programa radiofônico norte-americano Aeon Byte Gnostic Radio Show (veja o link na nossa lista de blogs recomendados), Jason Horsley foi entrevistado e fez a seguinte observação sobre o gnosticismo no cinema:

Se a vida imita a arte, o meio mais popular para a arte nos dias de hoje expõe uma civilização que se tornou cada vez mais fragmentada, sem contato com realidades mais profundas, e lutando para encontrar individuação. Além do aparente aumento de filmes com temática gnóstica, os grandes filmes culturais, atores e diretores de nossa era levantam um espelho para a humanidade expondo uma luta desesperada pela sobrevivência em um mundo pós-moderno, a paranóia que envolve as conquistas modernas e instituições, e o medo pela existência de um universo vazio governado por poderes das trevas. No entanto, o espelho também lança a possibilidade de uma iniciação alquímica que inicie uma viagem de regresso do homem à sua origem espiritual, escondida no meio da aridez das narrativas esquizofrênicas. Desde o niilismo de Hitchcock ao Logos existencial de ‘The Matrix’, da desolação do cinema western at até as entregas sombrias de Johnny Depp, buscamos essa centelha de redenção e gnose em suas mensagens junguianas.

O livro de Horsley corrobora com nossas pesquisas sobre a recorrência dos temas e simbolismos gnósticos no cinema. A gnose como uma abertura para uma realidade transcendente por meio de estados alterados de consciência (suspensão, melancolia e paranóia, como descreveram os grandes pensadores gnósticos do início da era cristã como Basilides, Mani e Valentim) é descrita por ele nos termos de uma jornada xamânica. Levanta um importante aspecto sobre a experiência do sagrado tal qual dessenvolvemos nos termos de uma Teologia Negativa: o sagrado é uma experiência alquímica que se inicia no mal estar e na dor que a Totalidade impinge ao indivíduo. Ao invés de negada (terapeutizada ou racionalizada) ela deve ser aprofundada ao ponto que se torne num estado alterado de consciência, a abertura para a gnose e a transcendência. Como salienta Horsley em seu livro, o cinema é o principal meio artístico para expressar essa experiência.

Jason Horsley foi por muito tempo crítico de cinema. Além disso é autor de um romance, roteiros e vários livros de não-ficção sobre o cinema moderno. Seus projetos incluem a produção dos filmes The God Game, Beauty Fool e Being The One. De origem inglesa, vive atualmente no Canadá.


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