domingo, 20 set 2020
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Gnosticismo Cabalístico e Tecnognose: o atalho para a Gnose

O início de todas as nossas pesquisas e reflexões em torno da recorrência do Gnosticismo no Cinema e Audiovisual partiu da paradoxal confluência entre misticismo e novas tecnologias: a Tecnognose. Ao contrário do gnosticismo no cinema onde a gnose é apresentada como a alma que cresce e se refina a partir do corpo, na Tecnognose a matéria é um golem disforme que precisa da ordem do espírito para ganhar vida. As consequências são o totalitarismo e o solipsismo.

A secreta aliança entre misticismo e ciência floresce no século XX com o ressurgimento do mito cabalístico do Golem nos meios científicos e acadêmicos com a construção da moderna utopia tecnológica: a rota tecnologicamente traçada por uma benevolente elite que permita a superação das ruínas de um mundo material caótico e imperfeito e resgate o anthopos presente na humanidade, o retorno à pureza adâmica aprisionada pela mortalidade.

Cabala e o mito do Golem
O Golem floresceu na mitologia judaica durante a Idade Média e Renascimento, mas tem seus fundamentos no segundo e terceiro séculos quando o gnosticismo criou o mito do perfeito anthropos que caiu na imperfeição. Este mito do declínio é descrito em uma narrativa básica: emanação, erro e aprisionamento. Nos evangelhos cópticos o anthropos é a primeira manifestação do deus verdadeiro e superior ao Demiurgo. Dentro dele, está contido todo o universo, partículas de luz para, através delas, redimir esse mundo material e imperfeito. Porém, ele é ostensivamente derrotado pelas forças do Demiurgo e mantido aprisionado nos círculos materiais. Depois desse aparente declínio, o anthropos ouve o chamado do Deus da Luz, retornando. Mas parte da sua alma é deixada para trás, aprisionada. Partículas de luz dessa porção prisioneira criam o cosmos material tal como conhecemos. A cada momento, pessoas ouvem o chamado da luz, liberando partículas aprisionadas. Quando todos tiverem apreendido este chamado, o Anthropos (o Homem Primal) estará totalmente preenchido e a matéria aniquilada.

Mas como retornar para o imaterial Anthropos se habitamos este cosmos físico? Os Gnósticos responderam que a maneira de buscar esse perfeito Adão seria através do ascetismo ou a morte. Mas há outro caminho, em um sentido inverso: descer ao mundo da matéria. Cabalistas medievais desenvolveram esse método, a saber, o da redenção por meio de intensas experiências com a matéria, nos seus mais tenebrosos reinos. Se antes das ruínas havia perfeição, cabe ao cabalista revolver a matéria para organizar os fragmentos que se conectam com o todo perdido. Teogonia harmonizando-se com a Cosmogonia.

Esta saída produz o Golem (“não-formado”), o retorno a um estado da matéria disforme e imperfeito, antes de Deus dar forma e perfeição. O Talmud afirma que Adão, antes de receber alma e linguagem, era um Golem. Deus ordena a matéria por meio de códigos, construindo um mundo formado a partir de letras. É a base da teourgia da Cabala. A única coisa que nos separa de Deus é o pecado. Se a criação divina é feita a partir de códigos, um ser sem pecados pode fazer o mesmo. Uma pessoa que pratica esta mágica divina não viola o sagrado, mas realiza o potencial do espírito. As antigas discussões sobre o Golem nos séculos XII e XIII giram em torno desta questão primária: pode um mago criar um ser igual ou superior ao humano? É possível trazer de volta Anthropos? Para os proponentes medievais da “cabala extática” a criação do Golem seria a culminação de uma experiência mística, um símbolo de união com Deus: a criação da vida a partir da recitação de letras sagradas.

O Atalho para a Gnose

Se no século XX a Física e a Cosmologia descrevem um cenários de caos e improbabilidade (Deus parece que joga dados com o universo através da formulação da Teoria do Caos de N. Bohr e o Princípio da Incerteza de Heisenberg), a partir dessa confirmação da secreta crença gnóstica da primária imperfeição do cosmos, a mística cabalística vai introduzir-se na Ciência para dar forma a uma nova biologia constituída a partir de uma peculiar relação entre a biologia e a ciência computacional.

A Teoria da Informação e o modelo do código binário computacional vão oferecer um modelo para a concepção do DNA na década de 1950. A vida passa a ser vista como uma espécie de biocomputador. O DNA é uma forma de processamento de dados, assim como o computador, podendo esse instrumento de processamento, portanto, ser encarado como uma forma de vida emergente. Alguns já admitem que estejamos perto do momento da criação de novos chips para computadores constituídos de DNA-RNA.

Robert Jawstron, da NASA, foi um dos primeiros a propor o advento da “inteligência descorporificada”. Ele antevê o dia em que nos tornaremos uma “raça de imortais” baseados em uma mente computadorizada.

“Um dia um cientista será capaz de retirar o conteúdo da sua mente e
transferi-lo para a memória do computador. Porque a mente é a essência do ser, podemos dizer que tal cientista entrou no computador e passou a habitá-lo. No mínimo podemos afirmar que a partir do momento que o cérebro humano habita um computador ele está liberado da fraqueza da carne mortal … Ele está no controle do seu próprio destino. A máquina é seu corpo, ele é a mente da máquina
… Esta parece ser para mim a forma mais inteligente e madura de vida no universo. Habitar placas de silício e não mais limitado pela duração da vida no interior do ciclo mortal de um organismo biológico. Tal espécie de ser viverá para sempre.” (Robert Jastrow, The Enchanted Loom: Mind in the Universe, New York, Simon and Schuster, 1984, pp. 166-67

Golem, a matéria disforme e entrópica, modelado pelos códigos binários sagrados. Se o DNA comprova a codificação divina da matéria através de letras, a informação será a sintaxe que afastará o ruído e a entropia do organismo que habita um cosmos falho.

Criador da realidade virtual, Jaron Lernier acredita que tal motivação mística torna-se o principal atrativo do ciberespaço. Para ele, muitos hackers têm a esperança de um dia viverem para sempre após um upload final para o interior de um computador. Lerneir caracteriza essa fantasia como o início de uma “cultura de zumbis” dominado por ex-humanos que “estão preparados para deixar tudo para trás imaginando viverem em um disco rígido, interagindo unicamente com outras mentes e demais elementos de um ambiente que existe somente em um software” Portanto, a essência do ser, a mente (ou a partícula de luz que nos liga à nossa casa originária, a Pleroma), pode ser digitalizada como informação.

Este é o atalho para a gnose: a tecnologia como a via mais rápida para a realização do projeto de redimir a humanidade exilada e aprisionada nos círculos materiais.

Esta antiga busca gnóstica em transcender a carne é o emocional subtexto por trás da eufórica reação a cada novidade em informática no mercado e a cada website ou blog com frivolidades que é lançado. Lernier chega a sugerir uma nova categoria psicológica de usuários: a “nerdice”: intelectualmente busca digitalizar qualquer distinção de qualidade, sentimento e afeto. Emocionalmente, procura abrigo que o proteja da intimidade humana e das demandas corporais.
Alegremente, o sujeito se despoja do corpo para viver uma fantasia de poder sem limites.

Erick Felinto vai nomear este sujeito das ciberutopias como “sujeito pneumático”, uma forma de subjetividade que se pretende libertar dos limites do corpo, um self quase divino e de natureza espiritual (pneuma). Este sujeito pneumático teria as seguintes características: a comunicação total (como anjos incorpóreos vagando pelo ciberespaço sem barreiras para comunicar-se), por meio da “hipermediação que equivale à imediação das mídias digitais” e a mobilidade total:

“Imerso em um mundo sem fronteiras, sem limites, o ciberanjo desfruta da mais absoluta liberdade de movimentos. Como subjetividade pneumática, pode deslocar-se ou estender-se à vontade; pode até mesmo almejar a ubiqüidade. Na verdade, não se trata apenas de mobilidade, senão da possibilidade de modelar o “espaço” circundante.” (FELINTO, Erick, “A Tecnoreligião e o sujeito pneumático no imaginário da cibercultura”, In: Revista Alceu v.6 – n.12 – p. 115 a 125 – jan./jun. 2006, p. 120)

Como Felinto observa, a aparente variedade identitária na Internet e a multiplicidade de “eus” nas redes esconde um enfraquecimento ou fragmentação da subjetividade. Como conclui: “Numa perspectiva bastante sombria, o sujeito coletivo das redes seria assim um eu absoluto, que deseja constituir-se em oposição mesmo às expressões da alteridade. Esse sujeito muitas vezes limita-se a ratificar o mesmo, no sentido em que, como conclui um estudo de etnografia da internet citado por Rüdiger, “os internautas, em sua maioria, não conseguem abrir-se ao outro”

O indivíduo na rede torna-se um nódulo que apenas ratifica o que lhe é externo. Como afirma Christopher Lasch, a aparência narcísica de um ego grandioso (pneumático, espiritual) encobre um esvaziamento da própria subjetividade que, sitiado, adapta-se e reproduz mimeticamente o entorno para sobreviver. É o sujeito fractal, como um fragmento que reproduz dentro de si, infinitamente, o padrão do todo (Veja o livro de Lasch O Mínimo Eu).

Se as fronteiras entre o Eu e ou Outro desaparecem, primeiro pela imediação das redes (o tempo real criar sensação de que o mapa é o território), segundo, pela permeabilidade do ego e, terceiro, por uma subjetividade que pretende libertar-se dos limites do corpo, entra em crise a percepção da alteridade.

Gnosticismo Alquímico versus Gnosticismo Cabalístico

Enquanto o gnosticismo cabalístico, através da tecnologia e da linguagem, vê a matéria como prisão, confinamento e limitação dos potenciais do espírito, o gnosticismo alquímico procura o espírito por trás da matéria, a vida que emerge da morte, a ordem que surge do caos, a alma que cresce a partir do corpo. Em síntese, o gnosticismo alquímico busca a transmutação e não a transcodificação cabalística. Enquanto na tendência cabalística a matéria é um golem disforme e sem vida que precisa da ordem do espírito para ganhar vida (tecnologia e o código binário da informação), a tendência alquímica encoraja a metamorfose e a redenção do espírito através da existência material. A primeira é digital e abstrata; a segunda é analógica e sensual.

Se o gnosticismo cabalístico procura através do atalho da tecnologia e da linguagem o caminho mais rápido para o espírito abandonar a matéria, o viés alquímico procura a Grande Negação, o tertium quid, a terceira alternativa entre a ilusão e a realidade. Se a verdade sobre Deus está além do conhecimento humano, a negação do conhecimento é o sagrado caminho. O homem acolhe os objetos do saber e as palavras como fossem veículos do conhecimento na esperança de que possam revelar a verdade das coisas.

Em um mundo de ilusões o conhecimento dele só poderá ser também ilusão. Nem a ilusão (criada por um cosmo imperfeito) e nem a realidade (Conhecimento, Ciência e Linguagem), mas o sagrado, a experiência que conduza o indivíduo para além dessas oposições.

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Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.