Cinegnose

por Wilson Ferreira

O que o brasileiro pensa?
13 de julho de 2020, 22h45

Guerra híbrida: Bolsonaro com Covid-19 é um meme autoimune

Leia no blog Cinegnose: "A abordagem indireta da contaminação presidencial baseia-se essencialmente na pós-verdade: os efeitos passam a ser mais importantes do que as causas"

Fotos Reprodução

O suposto teste positivo de Covid-19 do presidente didaticamente revela dois componentes básicos da guerra híbrida: a estratégia de a abordagem indireta – jogar o estímulo já sabendo a reação do oponente; e a criação de um ambiente cognitivo marcado por simulações que produzem pós-verdades e incertezas. Por isso, pouco importa sutilezas semânticas dos jornalistas (em vez dizer que “tem”, dizer que o presidente “anunciou” que tem) para tentar se blindar do ardil da fonte. Bolsonaro sequestra a pauta com um verdadeiro “meme autoimune” da pós-verdade: pouco importa se o presidente está ou não contaminado. Como perfeita bomba semiótica, o conteúdo é secundário. O mais importante é a sua repercussão cognitiva fazendo os atores sociais agirem de forma sempre reativa, no piloto automático. Para a mídia dar a visibilidade que tanto Bolsonaro precisa.

O veterano jornalista Xico Sá deu o alerta aos editores dos veículos de imprensa para que não banquem as palavras do capitão da reserva dublê de presidente, Bolsonaro. “Desconfiar sempre é a lei”, disse. Ao invés de dizer “Bolsonaro tem”, os jornalistas devem relatar “Bolsonaro DIZ que tem coronavírus”, uma vez que é conhecimentos de todos que o presidente é um contumaz mentiroso.

Podemos então imaginar os sinônimos que poderiam ser usados para enfrentar o possível ardil do dignatário: Bolsonaro anuncia… Bolsonaro testa… e assim por diante.  

Mas este humilde blogueiro teme que toda essa sutileza semântica não é páreo para a perversa estratégia semiótica do chamado dilema midiático: é impossível negar o que é mostrado. Toda imagem é afirmativa. 

Mesmo o signo textual segue engatado a fotos e vídeos, participando desse mesmo dilema – como manter um distanciamento crítico (ou, no mínimo, neutralidade) se a notícia de Bolsonaro como o quarto líder de uma nação que foi contaminado pela Covid-19 é supostamente relevante?

Não importa o quanto o experiente jornalista Xico Sá desconfie da enfermidade anunciada por Bolsonaro. Se ele foi pautado e mereceu visibilidade, então é verdade!

Umberto Eco falava desse paradoxo na chamada Neotevê, conceito que pode ser facilmente extrapolado para a mídia como um todo: se ela transmite, logo é verdade. Não importando qualquer firula semântica que tente blindar a notícia de qualquer ardil da fonte – “Televisão: A Transparência Perdida” In: Viagens na Irrealidade Cotidiana, Nova Fronteira.

O que essa visão conteudista da comunicação (presa fácil nas estratégias semióticas alt-right) não consegue compreender é que o anúncio da suposta contaminação de Bolsonaro sequestra a pauta midiática num jogo ganha-ganha – o jogo da pós-verdade, um imuno-meme que está além das distinções entre verdade e mentira.

O presidente está com Covid-19? Ele está tomando mesmo hidroxicloroquina? Seus sintomas são leves ou poderão se agravar? Ou tudo é uma simulação do garoto-propaganda cloroquina para tentar desencalhar os 1,5 milhão de reais compradas pelo Exército sem licitação?

Folha morde a isca – mídia no “piloto automático”

Folha morde a isca

Pouco importa. Como perfeita bomba semiótica, o conteúdo é secundário. O mais importante é a sua repercussão cognitiva – como atiça o fígado e os humores dos opositores do governo: de manifestações pela pronta recuperação do presidente, carregadas de ironia e com veneno escorrendo pelos cantos da boca a desejos explícitos de que morra mesmo.

Como foi a isca mordida pelo jornalista da Folha, Hélio Schwartzman, em um artigo intitulado “Por que torço para que Bolsonaro morra” – um intrincado raciocínio “consequencialista”, cuja filosofia, segundo ele, “não está amarrada à moral tradicional”. Sua morte salvaria vida…

Pronto! O ministro da Justiça, André Mendonça, declarou que abrirá inquérito contra o articulista da Folha com base na Lei de Segurança Nacional. Quatro… três… dois… um… contagem regressiva para disparar o gatilho do debate em torno da liberdade de imprensa, censura de jornalistas baseado em lei da ditadura militar e assim por diante.

A febre e indisposição no presidente o assustará, a ponto de se corrigir moralmente e abandonar o negacionismo? Ledo engano: Bolsonaro afirmou que usar máscara é “coisa de viado”…

Pronto! Ato contínuo, Movimento LGBT reage publicando fotos nas redes sociais usando máscaras e espalhando a hashtag #CoisadeViado.

Princípios da guerra híbrida

Guerra híbrida tem a ver com dois princípios que esse episódio da Covid-19 presidencial deixa bem claro:

(a) a arte da guerra baseia-se na simulação, cuja excelência consiste em vencer o inimigo sem precisar lutar. Como? Usando sempre a abordagem indireta: jogar o estímulo já sabendo a reação do oponente. A Coviid-19 presidencial é a bomba semiótica perfeita para estimular o esperado comportamento reativo das oposições políticas, intelectuais, identitárias etc.

(b) na guerra híbrida o conflito tradicional (em torno de dissimulações) dá lugar às guerras assimétricas, onde os novos atores se unem aos costumeiros em um ambiente cognitivo marcado por simulações que produzem pós-verdade e incertezas – produzido pela disseminação criptografada de informações.

A abordagem indireta da contaminação presidencial baseia-se essencialmente na pós-verdade: os efeitos passam a ser mais importantes do que as causas. Por exemplo, nem se discute mais se a Covid-19 de Bolsonaro é real, mas quais podem ser os desdobramentos econômicos: se os sintomas forem “leves”, o presidente continuará na sua toada negacionista; se piorar, poderá “cair a ficha e recolher as armas contra a ciência” – clique aqui.

Enquanto os atores sociais agem no piloto automático, reativamente, a porteira é aberta para a “boiada” passar, como bem destacou a jornalista Helena Chagas:

Enquanto o país está entretido com a Covid do presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro prestou depoimento no Ministério Público do Rio no escândalo das rachadinhas e o habeas corpus impetrado pela defesa de Fabrício Queiroz e de sua mulher, Marcia Oliveira, chegou às mãos do presidente do STJ, ministro João Otávio Noronha. Com o recesso do Judiciário, o ex-assessor, hoje preso em Bangu 8, deve escapar do rigoroso relator do caso, Félix Fischer, e ter seu destino decidido monocraticamente por Noronha – clique aqui.

E mais: presidente com Covid não depõe – Bolsonaro livra-se da saia justa do inquérito que apura a interferência na Polícia Federal. Ou o depoimento é postergado ou será apenas por escrito, bem ao gosto de Bolsonaro.

Timing perfeito da bomba semiótica, principalmente no momento de recesso do Judiciário…

Será tudo uma incrível cumplicidade entre autoridades médicas e militares para a criação de uma fake news? Se sim, não teria sido o divisor de águas eleitoral da facada de 2018 outro exemplo desse modus operandi? Bolsonaro é um “sujeito de sorte”?

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


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