Cinegnose

por Wilson Ferreira

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11 de novembro de 2019, 23h04

Irrealidade midiática cotidiana: onda de protestos no mundo e o fiasco do leilão que deu certo

Nos acontecimentos genuínos, jornalistas preferem manter-se numa distância segura

Fotos: Reprodução

Dois didáticos episódios para dissecar as operações semióticas do atual jornalismo corporativo: a cobertura dos protestos no Chile e do megaleilão do pré-sal. No primeiro, tenta-se encaixar a grave crise social chilena no script da “onda de protestos pelo mundo”: Hong Kong, Jordânia, Líbano e… Quito, Chile. Propositalmente misturando Revolução Popular Híbrida (RPH) com protestos genuínos – operação semiótica de “naturalização” para dissimular o significado político bem diferente dos protestos sul-americanos. E o megaleilão do pré-sal: de um lado, a esquerda e mercado petroleiro falando em “fiasco”; e do outro a grande mídia falando em sucesso do “maior leilão do mundo”. Um “fiasco” muito bem-sucedido dentro da guerra semiótica criptografada: jogar com informações dissonantes para esconder o objetivo mais sombrio do mercado internacional que financiou a guerra híbrida brasileira: não colocar mais um centavo no País para, pacientemente, esperar a hora da xepa. 

“São manifestações que começaram por motivos bastante específicos, mas que acabam por refletir a insatisfação da população com a situação geral do país, um descontentamento com a classe política e aqueles que ocupam o poder”. Esse é o pequeno lead que abre uma matéria do portal G1, da Globo, sobre os “protestos pelo mundo”.

Como diz a matéria, um “resumo” para aqueles que “estão perdidos diante das manifestações que ocorrem pelo mundo”.

Como discutíamos em postagem anterior (clique aqui) o jornalismo corporativo reporta os acontecimentos por dedução: há um script (ou narrativa, como queiram) que precede qualquer evento. Uma narrativa criada pelas chefias, colunistas e editorialistas e repassada como fosse uma correia de transmissão para redatores e repórteres. Uma correia bem rápida na medida em que temos mais jornalistas sentados (diante das telas de computadores ou smartphones) do que em pé – em campo seguindo o próprio faro.

Por dedução, os diferentes protestos em Hong Kong, Líbano, Jordânia, Equador e Chile são encaixados no script da “corrupção da classe política” – script que parece que virou uma espécie de “dedutor universal” desde que as “Jornadas de Junho” de 2013 no Brasil pariram a Pan-Lava Jato – o que chamávamos de “mutirão” virou “força-tarefa” e a “luta contra a corrupção” virou o equivalente geral que explicaria qualquer acontecimento político no planeta.

Protestos e fiascos

Dois acontecimentos abalaram esse raciocínio dedutivo da grande imprensa: os violentos protestos que expuseram a crise social no Chile e o “suposto” fiasco (essa será uma questão controversa que abordaremos adiante) do leilão de campos do pré-sal nessa quarta-feira.

O abalo produzido pela emergência do real logicamente fez a grande mídia disparar seu mais costumeiro mecanismo de defesa: a estratégia semiótica da naturalização – técnica de tratamento dos fatos no sentido de tirar deles peso, impacto ou dramaticidade. Dilui-se o impacto de acontecimentos ao reporta-los dentro de uma lógica dedutiva de que os fatos acontecem dentro de um script esperado pelo jornal.

A irrupção dos protestos no Chile cujas ruas foram ocupadas por milhões de manifestantes pegou de surpresa a grande mídia por ser um sintoma da crise, fratura social frente a um modelo econômico extremamente desigual. Porém, é o principal modelo para as reformas neoliberais pretendidas para o continente.

Por esse motivo, a mobilização semiótica de jornalões, portais e telejornais para trivializar os acontecimentos: haveria uma “onda” de protestos correndo o mundo. Por quê? Ora, porque as pessoas estão cansadas “da classe política”, da “corrupção” e, por consequência, cansados daqueles que “ocupam o poder” e sedentos por “democracia”.

Em última instância, uma narrativa que dá sentido ao golpe político que ocorreu no Brasil e o anseio pelo “novo” na política, representado por figuras como a diáfana Tabata Amaral e o reformador de latas velhas de telespectadores pobres globais Luciano Huck – partilham de uma certa ideia tecnocrática de Política como busca por “boas práticas”, “qualidade” e “soluções”, como fossem candidatos a CEO de alguma corporação e não de um País.

Revolução Popular Híbrida

Claro que o chamado Deep State norte-americano com a sua geopolítica de guerras híbridas promovendo RPHs (Revoluções Populares Híbridas) pelo planeta dá um auxílio luxuoso a essa estratégia semiótica – ajuda a grande mídia embaralhar e colocar os acontecimentos disruptivos do Chile e Equador no mesmo saco das RPHs de Hong Kong, Líbano e Jordânia.

E o que são RPHs? Elas têm diversas denominações: “Primaveras”, “levantes”, “jornadas”, “protestos”, não importa o nome. Em todos eles, sempre a cobertura midiática relata os acontecimentos sob a narrativa do “espontâneo”, do “novo”, da “renovação na política” – Jordânia (2013), Egito (2013), Ucrânia (2014), Georgia (2003), Hong Kong (2014), Síria (2012), Tunísia (2010), Líbia (2011) e, finalmente, Brasil (2013-16) – sobre a receita para fazer uma RPH clique aqui.

Propaganda, branding management, técnicas avançadas de psicologia de massas fomentam toda essa “espontaneidade” com objetivos geopolíticos bem definido contra o governo-alvo.

Mas como identificar as diferenças entre um protesto genuíno e uma RPH? Algumas dicas:

(a)Observe as faixas “espontâneas” estendidas pelos manifestantes em Hong Kong, Jordânia e Líbano: muitas delas são escritas em inglês para ganhar a simpatia da opinião pública internacional e, principalmente, de políticos norte-americanos – por exemplo, Câmara dos Representantes dos EUA aprovou três leis em apoio aos “manifestantes pró-democracia”.

Não é para menos que manifestantes em Hong Kong empunham bandeira dos EUA nos protestos.

Bem diferente dos protestos em Quito ou Santiago: como acontecimentos genuínos, faixas e ícones dos protestos são em espanhol – são acontecimentos reais e que, por isso, não fazem relações públicas de si mesmos.

(b)Como eventos relações públicas de si mesmos, precisam de uma marca: por exemplo, em Hong Kong é o guarda-chuva – a chamada “Umbrela Revolution”. Assim como tivemos a “Revolução Laranja” (Ucrânia), “Revolução Verde” (Irã) ou “Jornadas de Junho” no Brasil.

Se não deu tempo para criar e gerir uma marca, parte-se para uma causa identitária que comova a opinião pública internacional: na Jordânia, o “protesto dos professores que desafia o status quo”. E no Líbano as “feminist blocs” – mulheres que lutam por direitos numa sociedade conservadora, fecham estradas e até chutam um guarda costas armado do ministro da Educação…

Tal esforço retórico não é visível nas coberturas dos protestos sul-americanos. Ou melhor, a retórica é outra – não visa conquistar simpatia, mas causar repulsa pelo caos, anomia, violência e vandalismo.

(c)RPHs são sempre reportadas como “espontâneas”, “horizontais”, “sem lideranças” e, principalmente, “suprapartidárias” para criar o aspecto de “novo” contra a “velha Política”. Enquanto nos protestos como no Chile fica bem claro o caráter organizado em movimentos sociais: CUT (central sindical), NO+AFP (movimento contra a capitalização da aposentadoria) e movimentos indígenas Mapuches. Há porta-vozes e emissão de comunicados.

Mas nas estratégias de RP das RPHs prefere-se individualizar, criar personagens, de preferência femininas e jovens, para figurar a imagem do “velho” contra o “novo” – clique aqui.

(d)Por isso, a diferença semiótica da cobertura televisiva:  nos acontecimentos genuínos, opta-se pelo chamado “jornalismo drone”: imagens do alto e sem sonoras. Enquanto nos ambientes controlados das RPHs, jornalistas facilmente se misturam nas multidões para entrevistar e gravar imagens.

(e)Por quê? Porque nas RPHs temos protestos em clima de festas, como, por exemplo, nos protestos na Jordânia: “Raves improvisadas”, “celebrações de casamentos no meio da multidão”, relata o site BloombergEventualmente surgirão pneus queimados e choques com a polícia. Mas é para sustentar a narrativa midiática: “a manifestação começou pacífica, porém…”.

Nos acontecimentos genuínos, jornalistas preferem manter-se numa distância segura.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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