Cinegnose

por Wilson Ferreira

13 de agosto de 2019, 21h35

Livro “Dark Star Rising”: como a Magia e o Oculto levaram Trump e “Alt-right” ao poder

O crescimento e popularização da Internet tornou-se uma via importantíssima para o desenvolvimento da Magia do Caos

Fotos: Reprodução

Quando pensamos em magia e ocultismo logo associamos a coisas como feitiçaria, estranhos rituais, incensos, satanismo etc. Porém, a magia moderna está muito além disso. Desde que, no século XX, o mundo da magia e do oculto, representado por figuras como Julius Evola e Aleister Crowley, se encontrou com a propaganda política e meios de comunicação de massa na conjuntura do nazifascismo. Hoje, dentro do cenário da ascensão da chamada “direita alternativa” (“alt-right”), surge uma nova convergência: a partir de nomes como Steve Bannon e Richard Spencer, a Magia do Caos (corrente esotérica moderna) encontra-se com Internet, redes sociais e a campanha vitoriosa de Donald Trump. Esse é o tema do livro “Dark Star Rising – Magick and Power in the Age of Trump”, de Gary Lachman – pesquisador que investiga as conexões entre Sincromisticismo e Política. Para o pesquisador, assim como crianças brincando com fósforos, a extrema direita manipula elementos da Magia do Caos (o Caos como método pragmático: “sigilos”, “memes mágicos” etc.) numa rede digital global que substitui o Plano Astral. Com consequências imprevisíveis. A não ser, a conquista do Poder.

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Em novembro de 2016, logo depois da vitória eleitoral de Donald Trump, Richard Spencer (líder do “National Policy Institute” – grupo de lobby de supremacistas brancos e da chamada “direita alternativa”, “alt-right”), declamou para uma entusiástica plateia que aplaudia: “Heil Trump! Heil nosso povo! Heil nossa vitória! Nós queríamos Donald Trump na Casa Branca. Nós fizemos o sonho se tornar realidade!”.

Em 2014, num congresso no Vaticano sobre populismo e capitalismo, o guru ideológico e estrategista da campanha eleitoral de Trump, Steve Bannon, citou em seu discurso o filósofo esotérico italiano Julius Evola – associado profundamente ao nazismo e proponente do “Tradicionalismo”: visão de mundo popular nos círculos de extrema direita e religiosos alternativos. Baseando-se na tradição ocultista e esotérica, Evola acreditava que progresso e igualdade eram noções perniciosas.

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Idealizava a “Sinarquia” (oposto de anarquia): um governo total de uma elite supranacional, uma “Civilização Solar” europeia organizada em castas. Apesar de ter inspirado o fascismo de Mussolini, Evola preferia os nazistas alemães por considerar os italianos “excessivamente mansos”.

Suas ideias chegam aos EUA e ao movimento “alt-right” através do site Breibert News, de Steve Bannon. Para Jason Horowitz, jornalista do New York Times, “o fato de Bannon conhecer Evola já é significativo”.

É a partir desses dois episódios que o pesquisador Gary Lachman inicia o seu livro “Dark Star Rising – Magick and Power in the Age of Trump” (Nova York, Tarcher Perigee, 2018) no qual descreve como círculos concêntricos formados por ocultistas e mágicos da mente em torno da figura de Trump o impulsionaram para a vitória.

Muito já foi escrito sobre como Trump chegou à Casa Branca, através de roubo de dados do Facebook e manipulação de informações das redes sociais, por meio da Cambridge Analytica e Renassaince Technologies de Robert Mercer.

Magia do Caos

Para Gary Lachman essa é a superfície “racional” de um movimento mais profundo, sincromístico, envolvendo conexões entre Internet e a chamada “magia do caos” (“Chaos Magick”) e o movimento esotérico moderno que se convencionou chamar de “Novo Pensamento” – conjunto de crenças e filosofias na qual se acredita que “magia” nada tem a ver com cerimônias, rituais, feitiços ou encantamentos. Mas se trata de como a mente pode influenciar diretamente a realidade. Através de “esforços mentais” poderíamos fazer “coisas acontecerem”.

A exaltação de Richard Spencer ao afirmar que “fizemos o sonho virar realidade” e as conexões de Bannon com o pensamento de Julius Evola são as primeiras pistas das complexas ligações entre magia, ocultismo e propaganda política.

Antes de lermos esse livro, temos que considerar que não estamos diante de um pesquisador comum. Lachman é autor de muitos livros de como a tradição ocultista e esotérica Ocidental se imbrica com a Política e o Poder. Além de professor do “California Institute of Integral Studies”, seu perfil, por assim dizer, heterodoxo se completa com o fato de ter sido o baixista da banda punk-new wave “Blondie”, da vocalista Debbie Harry. Além de ter sido incluído no “Rock and Roll Hall of Fame”.

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Desde os anos 1990, paralelo aos constantes revivals do “Blondie”, Lachman tornou-se pesquisador e escritor de uma série de livros em que descreve o lado sombrio do ocultismo Ocidental: o seu appeal pela conquista do Poder através da Magia.

Magia e movimento Punk

O que torna a pesquisa de Gary Lachman interessante é que ele é um observador participante – é ao mesmo tempo um “insider” da indústria da cultura pop e um pesquisador de como essa indústria está conectada com muitos movimentos ocultistas que, ao final, acabaram inspirando ideologicamente da direita alternativa.

Por exemplo, “Dark Star Rising” descreve como a chamada “Magia do Caos” surge nos anos 1970 como movimento anárquico (baseado em Wicca e Thelema de Aleister Crowley) para desmistificar o “Oculto” no qual cada indivíduo pode criar seu próprio “sistema mágico”. A partir do legado do artista plástico inglês Austin Spare (1886-1956, criador de um sistema mágico pessoal baseado em técnicas como “Sigilo”, “Atavismos” e “Alfabetos do Desejo”), parte-se da ideia de que, “a priori”, “qualquer coisa é verdadeira e possível”.

Por exemplo, nos anos 1970 surge o “Stoke Newington Sorcerors” (SNS), grupo ocultista envolvido diretamente com o início do movimento Punk na Inglaterra, declarando-se um grupo libertário, dentro das correntes mágicas, chamado de “caoístas”.

O ocultismo de Julius Evola e Magia do Caos irão convergir com Steve Bannon, ainda potencializado com uma tradição filosófica norte-americana: o chamado “Novo Pensamento” com diversos nomes como “Ciência Mental” ou “Ciência da Mente”, cujo grande devoto é Donald Trump. Principalmente através da popularização feita pelo Reverendo Norman Vincent Peale no livro “O Poder do Pensamento Positivo”, de 1952 – a ideia de que a mente pode superar qualquer obstáculo.

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Os princípios da Magia do Caos

“Não faço negócios de rotina” ou “Eu jogo muito solto” são afirmações de Trump que para Gary Lachman são crípticas.  Para Trump, tudo é uma questão da vitória da vontade. Esse é um princípio básico da magia do caos: o que importa é o resultado. O mago do caos não deve crer em nada. A crença só é necessária no momento da operação, da estratégia. É a vontade destituída de qualquer princípio ou valores. É o niilismo do “tudo é possível”. É no vácuo de valores ou princípios que toda a magia se realiza.

Outro princípio é o de descondicionamento, desconstrução: o praticante deve perceber a relatividade ou validade de qualquer conceito. Nada tem sentido intrínseco. Por isso, não há problema algum em se contradizer.

Outra tônica da magia do caos é a forte dose de humor e irreverência nas práticas e declarações. Atento à relatividade de tudo, o mago do caos não deve levar qualquer coisa a sério – a gargalhada é uma das maiores formas de banimento para a magia.

Para Lachman, todas essas características da magia do caos estão ligadas ao espírito dos berços cibernéticos da “alt-right”: o site Breibart.com e o fórum 4chan– locais onde foram exercitadas a atitude niilista de brincar com a realidade, criando pós-verdades e realidades alternativas: teoria da terra plana e a conspirações dos “globalistas”; o escândalo do “pizzagate” envolvendo Hillary Clinton, satanismo e pedofilia; bases nazistas no lado oculto da Lua etc.

O crescimento e popularização da Internet tornou-se uma via importantíssima para o desenvolvimento da Magia do Caos. Mais do que um canal que facilitou de difusão das ideias ocultistas, a Rede parece que surgiu por encomenda para os caoístas – tornou-se o próprio substituto do Plano Astral dentro da hipótese do Sincromisticismo.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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