Cinegnose

por Wilson Ferreira

28 de outubro de 2015, 15h17

“MasterChef Júnior”, a adultificação das crianças e o fim da vergonha

O episódio do assédio sexual através das redes sociais sofrido pela menina Valentina na primeira edição do reality televisivo “MasterChef Júnior” é a ponta do iceberg de um movimento mais profundo e perigoso: o fim da vergonha como a barreira que continha a sedução pela barbárie e a adultificação das crianças pelas mídias. Sexismo, ódio, assédio sexual e intolerância que invadem as redes sociais lembram as sombrias profecias de escritores libertinos do século XVIII de que um dia as perversões privadas se tornariam virtudes públicas. E as crianças, transformadas em mini-adultos em um programa de final de noite onde correm contra o tempo segurando o choro, são o reforço motivacional para os telespectadores acordarem no dia seguinte e repetirem as mesmas situações na fábrica ou no escritório.

Os leitores devem já conhecer a opinião desse Cinegnose em relação ao reality show MasterChef da Band: é um bullying gastronômico – um programa de final de noite com o objetivo de reforçar subliminarmente a ideologia pela qual seremos regidos quando acordarmos no dia seguinte para trabalhar: o princípio do desempenho.

Correr contra o tempo em busca da eficácia, eficiência, produtividade, mérito e cumprimento de metas sob as chibatadas de algum superior do tipo gerente, diretor, gestor etc. MasterChef transforma isso em diversão ao nos deliciarmos em ver pessoas angustiadas e esbaforidas correndo contra o relógio sob gritos e olhares inquiridores de chefes de cozinha. Igual o que acontecerá com o telespectador no dia seguinte na vida real na fábrica, escritório ou em outra empresa qualquer.

Algo assim como o observado pelo filósofo Theodor Adorno em relação ao riso sadomasoquista ao vermos o Pato Donald sendo mais uma vez demitido pelo Tio Patinhas com um chute no traseiro: riso nervoso porque no fundo sabemos que um dia passaremos por aquilo.

Pois agora a franquia MasterChef quer ir além: não basta apenas reforçar o princípio do desempenho no presente, em adultos telespectadores sadomasoquistas. Agora o programa tem que pensar no futuro: as crianças. 

Elas também devem conhecer o futuro que as aguarda: correr contra o tempo, competição, facas, panelas de pressão e… bullying e assédio sexual.

MasterChef Júnior é mais um produto da franquia que estreou a semana passada na Band onde vinte crianças entre nove e treze anos participam de uma competição culinária. 

Enquanto as crianças em suas bancadas corriam contra o relógio (mostrando os ponteiros em closes dramáticos sob uma trilha de suspense ao melhor estilo do clássico western Matar ou Morrer com Gary Cooper) e seus pais torciam observando a tudo do alto de um mezanino, nas redes sociais os competidores mirins era alvos de comentários adultos elogiosos e outros nem tanto.

Valentina, menina de 12 anos, tornou-se alvo de comentários de teor sexual. Alguns chegando a apologia ao estupro. Infelizmente para Valentina seu refinado ravióli recheado com gema de ovo mole não foi o que a levou ao topo do Trending Topics no Twitter, mas sim a chuva de comentários do calibre de “panela nova é que faz comida boa”, “Valentina: se tiver consenso é estupro?” ou “#valentinaplayboy”.

“Novinha”, “vagabunda”, “já aguenta” foram os “elogios” mais “leves” de homens em perfis do Facebook e Twitter.

Duas questões chamam a atenção nesse triste episódio: a tendência atual da transformação das perversões privadas em “virtudes” públicas e a adultificação midiática das crianças.  

Vergonha e barbárie

Freud afirmava de forma sombria que a civilização não podia existir sem o controle dos impulsos, principalmente o da agressão e da satisfação imediata. Para ele, andamos no fio da navalha do perigo constante de sermos possuídos pela barbárie: a violência, a promiscuidade e o egoísmo. A vergonha é um dos principais mecanismos para manter a barbárie à distância: o temor em praticar certos atos ou manifestar certos pensamentos. Tornam-se misteriosos e temíveis pelo fato de serem continuamente escondidos das vistas do público.

Recentemente o escritor e semiólogo italiano Umberto Eco acusou as redes sociais de “terem dado o direito de falar a uma legião de idiotas”. Talvez seja mais do que isso: as redes sociais vêm anulando o mecanismo civilizatório da vergonha – ódio, intolerância, racismo, sexismo, assédio e perversões tornam-se públicas, não mais como sintomas patológicos mas agora como “opiniões”, “haters”, “politicamente incorretos” ou, o que é pior no caso brasileiro, resistências contra a “demonização” do sexo imposta por uma suposta conspiração chefiada por “feminazis”, a “ditadura gay” e a ideologia do politicamente correto das Esquerdas. 

Certa vez Choderlos de Laclos, autor do romance Ligações Perigosas, do século XVIII, afirmou que um dia as perversões privadas se tornariam virtudes públicas – e ironicamente a profecia realiza-se no sofisticado ambiente tecnológico da Internet. A barbárie que sempre flertou com a civilização e o psiquismo de cada um de nós ganha um inusitado impulso eletrônico-digital.

Adultificação da criança

E relacionado a isso temos o fenômeno da adultificação da criança. TV, cinema e, mais tarde, YouTube criaram uma dinâmica cultura da celebridade que substituíram o antigo modelo paterno de ego ideal. Os pais modernos sempre sentiram que a mídia superou há muito a família como agência socializadora. Por isso, tornar o filho em imagem tornou-se o único legado que os pais podem deixar.

Já foi o tempo em que a mãe orgulhosa mostrava o bebê e a sua foto – o book de fotos era a única memória familiar palpável. Mais tarde, a obsessão do filho fazer parte de books de agências de cast de filmes publicitários. Hoje, a chance de virar uma celebridade em um reality júnior qualquer.

A proletarização dos pais e a vida familiar cada vez mais rarefeita fizeram os filhos serem expostos cada vez mais cedo ao mundo externo, desde a creche nos primeiros meses de vida até chegar ao único legado da paternidade ausente: transformar o filho em imagem e celebridade.

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