Cinegnose

por Wilson Ferreira

Fórum Educação
07 de dezembro de 2019, 00h12

Mídia não dá nomes aos bois em Paraisópolis e reforça amnésia social

Leia no blog Cinegnose: Três acontecimentos históricos marcaram indelevelmente o Brasil como Nação - a escravidão, a República instaurada por meio de um golpe militar em 1889 e a própria conquista do Estado por uma ditadura militar. São cenas traumáticas que o País revive neuroticamente

Fotos: Reprodução

Um fantasma ronda o País: a desconexão entre as palavras e as coisas. Aquilo que no começo desse século a coluna de humor de José Simão na “Folha” chamava de “tucanês” (inspirado na linguagem prolixa de Fernando Henrique Cardoso e do PSDB) se hipertrofiou como discurso jornalístico e da própria mediação da realidade em um arco de vai das corporações a ONGs: eufemismos, neologismo, discursos indiretos etc. O resultado é uma espécie de “amnésia social” na qual são denegados os três traumas que fundam essa nação: a escravidão, o golpe militar que instaurou a República e a ditadura militar de 1964 a 1985. As mortes na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, pela ação repressiva policial, em outro estigmatizado “pancadão”, são recorrências do retorno do reprimido do inconsciente coletivo nacional. Para a mídia, não há extrema direita, ditadura e reprodução da desigualdade. Há “conservadores”, “governo polêmico” e “desafios” a serem superados por “boas práticas”. Sem dar nomes aos bois, a grande mídia e o País estão condenados a viver no ciclo vicioso de depressões e crises de euforia. 

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Ela é de família holandesa e morou muito tempo na Tanzânia. É amiga da minha esposa e trabalham na produção de uma panificadora orgânica. Outro dia, estavam limpando a cozinha ao final de mais uma fornada. Então, ela pegou uma embalagem de álcool e olhou para a marca que se chamava “Zulu”. Como uma pessoa que morou muito tempo no continente africano, o que chamou a atenção não foi só o nome, como também o ícone da marca: um desenho estilizado de uma negra africana.

Perplexa observou: “produto de limpeza… uma negra… africana! Como assim?”, tentando imaginar quais as relações de sentido entre álcool-produto de limpeza-negra africana. Ficou assustada com o racismo latente nessas conexões semióticas.

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Certa vez, quando meu filho tinha tão somente cinco anos, passávamos por um bairro nobre de São Paulo quando vimos a fachada de um restaurante cujo nome era “Senzala”. Também perplexo, ele observou: “Como pode um restaurante ter o nome de um lugar tão triste onde os escravos eram acorrentados e morriam?…”.

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Na tarde de segunda-feira no canal fechado GloboNews são apresentadas imagens gravadas por celulares de moradores da comunidade de Paraisópolis sobre a catastrófica ação policial em um baile funk, na qual morreram nove jovens, segundo a polícia “pisoteados”. Todas as imagens e depoimentos indicavam uma deliberada ação letal da repressão policial.

Entra ao vivo a opinião de uma dirigente do Instituto Sou da Paz (ONG especializada em pesquisas e estatísticas sobre políticas públicas de segurança e prevenção da violência). Um discurso que exigia fazer uma análise “técnica” sobre a tragédia, destacando a necessidade de a polícia seguir “protocolos” de abordagem e com policiais “melhor preparados”.

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Um fantasma ronda esse País: a desconexão entre as palavras e as coisas. Há um grave problema semiótico de produção de sentido, de intransitividade entre signos e acontecimentos, discurso e História, cuja consequência é o esvaziamento de sentido, esquecimento. Ou, no sentido freudiano, denegação – mecanismo de defesa de negação da realidade contra algo que possa gerar dor ou sofrimento.

Um ícone de um produto de limpeza em “black face”, o nome fantasia de uma lanchonete remetendo à escravidão e morte de negros (imagina se o nome fosse “Auchwitz”…) e uma opinião anódina sobre o assassinato de jovens pobres da periferia que se divertiam em um baile funk, com um viés “técnico” que remete a “protocolos”: são sintomas de um sério problema coletivo do qual o País não consegue escapar.

Incapaz de fazer um acerto de contas com o sua própria História devido a uma reprodução deliberada da amnésia social: a midiatização da realidade através dos grandes meios de comunicação que simplesmente não se interessam em dar nome aos bois ou ligar as palavras às coisas. Por meio de eufemismos, ilações, neologismos, discursos indiretos, neutralizações etc. denega uma realidade explosiva e dolorosa.

Michel Foucault (1926-1984)

As Palavras e as Coisas

O leitor deve estar percebendo que este humilde blogueiro está parafraseando um livro clássico de Michel Foucault chamado “As Palavras e as Coisas”. Para o filósofo francês, o poder se exerce sobre as palavras e as coisas – ele não é exercido apenas através de aparelhos repressores (polícia, exércitos, censura etc.) que exercitam a coação do corpo.

O poder também é exercido por meio de discursos, os “discursos de poder” – “o maior poder é aquele que é exercido sobre os ânimos”, dizia Espinosa.

Principalmente nos regimes formalmente democráticos, as palavras e seus sentidos passam a ocupar lugar de destaque porque, através dos meios de comunicação, a linguagem se torna um meio comum. As usurpações de poder passam então a não se limitar somente na esfera institucional mais imediata – ocupam, pelo menos num primeiro momento antes de golpes políticos, as palavras e os termos numa espécie de higienização da língua. Tornando os signos intransitivos com os acontecimentos e a própria História.

Essa natureza linguística do Poder leva àquilo que o crítico social norte-americano Russell Jacoby chamava de “amnésia social”: a tendência das sociedades denegarem a memória, o passado da própria sociedade. Um “discurso de poder” que não se limita apenas à grande mídia, mas se esgueira entre as pesquisas acadêmicas nas ciências sociais – leia: JACOBY, Russell, Amnésia Social, Zahar, 1977.

Não é por menos que a extrema direita tem nas chamadas “guerras culturais” revisionistas seu locus privilegiado.

Escravidão, República e Ditadura

Três acontecimentos históricos marcaram indelevelmente o Brasil como Nação: a escravidão, a República instaurada por meio de um golpe militar em 1889 e a própria conquista do Estado por uma ditadura militar (1964-1985), após golpe sobre um governo civil. São cenas traumáticas que o País revive neuroticamente porque não consegue nomeá-las, assumi-las, simbolizá-las para serem finalmente elaboradas e superadas. Assim como numa clássica sessão de psicanálise.

O resultado é um transtorno ciclotímico, condenado a viver entre momentos de depressão e crises de euforia, enquanto a cena do trauma não for redimida. Enquanto não houver um acerto de contas psíquico.

O trágico episódio dos jovens mortos em ação da Polícia Militar de São Paulo em um baile funk na comunidade de Paraisópolis (encravado no meio do bairro nobre do Morumbi), é uma dessas crises ciclotímicas nas quais estão lá, pulsando como o retorno do reprimido, as três cenas citadas acimas que historicamente jamais foram resolvidas – uma política de extermínio para manter a bugrada em seu devido lugar, como fosse a senzala na escravidão, através do braço forte da Polícia Militar:  invenção da ditadura com militarização das polícias criada por decreto-lei em 1969.

A desconexão de cada dia

Os exemplos dessa amnésia social decorrente dessa desconexão entre palavras e coisas são diários.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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