Cinegnose

por Wilson Ferreira

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22 de outubro de 2011, 21h41

No Filme “Liquid Sky” um Exilado Soviético Descobre Outros Demiurgos no Ocidente

Após cinco anos nos EUA, o soviético Slava Tsukerman decide fazer um filme independente que explorasse a mitologia pop contemporânea sobre sexo, euforia, drogas e alienígenas do espaço sideral. É “Liquid Sky”, um filme sobre exilados e estrangeiros, assim como ele. Um olhar quase etnográfico e mítico sobre a condição humana contemporânea dominada pelo sentimento de desamparo e alienação em um mundo governado por novos Demiurgos: alienígenas e indústria do entretenimento.

Um exilado soviético chega em Nova York na segunda metade dos anos 1970 e encontra a uma incipiente cena punk e new wave abastecida com drogas, androginia, euforia, fúria e sexo. Passados cinco anos imerso no estilo de vida norte-americano, reúne um grupo de amigos e baixo orçamento para produzir um filme cuja sinopse pode ser resumida dessa forma:

“Alienígenas invisíveis vêm a Terra num disco voador minúsculo em busca de heroína. Pousam no topo de uma cobertura em Nova York, onde moram uma traficante e sua amante andrógina, ninfomaníaca e bissexual, que também é modelo. Os alienígenas logo descobrem os feromôneos criados no cérebro durante o orgasmo e os preferem à heroína, e então os amantes da modelo ninfomaníaca começam a desaparecer. Este cenário incrivelmente bizarro é observado por uma mulher solitária que mora do outro lado da rua, um cientista alemão que está seguindo tanto alienígenas quanto o igualmente andrógino modelo masculino viciado em drogas.” 

Esse é o cult, pós-punk e mix de sci fi e new wave “Liquid Sky” (1982) do diretor Slava Tsukerman (do recente filme “Perestroika” – 2009) que acabou se tornando um modelo tanto de linguagem como de produção para o cinema independente. O que torna o filme interessante no bizarro enredo é que o diretor é um documentarista (após sair da URSS filmou documentários em Israel) e, ao mesmo tempo, um estrangeiro dentro da cultura norte-americana. Revendo “Liquid Sky” percebemos um olhar etnográfico de Tsukerman, um mix de ironia, humor negro, documentário e olhar de um estrangeiro que pretendia dissecar o imaginário e os personagens que pareciam ser tão estrangeiros quanto ele.

O que se percebe na narrativa de “Liquid Sky” é que se trata de um filme sobre “estrangeiros”: alienígenas de outros mundos, personagens deste mundo perdidos na noite como fossem replicantes melancólicos e o próprio diretor, um soviético tentando compreender os EUA. 


O argumento do filme foi inspirado na mitologia pop americana, como afirmou Tsukerman: “Eu inclui todas as lendas e mitos da época, que ainda estão por aí. Acho que é por isso que o meu filme ainda funciona, como os mitos sobre sexo, drogas, euforia, relações entre sexos e alienígenas do espaço sideral. Minha ideia era que eu precisava uma trama que incorporasse de forma divertida toda essa mitologia, e parece que é por isso que meu filme tenha sobrevivido a tanto tempo” (“Aliens, Acid, Androgyny, Oh My! Interview with Liquid Sky’s Slava Tsukerman” disponível em: http://www.openingceremony.us/entry.asp?pid=653) .

Visualmente brilhante e cativante, o filme é pontuado pelo ponto de vista da criatura espacial com imagens com alto contraste em vermelho, roxo e verde, culminando com uma explosão como fosse uma almôndega eletrônica. Aparentemente significa que a criatura está tendo prazer intenso decorrente da absorção da heroína e, depois, ao assassinar os parceiros sexuais da protagonista Margaret, extraindo deles os feromôneos e a endorfina do orgasmo.

Toda a estória gira em torno da atriz Anne Carlise que interpreta dois personagens: Margaret (interiorana de Connecticut que abandonou os “EUA profundos” em busca de fama e sucesso na metrópole) e Jimmy (um modelo masculino com um bigode penteado para trás e cabelo andrógino ao estilo Andy Warhol). A aparência dessa dupla muda constantemente, como tudo ao redor sempre cercado de detritos, garrafas de cerveja e iluminação neon.

Exilados e abduzidos

O diretor Slava Tsukerman
Em postagem anterior (veja links abaixo) discutíamos que a mitologia contemporânea promovida pela indústria do entretenimento está centralizada em três personagens que expressariam a condição humana contemporânea: o detetive, o viajante e o estrangeiro. Em síntese, as antigas novelas policias, “film noir”, “western” e literatura “pulp fiction” criaram um mix imaginário que serviu de base para toda uma espécie de “sub-zeitgeist” da cinematografia independente que acabou alimentando roteiros e produções de muitas produções “mainstream” (videoclipes e longas metragens).

Nessa mitologia contemporânea é recorrente a percepção humana de estranhamento e alienação: é sobre aquele protagonista que nunca se sente em casa em lugar algum. Procura sempre esquecer o seu passado, sua história, o que é. Passa a maior parte do tempo em silêncio, fechado no seu drama, tenso, crispado. Quieto observa o mundo cair em pedaços.  É como se a própria casa, o país e o mundo fossem um lugar hostil e ele próprio fosse um exilado abandonado por Deus ou como se o próprio Deus conspirasse contra ele.

O personagem Margaret é a última palavra em passividade: quando não está mudando de roupa é espancada, estuprada, abusada de várias formas ao longo da narrativa. É uma exilada dentro de uma mitologia gnóstica que descreve o cosmos como um sistema dominado por demiurgos que abusam do ser humano para extrair dele o que tem de mais precioso: vitalidade, brilho, luz, inocência e bondade. De um lado os alienígenas que abduzem humanos quando alcançam o orgasmo e, por outro, a indústria do entretenimento e da moda que, em troca da juventude e espontaneidade, oferece as ilusões das drogas e diversão fáceis.

Dentro dessa mitologia contemporânea inspirada na antiga mitologia gnóstica, o mito de aliens e discos-voadores é a atualização do arquétipo do Demiurgo e do Exílio. Abusos, abduções e contatos imediatos do terceiro grau são narrativas insistentes, eventos simbólicos que expressam como o ser humano enxerga sua própria condição nesse mundo, tal como um exilado, capturado por forças superiores que o exploram para lhe arrancar a alma, espírito ou energia. Filmes como “Matrix” (1999) ou “Cidade das Sombras” (Dark City, 1998) e as lendas urbanas de pessoas “chipadas” no interior de estranhas naves espaciais confirmam essa subjetividade contemporânea.

Toda essa condição de exílio e desamparo pode ser percebida nesse monólogo de Margareth após mais um abuso ao ser obrigada a fazer sexo oral com Jimmy. Ele morre abduzido pelos aliens após o orgasmo. Após se achar responsável por mais uma vítima, Margaret desabafa:
“Margareth: Você quer saber o que e quem sou? Sou uma matadora. Mato com a minha boceta. Você pode escrever sobre isso… na Midnight Magazine ou na National Enquirer. Vai ser a nova sensação. Você quer saber de onde eu sou? Sou de Connecticut, Mayflower Stock. Me ensinaram que um príncipe viria… e que ele seria advogado e eu teria filhos com ele. E nos finais de semana prepararíamos churrasco e todos os outros príncipes e princesas viriam e eles diriam ‘que delíca’, ‘que delicía’. Ou … que saco! Me ensinaram… que eu deveria vir para New York e me tornar uma modelo independente e que meu príncipe viria como um agente. E ele me arranjaria um papel… e eu levaria a vida servindo atrás de um balcão… e eu esperaria trinta, quarenta, cinquenta anos. E me ensinaram que para ser atriz eu deveria estar na moda… e estar na moda é ser andrógina e não sou menos andrógina que o próprio David Bowie. Me chamam de bonita e eu mato com a minha boceta. Não é super fashion?”
Drogas e Euforia

“Liquid Sky” é uma expressão para designar a heroína. Ao lado da cocaína, foram os combustíveis da Disco Music, Punk, Pós-Punk e New Wave na virada dos 70s aos 80s. Drogas euforizantes, diferentes das lisérgicas da década anterior envoltas pelo imaginário místico, religioso e espiritual: desde as conexões entre drogas como a mescalina e a abertura da percepção humana para novas realidades como em Adous Huxley (“As Portas da Percepção”) até as experiências transpessoais do neurocientista Thimoty Leary com o LSD.

O filme “Liquid Sky” documenta a cena das primeiras casas noturnas multimídias da história do pop onde os efeitos tecnológicos luminosos e auditivos já dispensavam qualquer droga lisérgica ou alucinógena. O aparato mutimidiático já fazia os indivíduos imergirem numa simulação alucinatória, dispensando qualquer tipo de droga para esse fim. O importante agora era manter-se “ligado” para dançar e interagir noite a dentro numa festa que podia durar 24 horas.

A trilha musical do filme, experimental e minimalista, (realizada com o primeiro sintetizador digital, um aparato chamado Fairlight CMI) é nitidamente hipnótica (como muitas tendências atuais do tecnopop), dentro do projeto multimídia das ambiências produzirem efeitos lisérgicos. Cocaína e heroína eram as drogas euforizantes, diferentes da geração atual das “smart drugs” onde o importante não é ficar apenas “ligado” mas, também, “esperto” já que as interações tornam-se cada vez mais tecnológicas (por meio de Ipods, blackberrys etc.) e onde as “baladas” podem se virtualizar ou entrar em rede por meio do Facebook, por exemplo.

Em síntese, o olhar estrangeiro de Slava Tsukerman transformou o filme “Liquid Sky” não apenas numa espécie de documento etnográfico de uma época da cena pop, mas também tornou-se Cult e atemporal por explorar uma mitologia contemporânea baseada em um sub-zeitgeist gnóstico que expressa a condição humana como exilada e dominada. Tsukerman descobriu no ocidente novos demiurgos: os aliens e a indústria do entretenimento.

Ficha Técnica

  • Título: Liquid Sky
  • Diretor: Slava Tsukerman
  • Roteiro: Slava Tsukerman e Anne Carlisle
  • Elenco: Anne Carlisle, Paula Sheppard, Susan Doukas, Otto von Wernherr
  • Produção: Z Films Inc.
  • Distribuição: Brazil Home Video e Media Home Entertainment
  • Ano: 1982
  • País: EUA




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