Cinegnose

por Wilson Ferreira

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10 de julho de 2010, 15h04

No princípio era a crise: a ontologia do Mal no Filme Gnóstico

A estrutura narrativa do filme gnóstico simbolicamente representa o drama cósmico descrito pelas narrativas do Gnosticismo: Criação e Queda em um único Ato. Um cosmos corrompido desde o início da Criação, o Mal como elemento principal de um escript que aprisiona um protagonista exilado das suas verdadeiras origens espirituais.

Se um gnóstico escrevesse uma bíblia, seu primeiro versículo seria “e no princípio era a crise”. Já que no princípio era a Crise e não o Verbo, o mundo físico foi um produto terminal, em crise e declínio desde o seu início. Para o Gnosticismo, a criação do mundo já é Queda pela presença ontológica do Mal na sua própria constituição, existência e dinamismo. Identificar o Mal com a existência material não significa incorrer na concepção religiosa tradicional da oposição entre matéria/espírito, Verdade/Mentira, Bem/Mal etc., num dualismo onde a matéria é considerada moralmente má por ser a fonte do pecado e da decadência espiritual. Ao contrário, o Mal para o Gnosticismo tem uma concepção Ontológia e não moral, isto é, o Mal é a essência constitutiva do próprio cosmos físico. Isso significa que ele possui algo de corrompido e falso desde o início.

A principal narrativa mítica da gênese da Criação/Queda e a concepção do Emanacionismo: a criação do mundo físico veio por uma serie de desdobramentos de cima para baixo com gradações de carências e perdas. O eixo espacial desse movimento são as diversas esferas ou éons. Esse dinamismo afeta a própria divindade que do repouso da sua eterna pré-existência é atirada na História do mundo. Isso significa que o Demiurgo, ao tentar reproduzir a plenitude do Pleroma nas esferas inferiores, incorreu em sucessivas dispersões do “Um”, em constantes espelhamentos ou emanações sucessivas, numa cadeia de irradiações que vão enfraquecendo até resultar num cosmos falso ou mal na sua essência.

Duas conseqüências práticas resultam dessa condição ontológica do Mal:

Primeiro, do ponto de vista do gnosticismo cátaro do pensador francês Jean Baudrillard, o mundo é tomado por uma “reversibilidade simbólica”: cada ação resulta no seu oposto – a Paz na Guerra, a construção na destruição, a utilidade no desperdício, o Bem no Mal etc. Cada nascimento do novo resulta numa reversão, devolução.

Segundo: a absolvição da humanidade por ela não ser a culpada pelo estado de coisas. Nunca houve um pecado original, a não ser dentro da própria divindade demiúrgica que criou esse mundo. Portanto, a “salvação” não viria da renúncia de si mesmo, da negação do indivíduo como origem do pecado ou do Mal. Pelo contrário, através da Gnose buscar dentro de cada um de nós as partículas de Luz que se dispersaram com o caótico dinamismo da cadeia de emanações que criaram esse cosmos físico. Salvação é conhecimento daquilo que foi perdido. Conhecer é lembrar, a partir da conscientização de exilados que todos nós somos.

A presença do Mal no Filme Gnóstico

A narrativa do filme gnóstico vai representar simbolicamente essa narrativa mítica da gênese do Mal. Isso vai tornar o filme gnóstico estruturalmente distinto do filme tipicamente hollywoodiano ou “comercial”.

Qual a estrutura prototípica de um filme “hoolywoodiano” ou de um “produto de monopólio”? Quem nos dá essa resposta de uma forma sintética é o pesquisador alemão Dieter Prokop que identifica a seguinte elaboração da consciência do público na estrutura do “produto de monopólio”:

“Nos produtos de monopólio domina o esquema do questionamento e da reconstrução da ordem. Os valores vigentes são desrespeitados, atacados e novamente restaurados. É um jogo necessário da fantasia, pois repete-se todas as vezes na estrutura do produto e nas expectativas; é uma tentativa de tornar-se consciente do que custa o desvio das normas.” (PROKOP, Dieter, “Fascinação e Tédio na Comunicação: produtos de monopólio e consciência” IN: Dieter Prokop (Coleção Grandes Cientistas Sociais), Sâo Paulo: Ática, 1986, p. 178,

Temos nessa análise de Prokop a estrutura-clichê de “quebra-da-ordem-e-retorna-à-ordem”. O roteiro do filme começa apresentando um cosmos ordenado, com a vigência de normas e valores normais (primeiro ato: a família feliz, o grupo de amigos, a sociedade em sua rotina cotidiana etc.). Repentinamente temos a quebra da ordem com a irrupção do Mal (ponto de virada para o segundo ato onde o Mal se desdobrará: serial Killer, assaltante de bancos, terroristas, explosões, incêndios, assassinatos etc.). E finalmente a restauração da ordem original descrita no primeiro ato (o terceiro ato: o duelo final entre o Bem e o Mal, com a vitória dos personagens representantes do Bem e o retorno à ordem).

Esse é o significado profundo do chamado Paradigma Sydfield dos três atos de um típico roteiro cinematográfico.

Ao contrário, o filme gnóstico começa com a Crise, Queda, logo no Primeiro Ato: os protagonistas já se encontram numa situação inautêntica, corrompida, conspiratória. Sentem que há algo de errado, sensação de estranhamento, de não pertencer àquele mundo. Pressentem o Mal na própria realidade e não como resultante de pecados dos seus próprios atos.

Em Donnie Darko (2001), por exemplo, o filme começa com o protagonista acordando de um estado sonambúlico no meio de uma estrada com sua bicicleta ao lado. Como parou ali? O filme já começa em desordem. Como também no filme gnóstico europeu O Homem que Incomoda (Den Brysomme Mannem, 2006), cujo filme começa com o protagonista descendo de um ônibus em uma estranha e inóspita localidade, sem saber o quê faz ali e nem como chegou lá. Ou ainda em A Passagem (Stay, 2005) onde não só o psiquiatra protagonista, mas o próprio espectador (por meio da fotografia “estourada”) sente, desde a primeira cena, que há algo de errado naquela cidade onde as ações de desenrolam.

O Mal está na própria realidade que envolve o protagonista, e não nos atos “pecaminosos” dos personagens (ações de quebrem a ordem “boa”). Por exemplo, no filme “de monopólio” o Mal está presente em cada ação “errada” do personagem que desestabiliza a ordem e é punido por isso: o jovem que desobedece a mãe vai para o acampamento onde Jason o espreita (Jason de Sexta-Feira 13 não é o Mal, mas o anjo que pune os pecadores), os terroristas punidos ao final em Duro de Matar por terem quebrado o harmonioso mundo de um Shopping Center.

O filme gnóstico simbolicamente retrata essa cosmogonia corrompida e em Queda. Protagonistas se descobrem jogados dentro de uma trama que não sabem quando começou, o porquê da sua existência e o que fazem ali. O todo é falso é a única verdade semente pode ser encontrada dentro de si. Por isso, as narrativas gnósticas exigem personagens paranóicos, exasperados, à beira da psicose, esquizofrenia e loucura. É a revolta da verdade presente no indivíduo contra uma totalidade falsa desde o início:

“No início era a crise’ – assim seria a primeira frase de uma bíblia gnóstica, se eles conseguissem a proeza de se contentar com uma única Escritura. E já que no início foi a Crise, e não o Verbo, o mundo corpóreo é o produto terminal desse épico de declínio. O drama, num só ato, de Criação e Queda, requer protagonistas à altura: exorbitantes, impulsivos, expressivos, barulhentos. (…) intensidade no limite da histeria, estardalhaço, promiscuidade de impulsos, vontades e afetos feéricos.” (FIORILLO, Marília. O Deus Exilado – breve história de uma heresia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 119.)

A distinção entre o filme gnóstico e o filme “comercial” vai além das diferenças estéticas ou temáticas: reside nas diferentes concepções do Mal. No filme “de monopólio” o Mal está presente do indivíduo que “peca” (quebra da ordem pela sua ignorância, maldade, vício, corrupção, egoísmo etc.) devendo ser punido para redimir a ordem e mostrar ao espectador o quanto custa desestabilizar a Ordem.

Ao contrário, no filme gnóstico o Mal deixa o campo moral para alcançar um estatuto ontológico: o protagonista prisioneiro de um drama em um só ato, vítima de mais um desdobramento de um equívoco de dimensões cósmicas.

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