Cinegnose

por Wilson Ferreira

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02 de janeiro de 2012, 18h42

O Diabo tem um plano em "Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo"

Ter uma segunda chance para voltar no tempo e redimir-se das decisões erradas na vida. Uma velha estória sempre contada pelos filmes hollywoodianos sob um viés moralista. Mas no filme argentino Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo” (2011) o tema vai mais além ao acrescentar o elemento do Fantástico: um homem medíocre e fracassado faz um pacto faustiano com o demônio na tentativa de, através do conhecimento do futuro, manipular o Tempo, o Destino e enganar o próprio demônio. Através de uma narrativa irônica e de humor cáustico, cria-se um clima ambíguo onde é impossível julgar o anti-herói. Indicado pelo nosso leitor Fabio Hofnik, o blog conferiu o filme.

Certa vez ouvi de alguém: “Passamos metade da vida tentando corrigir os erros que cometemos na outra metade.” É possível termos uma segunda chance depois de tomarmos consciência das decisões erradas do passado? E se tivermos essa chance, teremos a sabedoria e o livre-arbítrio para não cair nos mesmos erros?

Uma estória contada seguidas vezes pelo mainstreamhollywoodiano, sempre pelo otimista viés moralista e religioso que nunca coloca em questão um aspecto: o homem realmente quer mudar? Ou será que a mediocridade e o obscurantismo a qual a vida nos reserva pode impedir essa mudança?

A dupla de diretores argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat vai mais além ao tratar um tema tão recorrente acrescentando o elemento do Fantástico: a presença do Mal através da figura de uma espécie de demônio e a vitimização humana diante de uma realidade que o condena à mediocridade. De um lado um antigo mercador (Eusebio Poncela) que, no século III no Marrocos, é atingido duas vezes seguida por um raio tornando-se um ser imortal que vaga pelo mundo propondo tratos e fazendo trapaças temporais. Do outro, Ernesto (Emilio Disi), um sessentão que passa os dias queixando-se das oportunidades que teve e fracassou, casado com uma mulher que a todo momento joga na cara o seu fracasso.


Desencantado, vê os dias monótonos e arrastados passarem em uma provinciana cidade no interior da Argentina (Olavarría) até que encontra mercador/demônio em um bar. Enquanto a esposa de Ernesto vai ao banheiro, o mercador questiona se ele é feliz e faz um estranho acordo: um milhão de dólares em troca de Ernesto retornar no tempo e reviver dez anos da sua vida. Enquanto isso teriam se passado apenas cinco minutos no tempo presente, tempo necessário para Ernesto sair e comprar um cigarro, álibi usado para se ausentar enquanto sua esposa o aguarda.

Em uma narrativa hollywoodiana seria a oportunidade do protagonista se redimir, mas Cohn e Duprat mostrarão um anti-herói que tentará de tudo para tirar vantagem, mentir e fugir para ganhar dinheiro fácil.
Tendo conhecimento do futuro, Ernesto tentará ganhar dinheiro em tentativas desajeitas como, por exemplo, implantar um reality show na emissora de TV de Olavarría quando ainda o gênero não era uma febre mundial. As tentativas mais hilárias são quando tenta alertar a mídia argentina dos atentados ao WTC em 11 de setembro de 2001. Ninguém o leva sério até que, depois dos atentados, a CIA bate à porta levando-o preso para os cárceres de Guantânamo onde é submetido a torturas: por que ele sabia dos atentados?

Sabendo do futuro sucesso da música “Imagine”, tem a infeliz ideia de lançá-la no mercado fonográfico argentino antes de John Lennon. Resultado: sofre um pesado processo por plágio do ex-beatle. Ernesto tenta fugir do acordo com o mercador se matando, mas, como sempre, nada dá certo. Irritado, o mercador decide que, dessa vez, ele escolherá para qual período Ernesto voltará no tempo, submetendo-o, a partir daí, a uma situação de mal-estar que justificará todas as oportunidades perdidas no futuro.

Baseado no conto de Alberto Laiseca, o próprio autor narra em off e comenta para a câmera de forma irônica e, muitas vezes, brutal, as desventuras do protagonista.

A crít
ica especializada descreve o filme como um “sombrio retrato dos argentinos”.
Mas o olhar de Cohn e Duprat é muito mais atemporal: tangencia temas metafísicos como a irreversibilidade do tempo versus livre-arbítrio e a descrição da condição humana a partir de dois mitos: o de Sísifo e o de Fausto. O que faz o filme adquirir um humor ácido e cínico, desesperançado e niilista.

Do Mito de Sísifo a Fausto

Assim como no mito grego de Sísifo (onde o mestre da malícia e dos truques, o maior ofensor dos deuses, é condenado ao absurdo trabalho de por toda eternidade empurrar uma pedra até o topo de uma montanha para, então, rolar abaixo e recomeçar do princípio), Ernesto tenta enganar o diabo/mercador para ganhar dinheiro fácil, mas acaba condenado a repetir os mesmos erros e fracassos da sua vida.

Da mesma forma que Sísifo torna-se o herói do absurdo como uma forma dos deuses mostrarem para os homens que eles não têm liberdade, o teste proposto pelo mercador/demônio é uma forma de fazer Ernesto lembrar que ele jamais será livre: ele se confronta com a CIA, advogados, Indústria Fonográfica, Mídia e a irreversibilidade do Tempo. O protagonista é obrigado a se curvar diante dos grandes Demiurgos que governam a existência, metafísicos ou terrestres, que o reduzem à mediocridade: a má consciência da vitimização ou de pena de si mesmo que o reduz a uma vida cinzenta.

O filme Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo” é magistral ao apresentar uma narrativa ambígua onde o humor cáustico não deixa a estória cair no moralismo punitivo (no final Ernesto estaria pagando pela sua mesquinheza e imoralidade) e nem no chamado “humano, demasiado humano” e toda a lamúria de fundo religioso de que a natureza humana é baixa e pérfida.

Ao contextualizar o drama de Ernesto, inclusive, com o cenário político argentino da ditadura militar dos anos 70, abre a interpretação para encontrarmos o Mal não no anti-herói ou na “natureza humana”, mas nos contextos medíocres nos quais o homem está preso e tenta libertar-se (como, por exemplo, na cidade de Olavarría onde “nada acontece”).

Esse arquétipo da condição humana em querer libertar-se da ignorância é o mito de Fausto. Considerado um símbolo cultural da modernidade (personagem recorrente na literatura desde o século XVI), Dr. Fausto faz um pacto com Mefistófeles que em troca da sua alma conquistará conhecimentos técnicos e científicos que superarão a sua época. Mas tudo o que ele encontra é o Mal: a luz do conhecimento volta-se contra Dr. Fausto onde nem o amor o salvará.

Da mesma forma, ao fazer o pacto com o demônio/mercador marroquino, Ernesto acredita que o conhecimento do futuro o libertará e que poderá manipular ao seu bel prazer o Destino e o Tempo.  Porém, o Mal é o princípio estruturante da realidade. Numa reversibilidade irônica, tudo se volta contra ele.

Uma experiência narrativa

O filme tem uma brilhante sacada narrativa: o filme é oralmente e visualmente narrado pelo próprio autor do conto (Alberto Laiseca) que deu origem ao roteiro de Cohn e Duprat. Sempre pontuando a narrativa, a estória é seguidamente cortada por enquadramentos de Laiseca, tendo ao fundo uma enorme estante repleta de livros, onde ele faz ácidos comentários sobre o pobre coitado Ernesto.

Em meio à narrativa ficcional, temos um subtexto documental com observações do próprio autor, criando um nível “meta” no filme. Mais do que um recurso estilístico, esse artifício obriga o espectador a se distanciar da narrativa, evitando-se, dessa forma, uma identificação piegas ou passional com as desventuras do protagonista. Cohn e Duprat parecem querer que o espectador tenha uma avaliação objetiva, fria e distanciada. É o efeito psicológico do recurso da ironia metalinguística na narrativa cinematográfica. Afinal, o filme narra uma estória pelo ponto de vista de quem: do onipresente e onisciente autor do conto (só ele sabe o final) ou do próprio Ernesto, com a sua visão parcial e hesitante de alguém que não sabe como tudo terminará?

É esse embaralhamento narrativo que evita que Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo”caia no moralismo hol
lywoodiano que sempre encontramos em filmes sobre temas como viajem no tempo, segunda chance e redenção.

Ficha Técnica
  • Título: Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo
  • Diretor: Mariano Cohn e Gastón Duprat
  • Roteiro: Mariano Cohn e Gastón Duprat baseado em conto original de Alberto Laiseca
  • Elenco: Emilio Disi, Eusebio Poncela, Marina Horowitz, Dario Lopilato, Emma Rivera
  • Produção: Aleph Media, Costa Films
  • Distribuição: Primer Plano Film Group
  • Ano: 2011
  • País: Argentina



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