Cinegnose

por Wilson Ferreira

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11 de fevereiro de 2011, 14h06

O Gótico Gnóstico “La Casa Muda”: é possível o horror em tempo real?

Exibido no Festival de Cannes e no Festival do Rio 2010, “La Casa Muda” (Uruguai, 2010) de Gustavo Hernandéz é um suspense/terror que promete “o medo em tempo real”. Filmado num único plano- sequência, Hernandez surpreende o espectador ao inserir no filme (supostamente sem os truques dos planos e montagens) o tempo psicológico e a confusão entre percepção e projeção psíquica da protagonista. Ou seja, o filme insere elementos góticos e gnósticos em uma narrativa supostamente objetiva, onde a verdade não está nas imagens em movimento, mas nas fotografias.

Webcams, “vídeo-cassetadas”, reality shows e a popularização das câmeras digitais sem dúvida alteraram nossa sensibilidade em relação àquilo que definimos como “realidade”. As transformações ocorridas no gênero Terror no cinema, assim como a experiência do horror, certamente refletem essa evolução das mediações tecnológicas. Desde filmes como “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999) há uma busca da experiência do horror em tempo real: o registro visual de uma câmera hesitante, em plano-sequência, tudo aparentemente sem cortes, a imagem granulada e borrada. O horror diante de uma realidade documental.

Esse movimento já era perceptível no cinema dos anos 70 como os primeiro horror explícito em “O Exorcista” (vômitos verdes e violência explícita), as lendas dos “snuffs movies” (Filmes violentos de caráter mórbido e sexual em que depois de violada e humilhada a vítima era assassinada) e o sucesso da série de vídeos VHS “As Faces da Morte” nos anos 80 (vídeos documentais de mortes bizarras).

O filme uruguaio “La Casa Muda” do diretor Gustavo Hernandez aparentemente se inscreve nessa tendência ao ser promovido como “o medo em tempo real” onde vemos 74 minutos de plano-sequência narrando a tentativa desesperada da protagonista Laura (Florencia Colucci) em escapar de uma casa que oculta um sinistro segredo. Além disso, o filme também é oferecido como baseado em fatos reais que teriam ocorrido em 1944 em um vilarejo no Uruguai quando foram encontrados dois corpos mutilados em uma casa de campo.

O filme foi rodado em quatro dias com seis mil dólares e, no ano passado, foi selecionado para participar da Quinzena de Produtores do Festival de Cannes e exibido no Festival do Rio 2010.

Mas Hernandez prega uma peça no espectador ao inserir no “tempo real” do plano sem cortes o tempo psicológico, retornando (com uma câmera digital Cannon 5D) aos princípios do horror gótico e gnóstico.

O plot é simples. Nestor (Abel Tripaldi) decide vender sua casa de campo e para isso pede ao seu caseiro Wilson (Gustavo Alonso) que a ponha em condições para ser vendida. Wilson solicita ajuda a sua filha Laura. Eles passarão a noite na casa para, no dia seguinte, começar a limpeza. Quando se acomodam para dormir, começam ouvir estranhas batidas e sons como de objetos sendo arrastados no andar superior. Wilson sobe as escadas para não mais voltar vivo. E daí começa o horror de Laura em tentar simultaneamente escapar da casa e entender o que está ocorrendo.

O plano-sequência e uma iluminação precária (duas lanternas e um foquinho de luz em cada quarto) dão um caráter realista à narrativa. Engano! O espectador é levado a acreditar estar assistindo a uma narrativa linear (e por isso, vai ficar revoltado com a inverossimilhança do desfecho), mas o que Hernadez nos oferece é uma supreendente fusão de narrativas simultâneas ao um único plano-sequência. A câmera acompanha, gira em torno dos personagens, vai para frente e para trás, tudo para construir três narrativas: o espectador onisciente, o olhar das vítimas e o ponto de vista subjetivo de Laura.

Com isso Hernandez nos oferece um surpreendente retorno aos fundamentos do horror gótico e gnóstico: a fusão entre percepção e projeção, natural e sobrenatural.

O Gótico Gnóstico

Falar em horror em tempo real é contraditório. O tempo real transforma o horror em mero susto. Em muitos momentos assistindo “La Casa Muda” acreditamos estarmos diante de um “Sexta Feira 13” dos pampas: um vulto passa como uma faca na mão, sombras passam rápidas atrás de um plástico manchado de sangue… Acostumados como estamos a essa estética hollywoodiana que transforma o horror em susto instintivo, achamos que o filme é uma adaptação latino-americana disso tudo.

Ao assistirmos ao filme, aos poucos vamos percebendo que há algo estranho no plano-sequência de Hernandez: há uma constante troca de pontos de vista (espectador, vítimas e do terror de Laura). Os 74 minutos de plano-sequência podem ser “reais”, porém as imagens são incômodas: o que estamos vendo, afinal? Percepção do real ou projeções de um pesadelo de Laura? Uma narrativa linear sobre um serial-killer ou os delírios da personalidade esquizóide?

Esses são os fundamentos do horror gótico gnóstico: o obscurecimento das fronteiras entre a descrição realista de mundos familiares e experimentos formais ou descrever terras de estranhos sonhos; a mistura ambígua entre percepção e projeção; o conflito entre razão e inconsciência.

Para Lovercraft a origem do horror não está naquilo que vemos, mas, ao contrário, na atração pelo que não vemos. Estaria no horror evocado pelo “medo cósmico”, ou seja, na descoberta que as leis que governam o mundo real podem, de uma hora para outra, tornarem-se incertas:

“as pessoas sensíveis, que tenham imaginação e capacidade de se afastar do dia-a-dia, podem chegar a uma consciência disso – consciência essa que equivale à apreensão de uma ‘suspensão ou derrota maligna e particular dessas leis fixas da natureza que são a nossa salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios do espaço desconhecido’” (CARROLL, Noël. A Filosofia do Horror. Campinas: Papirus, 1999, p. 235-6 citando Lovercraft. Supernatural Horror in Literature).

O horror gótico gnóstico surge no séculos XVIII e XIX numa época da afirmação das luzes da ciência e da racionalidade. Escritores como Shelley, Coleridge, Poe apresentaram o horror e ao mesmo tempo o fascínio por uma dimensão que escapa à percepção racional, as fronteiras cinzas entre realidade e delírio, ilusão e realidade, espírito e corpo. Horror e ao mesmo tempo fascínio pelo pressentimento da existência de algo para além da percepção organizada do dia-a-a-dia: os demônios interiores e exteriores.

O gótico partilha das mesmas características gerais do Romantismo: uma busca religiosa em expressar o irredutível, o incognoscível, o que está além da razão e da linguagem. Somente que no gótico isso se manifesta no horror e no fantástico: o real é uma ilusão por ser constructu de uma limitação da consciência. O horror se encontra no vislumbre da falência desse constructu diante da irrupção do “sobrenatural”. Daí a característica gnóstica do gótico.

Essa literatura ofereceu as bases para a diluição das certezas individuais por meio da psicanálise freudiana e a suas expressões cinematográficas: o expressionismo alemão, o film noir norte-americano e o terror.
No filme “La Casa Muda” Hernandez desafia esta nova racionalidade atual (a da produção das imagens “em tempo real”). Diante das certezas da racionalidade técnica das produções de imagens digitais Hernandez insere a instabilidade, a incerteza, a ambiguidade no interior de uma narrativa em plano-sequência (que sempre promete emoções sem os truques de planos e montagens).

Esse filme tem as mesmas qualidades góticas gnósticas de “O Iluminado”(Shinning, 1977) de Kubrick: será que o Hotel Overlock de “O Iluminado” era literalmente infectado por fantasmas ou tudo que vimos não passava de projeções psíquicas? O plano sequência de “La Casa Muda” é o relato minuto a minuto do confronto de Laura com algum terror sobrenatural ou insanas alucinações de uma esquizofrênica?
Muitos críticos acharam “inconsistências” e “inverossimilhanças” no roteiro de “La Casa Muda”. 

Acostumados que estão com o realismo hollywoodiano, não compreenderam a extrema ironia do filme de Hernandez: a única coisa objetiva são as fotos que, no final, vão revelar o obscuro segredo que a casa guarda. Fixados no conceito de “tempo real”, não percebem esse paradoxo apresentado por Hernandez: resgatar a essência do horror gótico gnóstico em uma narrativa aparentemente objetiva do plano-sequência.

O filme “La Casa Muda” tem estreia prevista no Brasil para o segundo semestre desse ano.



Ficha Técnica

  • Título: La Casa Muda
  • Diretor: Gustavo Hernandéz
  • Roteiro: Oscar Estévez
  • Elenco: Gustavo Alonso, Florencia Colocci, Abel Tripaldi, Maria Salazar
  • Produção: Tokio Films
  • Distribuição: PlayArte Filmes
  • País: Uruguai
  • Ano: 2010


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