Cinegnose

por Wilson Ferreira

15 de junho de 2013, 10h21

O oportuno “Moonrise Kingdom” em tempos de jovens protestando nas ruas

Partindo do princípio de que o mix emocional de exaltação e melancolia da adolescência representa o último grito de um espírito que nega a adaptação ao futuro, “Moonrise Kingdom” (2012) constrói uma elaborada fábula sobre a inadaptabilidade do jovem a um mundo onde os adultos dizem “somos tudo o que vocês têm”. Enquanto filmes como a da franquia “Crepúsculo” ou “Harry Potter” representam esses aspectos depressivos da adolescência de forma solipsista e platônica (a felicidade só poderia ser alcançada nos sonhos ou em mundos mágicos e sobrenaturais), “Moonrise Kingdom” constrói um elaborado simbolismo permeado de misticismo e gnosticismo que não só desconstrói as formas de “cura” da revolta adolescente como aponta para a felicidade como uma chama interior que deve ser mantida acesa no mundo adulto que o aguarda. Um filme oportuno em tempos em que jovens estão tomando as ruas em protestos.

O diretor Wes Anderson é conhecido por criar um universo bem particular: em todos os seus filmes anteriores como “Os Excêntricos Tenembauns” (2001) ou “O Fantástico Sr. Raposo (2009) ele é capaz de criar um microcosmo onde os eventos e ações começam a ocorrer dentro de suas própria regras e tudo começa a ser impulsionado por emoções e desejos tão convincentes que se tornam mágicos.

Dessa vez o novo mundo criado por Anderson é uma ilha em algum lugar na costa da Nova Inglaterra nos EUA, onde as casas, fazendas, faróis, barcos parecem ser reproduções ampliadas de pequenos modelos ou miniaturas. A composição dos enquandramentos é cheia de simetrias, o movimento da câmera calculadíssimo e os personagens propositalmente estereotipados e contidos. Por isso, Anderson é muito criticado pelo estilo dito “maneirista”. Aqui, pelo menos, esse estilo passa a ter todo sentido: em uma ilha cujo artificialismo dos personagens, paisagens urbanas e naturais lembram muito a ilha de Seahaven do filme “Show de Truman” (The Truman Show, 1998) criam uma sufocante atmosfera de ordem, disciplina e hierarquia, um casal de adolescentes se rebela e planeja cuidadosamente e executa uma fuga: ela para fugir da crise conjugal dos seus pais e ele da disciplina e mediocridade de um campo de escotismo.


Tudo se passa em 1965, porém apenas alguns signos remetem à época como o modelo do automóvel do policial Bruce Willys ou a vitrola portátil de 45rpm à pilha que os adolescentes levam na fuga. O microcosmo da ilha é de um artificialismo atemporal.

Essa atemporalidade de “Moonrise Kingdom” é que torna o filme uma fábula sobre a condição de melancolia e inadaptabilidade do adolescente, talvez o último momento das nossas vidas onde o espírito solta seu último grito de agonia antes da inserção definitiva no mundo adulto. Depois, já na vida adulta, olharemos para trás com melancólica nostalgia e o mal estar espiritual será tratado ou pela religião ou pela variedade de técnicas psicológicas e farmacológicas disponíveis.

O Filme

Nessa ilha tão atemporal que poderia ser a de Próspero da peça teatral “A Tempestade” de Shakespeare há um farol onde vive a heroína Suzy Bishop (Kara Hayward) com seus pais em crise (Bill Murray e Frances McDormand) e um acampamento de escoteiros onde o outro herói Sam Shakusky (Jared Gilman) entra em choque com as infantis regras do escoteiro-chefe (Edward Norton) e com a mediocridade dos outros garotos do grupo. Suzy e Sam têm 12 anos e, desde que começaram a trocar cartas há um ano, planejam cuidadosamente uma fuga.

Suzy e Sam partilham a experiência de uma vida: eles sabem que aquele será o último verão e que no próximo ano estarão velhos demais para tamanha irresponsabilidade.

“Somos tudo o que ele têm”
O curioso no filme é que percebemos de início a absoluta impossibilidade do sucesso da empreitada: o objetivo de Sam é reunir todos os seus conhecimentos de escotismo e, através de uma antiga trilha indígena, encontrar um esconderijo onde criará para a sua vaidosa namorada amante das artes um paraíso só seu, o “Moonrise Kingdom”. Mas a ilha não é tão grande assim (Wes Anderson pontua sempre a narrativa com um mapa do território, para que o espectador acompanhe os deslocamentos dos personagens), isto é, dada as condições geográficas da ilha não existe como se esconderem. Ainda mais que estão nos seus encalços o policial da ilha e o escoteiro-chefe com o seu grupo de disciplinados escoteiros.

Por isso, toda a peregrinação de Sam e Suzy parece ter um significado muito mais simbólico do que prático. Na medida em que a fuga avança, o diretor Wes Anderson vai tornando isso mais claro com  a profusão de sequências simbólicas como a cerimônia de casamento de Sam e Suzy (“não tem validade civil mas carrega um peso moral dentro de si mesmos”), a inundação, o raio que cai na Igreja etc.

Exaltação e melancolia

Sam e Suzy parecem representar a condição atemporal da tanto da adolescência, onde exaltação e melancolia, euforia e depressão, criam um turbilhão de emoções e sensações (principalmente a descoberta da sexualidade e do erotismo em cenas que Anderson dirige de forma sensível). O resultado é a condição de “estrangeiro”, de inadequação, de sempre sentir que é um intruso diante do que o adolescente tentará mitigar o problema de duas formas: ou tentando ser um “garoto popular” consumista e admirado pelos amigos ou através da melancolia, depressão ou mesmo raiva.

É marcante como em cada época a cultura pop representou e explorou essa espécie de condição bipolar adolescente: nos anos 70 tivemos o “rock horror” e “glam rock” dos anos 70 e todo o universo trash e underground urbano sintetizado no filme “Rock Horror Picture Show” – 1975. Nos anos 80 temos o “Dark” sintetizado em ícones como Robert Smith do The Cure e Peter Murphy da banda Bauhaus. Músicas cujas letras se inspiram no universo gótico da literatura romântica dos séculos XVIII e XIX. Nos anos 90 o “Dark” é reciclado pelo “Gótico” e a literatura romântica é substituída pelos contos de terror. Jovens cuja aspiração é a de se tornar seres da noite, com longas capas pretas e lentas de contato especiais que alteram a cor dos olhos. Nesse início do século XXI temos a franquia de filmes “Crepúsculo” e o imaginário musical “Emo” destilando essas tendências depressivas em jovens e adolescentes.

“Moonrise Kingdom” vai mais fundo nessa condição atemporal do adolescente, indo além dessas representações depressivas e platônicas da cultura pop sobre a melancolia do jovem: Wes Anderson busca a gnose dos adolescentes, isto é, toda a jornada inútil da fuga na verdade acabou se tornando uma peregrinação espiritual onde descobrem que o paraíso idílico que buscam na verdade está dentro deles, em uma fagulha que devem manter acesa mesmo após se estabelecerem no mundo adulto.

Em uma atmosfera de comédia non sense, Wes Anderson vai desconstruindo as duas formas de terapias para adolescentes revoltados: a Igreja (atingida por um raio e a cerimônia de casamento tendo ao fundo uma cruz improvisada feita de papel celofane) e a disciplina militar do escotismo – o acampamento é arrastado por uma enxurrada e a autoridade do chefe-escoteiro é constantemente ridicularizada.

Religião e disciplina hierárquica, as duas formas são ao longo da narrativa colocadas em xeque para que Sam e Suzy, embora vistos como “problemáticos” e “crianças difíceis” por todos ao redor, possam criar um mundo interior todo deles, se inserir nos papéis sociais da ilha (ele como futuro policial e ela como uma amante da arte que renovará a família) para, quem sabe, no futuro construir novos e mais progressistas papéis em uma outra sociedade. Os sorrisos finais desafiadores de ambos parece apontar para isso.

A fantasia do “Moonrise Kingdom” é, na verdade, a nostalgia do paraíso idílico da nossa infância (alegria, espontaneidade, entrega cega, confiança etc.) que sabemos que vamos perder quando crescermos. O que torna o filme de Wes Anderson virtuoso é que isso não é representado de uma forma melancólica e platônica, como fazem as representações pop adolescentes como a franquia “Crepúsculo” ou “Harry Potter”, sempre colocando como a única solução para o adolescente o mundo solipsista dos sonhos, fantasia e magia.

“Moonrise Kingdom” é desafiante como um bom filme gnóstico: incita o adolescente a manter a chama acesa dentro de si, ao mostrar que esse paraíso existe e já está dentro de nós, e não em regiões mágicas, reinos encantados ou mundos sobrenaturais. E que essa chama pode provocar um grande incêndio de renovação no mundo real.

Sam e Suzy voltam para suas vidas, cada um com um sorriso enigmático no rosto como se pensassem: “Ah! Então é isso!”.

Assistindo ao filme “Moonrise Kingdom” parece que somos instigados a deixar de lado a melancolia passiva dos vampiros de “Crepúsculo” ou de Harry Potter. Ficamos fascinados com o amor militante de Sam e Suzy e tudo que há de verdade na adolescência que os adultos teimam em tentar “curar” com religião e disciplina.

Ficha Técnica

  • Título: Moonrise Kingdom
  • Diretor: Wes Anderson
  • Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola
  • Elenco: Bruce Willys, Bill Murray, Jared Gilman, Kara Hayward, Edward Norton, Frances McDormand
  • Produção: Indian Paintbrush
  • Distribuição: Focus Features
  • Ano: 2012
  • País: EUA

 

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