quarta-feira, 23 set 2020
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Os Ciclistas Atropelados de Porto Alegre e a Bomba Tecnológica

Precisamos encarar o atropelamento dos ciclistas do grupo Massa Crítica em Porto Alegre como um sintoma dessa verdadeira bomba tecnológica que, ao criar uma relação inorgânica e virtual com o espaço, o ambiente e o Outro, propicia a indiferença, amoralidade e violência.

Indignação é a mínima reação civilizada que podemos ter diante das imagens do atropelamento proposital de 20 ciclistas durante a passeata do grupo Massa Crítica na noite da última sexta em Porto Alegre. Para pessoas como eu que utilizam diariamente a bicicleta como meio de transporte, a notícia da prisão do responsável (que, segundo consta, detém uma ficha de antecedentes de violência e contravenções no trânsito) não é motivo de alívio ou de sensação de justiça feita.
As imagens bizarras de ciclistas sendo jogados para o alto com suas bicicletas retorcidas contém algo de incômodo que não está apenas no conteúdo das imagens, mas no fato delas se constituírem em sinais de uma espécie de sismógrafo do movimento mais profundo, de uma história subterrânea que vai além da eficácia de leis, regras éticas ou legislações de trânsito que protejam ciclistas no caos motorizado.

Este episódio captado em imagens que repercutiram na mídia internacional é um desses sintomas mais visíveis da armação de uma verdadeira bomba tecnológica: a lenta constituição de um novo paradigma que rege as relações do homem com a tecnologia (tecnologias “tecnognósticas”) que virtualiza as relações com as ferramentas e cria uma relação inorgânica com o meio ambiente.

O pesquisador português Hermínio Martins (MARTINS, Hermínio. Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria Social. Lisboa: Edições Século XXI, 1996) acredita que o século XX foi um ponto de viragem na história da tecnologia. Até então, tínhamos uma visão antropocêntrica da tecnologia, isto é, como um conjunto de instrumentos que seriam projeções das funções internas do corpo. Instrumentos que seriam verdadeiras extensões que aprimoravam potencialidades do corpo humano (telescópio para os olhos, o automóvel para as pernas etc.). Tal visão é solapada pela tecnociência que vê não mais os instrumentos como extensões, mas, agora, próteses que superam o orgânico (biotecnologia, clonagem, nanotecnologia, realidade virtual ou a própria tecnologia computacional).

A essa extrapolação dos limites do orgânico Victor Ferkiss (FERKISS, Victor. Technology and Culture: gnosticism, naturalism and incarnational integration, Cross-currents, 1980) vai caracterizar como “gnosticismo tecnológico”.

Como objeto símbolo do século XX, o automóvel é certamente o produto tecnológico onde mais explicitamente podemos localizar essa transformação de paradigma. Nas suas origens românticas o automóvel guardava ainda uma relação orgânica com a geografia, com o percurso. A velocidade menor e as amplas janelas em torno do motorista criavam uma relação mais orgânica com o em torno e a paisagem. Esse imaginário retro em torno do automóvel  foi imortalizado pelo grupo alemão de música eletrônica Kraftwerk na composição “Autobahn” (1974):
“Estamos dirigindo na auto-estrada
Em nossa frente há um amplo vale
O sol está brilhando com raios reluzentes
A pista é uma trilha cinza
Faixas brancas, lateral verde
Ligamos o rádio
Do alto-falante soa:
Estamos dirigindo na auto-estrada”
Nas suas origens românticas o automóvel
ainda guardava uma relação orgânica com a
geografia e o percurso
Tudo isso vai mudar, paradoxalmente, no momento em que o carro se torna o símbolo da liberdade e contestação jovens. Em filmes como “Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause, 1955) o dirigir velozmente em perigosos “rachas” é a expressão de uma liberdade que, no íntimo, guarda a ansiedade Pós-Guerra: “não quero ficar onde estou nem ir para parte alguma. Quero ficar em suspensão!” A relação do automóvel com o meio ambiente (geografia, percurso, paisagem) desaparece em um estado de suprema ansiedade na cultura da velocidade. O ator James Dean é o herói e mártir dessa geração (morre num acidente automobilístico). É a preparação de terreno para os dias atuais: o carro como uma cápsula de sobrevivência, onde o motorista se isola do em torno para viver num estado de suspensão, cercado de gadgets tecnológicos (aparelhos de som, DVD, GPS etc.).

Dessa maneira, o simbolismo do carro como liberdade na era da juventude transviada já trazia dentro de si a ansiedade daquele que não vê mais o automóvel como meio de transporte, mas como um fim em si mesmo: ficar dentro dele como um estado de suspensão, desconectado e sem relação orgânica com o espaço e a geografia.

Automóvel: cápsulas de sobrevivência

Da simbologia da liberdade, hoje os automóveis transformam-se em verdadeiras cápsulas de sobrevivência. Isolados dentro dos veículos, veem o mundo ao seu redor se virtualizar em dados e informações: a navegação em GPS (dando ilusão de racionalidade no caos motorizado), os serviços de trânsito das rádios, ar condicionado criando um ambiente artificial e, por último, o insulfilm que reforça a sensação de isolamento e falsa sensação de segurança.

Essa virtualização ou a relação inorgânica com o ambiente por meio da mediação do carro é um sintoma de um paradigma tecnológico mais amplo. Por exemplo, prédios corporativos que se tornam verdadeiros bunkers, arquitetonicamente sem nenhuma interação com o ambiente urbano ao redor. Dentro deles, pessoas em ambientes artificialmente climatizados, sem ventilação ou iluminação naturais (as janelas perecem vidros de aquários) como se estivessem no interior de uma bolha através do qual observam o mundo transformado em informações abstratas.

A virtualização das relações humanas por meio das redes é um sinalizador desse movimento: relações face-a-face substituídas por interfaces da tela. Embora fisicamente isolados no ambiente fechado de suas casas ou escritórios, cria-se um virtual sensação de participação comunitária. Enquanto o corpo reside inerte e contido num espaço fechado, a mente viaja pelo ciberespaço numa aparente sensação de liberdade.

O carro, os prédios corporativos e relações humanas por meio de interfaces são sismógrafos de um mesmo paradigma que vai trazer profundas consequências ética.

Michael Heim em seu “The Metaphisics of Virtual Reality”  (Oxford University Press, 1993) levanta uma brilhante consideração a respeito de conseqüências éticas dos “gnóstico-platônicos computadores de comunicação”. O corpo e as relações face-a-face desaparecem nos processos de comunicação on line. Ao mesmo tempo, essa virtualidade comunicativa turva as âncoras com o mundo real (finitude, temporalidade e senso de fragilidade corporal). Para ela, essas âncoras representam uma autêntica base cinestésica de toda ética ou moral. Sem elas, o que temos é o crescimento da amoralidade, a partir do momento que nesta interface tecnológicas os limites entre o Eu e o Outro se esfumam para produzir, em seu lugar, indiferença.

Pragmatismo e Sedução por Gadgets Tecnológicos

Pragmatismo e sedução pelos gadgets
tecnológicos: os dois pressupostos da bomba
chamada “progresso”
Essas observações de Heim em relação ao ciberespaço podem ser extrapoladas para toda relação do homem com os instrumentos tecnológicos atuais. Essa natureza virtual das tecnociências contemporâneas diluem as relações do corpo e do Eu com o espaço, com o Outro e o meio ambiente. Meios de transportes, arquiteturas e redes computacionais inorgânicas produzem duas consequências diretas: o pragmatismo tecnológico e a sedução por gadgets tecnológicos.

O que é útil e conveniente (lei do menor esforço) é moralmente bom. Essa é a essência do pragmatismo tecnológico que produz a ideologia da inevitabilidade do progresso (ruas abarrotadas de carros, formas de relacionamento sem os usuários deixarem o isolamento de seus corpos, prédios/shoppings/bunkers blindados e climatizados etc.). Por exemplo, o carro seria moralmente bom porque é útil e poupa esforços. Torna-se natural a sua multiplicação e a irracionalidade do caos motorizado.

Ao mesmo tempo os gadgets tecnológicos seduzem por dar às pessoas a sensação de transcendência e poder sobre o orgânico e o físico: carros “inteligentes” e prédios “inteligentes” dão a sensação de poder e controle sobre um pequeno espaço privado, enquanto a esfera pública fica em ruínas, escombros, enchentes e congestionamentos. Essa sensação de poder e transcendência tem uma elação direta com a indiferença, frieza e agressividade em relação ao Outro.

Software de navegação por GPS para motoristas presos em congestionamentos e enchentes, DVDs em autos para fazerem os motoristas esquecerem o tempo perdido e até carros que fazem balizas automaticamente dão essa sensação de poder inorgânica, criando um indivíduo que não interage mais com a paisagem, com o espaço e com as pessoas ao redor.

Portanto, precisamos encarar o atropelamento dos ciclistas em Porto Alegre como um sintoma dessa verdadeira bomba tecnológica que, ao criar uma relação inorgânica e virtual com o espaço, o ambiente e o Outro, propicia a indiferença, amoralidade e violência.

Diante desse paradigma tecnocientífico generalizado o que fazer? Leis, ciclovias, campanhas de conscientização e busca por formas de convivência pacífica entre ciclistas e motoristas são boas por um curto período de tempo.

O que incomoda na imagem dos atropelamentos dos ciclistas do grupo Massa Crítica em Porto Alegre é que, se o episódio for o sintoma de uma tendência cada vez mais radical impulsionada pelo pragmatismo da técnica e pela sedução por gadgets tecnológicos, significa que temos um problema muito maior do que um motorista tresloucado com histórico de violência no trânsito. Temos que combater esses dois pressupostos que impulsionam as tecnociências. Enquanto eles não forem desmontados a bomba do chamado “progresso” seguirá em contagem regressiva. 

Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.