Cinegnose

por Wilson Ferreira

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30 de dezembro de 2011, 18h27

Os Fantasmas do Tempo no Filme “Christmas Carol”

O livro “Christmas Carol” (Um Cântico de Natal, 1843) de Charles Dickens é atemporal por apresentar dois grandes arquétipos que marcarão a vida moderna: Fantasmas e o Tempo. Ao fazerem uma adaptação usando animação digital (através da tecnologia de “captura de performance”), a Walt Disney Pictures e o diretor Robert Zemeckis (“De Volta para o Futuro” e “Forrest Gump”) produzem um efeito paradoxal: esvaziam o olhar crítico de Dickens sobre o início da modernidade ao reduzir a narrativa à estética videogame por meio de uma tecnologia moderna. O Ocultismo e a problematização do Tempo, marcas da literatura do século XIX como formas de questionar a modernidade, são temas oportunos para uma reflexão nesses momentos que antecedem a celebração de Ano Novo onde todos querem reter um momento do tempo, que então será passado.

O livro clássico de Charles Dickens “Christmas Carol” já recebeu centenas de adaptações. É um dos livros mais lidos, lembrados e citados de todos os tempos. A narrativa conta a estória de Ebenezer Scrooge, velho ranzinza e sovina que passou a vida inteira juntando uma fortuna, desprezando qualquer contato com as pessoas. Ele odeia o Natal por achar que é uma época onde as pessoas gastam mais do que têm e ironiza como gente tão pobre pode ser feliz. Na noite de Natal recebe a visita de três fantasmas (que mostram para ele as visões do passado, do presente e do futuro) levando-o a uma transformação íntima e reavaliando o significado da vida.

Só para ficar no cinema (as adaptações do livro de Dickens abrangem teatro, televisão, ópera, história em quadrinhos etc.) existem adaptações desde 1901. Desde então praticamente toda década há alguma adaptação, referência ou revisitação da obra, passando pelos mais diversos gêneros.

De Walt Disney temos o personagem do Tio Patinhas (Uncle Scrooge) inspirado no protagonista avarento do livro de Dickens, um curta de 1983 “Mickey’s Christmas Carol” e o recente “Os Fantasmas de Scrooge” (Christmas Carol, 2009) dirigido por Robert Zemeckis (“De Volta para o Futuro”, “Forrest Gump” e “Contato”).

Essa produção repete a velha fórmula dos estúdios Disney: a capacidade de lidar com temas trágicos, pesados e adultos de uma forma divertida para crianças e jovens ao diluir simbolismos arquetípicos. No caso da adaptação de Zemeckis, a utilização da tecnologia chamada “captura de performance” onde a animação digital é feita a partir do escaneamento das expressões dos atores. O diretor já havia utilizado essa tecnologia em “A lenda de Bewulf” e “Expresso Polar”, mas em “Os Fantasmas de Scrooge” há um estranho efeito: se a maior qualidade do conto de Dickens é a sua atemporalidade, na produção Disney a tecnologia converte a narrativa, em muitos momentos, em um videogame com cenas de ação desnecessárias. Os grandes temas arquetípicos da obra de Dickens (que induzem à reflexão existencial e moral das ações humanas) são esvaziados pelo ritmo frenético e uma estética cujas opções que o protagonista sovina tem que tomar parecem alternativas de um game em computador.

A natureza atemporal do conto “Christmas Carol” vem de dois temas que marcam o imaginário do século XIX e o início a vida moderna: o espiritualismo e a questão do tempo ou, em outras palavras, fantasmas e o desejo de se apropriar do tempo.

O Tempo e alienação da vida moderna

A cultura urbana e industrial do século XIX e as novas tecnologias como o telégrafo, o eletromagnetismo, a iluminação urbana, as locomotivas criam uma inédita aceleração do cotidiano. A vida passa a ser dominado pela sensação do efêmero e da fragmentação. Em diversas manifestações estéticas e artísticas surge o desejo do congelamento do instante, o impulso de se apropriar do momento: a fotografia, a pintura impressionista (representar os efeitos da luz na nossa percepção dos objetos e paisagens) e, mais tarde, o cinema são formas de reação ao problema do “esvaziamento do presente”, o centro da alienação da vida moderna.

Na literatura a questão do tempo e da memória torna-se crucial: Marcel Proust e o verdadeiro tratado sobre “memórias involuntárias” originadas por sabores e flagrâncias na obra “Em Busca do Tempo Perdido”; Lewis Carroll e a questão de “quanto tempo dura o tempo” da Lebre em “Alice no País das Maravilhas”; “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde onde o protagonista vende a própria alma para manter sua beleza intacta à ação do tempo; “A Máquina do Tempo” de HG Wells onde a tecnologia já anseia manipular o devir temporal etc.

A experiência moderna com o tempo começa a ficar associada à “obsessão da expectativa”, como afirma o filósofo italiano Marramao, onde o presente é sempre deslocado para o futuro e tem seu núcleo patogênico em um “retardamento de sentido em relação ao sucesso”, isto é, o sentido do presente está sempre condenado a chegar depois. A apologia de Oscar Wilde em relação ao hedonismo e o culto ao prazer do momento é uma resposta a essa “hipertrofia de expectativas”: cada momento é vivido como fosse o próximo é a percepção do presente é sempre fugidia e insondável (Veja MARRAMAO, Giacomo. Kairós – Apologia del tiempo oportuno. Ed. Gedisa, 2002).

O pão-durismo do Sr. Scrooge e o seu medo de ficar pobre transforma-se numa obsessão pelo futuro: renuncia ao presente (contatos sociais, amizades, prazer etc.) em nome do “sucesso”, na verdade um outro nome para designar a transferência forçada da experiência do momento para o futuro. Na estória de Dickens, principalmente o fantasma do Futuro convencerá finalmente Scrooge da necessidade de vivenciar o presente e capturar a atmosfera do momento (no caso, as comemorações natalinas e do Ano Novo).

Da sovinice de Scrooge de um conto do século XIX aos ambientes digitais da atualidade, essa alienação temporal persiste: as redes online só acentuam a sensação de viver cada momento como fosse o próximo ao trazer a sensação de ubiquidade e onisciência. O local, o presente e o concreto são transferidos para o ciberespaço onde as vivências se resumem às linhas de tempo de murais como no Facebook onde, em ritmo veloz, mensagens e links se sucedem.

O tratamento dado a esse tema é a principal falha da adaptação de Zemeckis à obra de Dickens: a linguagem videogame esvazia a crítica que “Christmas Carol” faz a essa alienação da vida moderna. A rapidez e dinamismo do tratamento narrativo entram em choque com a crítica à percepção moderna do tempo.

Aliás, o tema da “hipertrofia das expectativas” como o núcleo da alienação da vida moderna é oportuno nessa época de comemorações de Ano Novo: o desejo de capturar o instante da virada (o calor, a atmosfera, a alegria) se perde nas promessas e compromissos que obsessivamente firmamos em relação ao próximo ano. Tal como Scrooge, nos fixamos no futuro e esquecemos de experimentar o presente com um agravante: na festa da virada ficamos atentos às telas de celulares, Ipods ou tablets atentos às linhas de tempo de murais de mídias sociais, esquecendo do tempo presencial em que estamos.

Fantasmas e o Horror Metafísico

O Espiritualismo e ocultismo é a outra marca do espírito de época do século XIX presente no conto de Dickens. O racionalismo e o conhecimento científico afirmaram a educação laica, o darwinismo e a industrialização, fazendo regredir as religiões tradicionais, pelo menos nos centros mais urbanizados e intelectualizados. O otimismo messiânico pela Liberdade, felicidade, Riqueza e Modernidade passou a ser a nova religião, como, por exemplo, o Positivismo de Augusto Comte.

A reação foi o crescimento do Ocultismo e Espiritualismo. Pesquisadores como Erik Davis (Techgnosis – myth, magic and mysticism in the age of information, New York: Serpent Tail, 2004) acreditam que o Espiritualismo foi a primeira religião da Modernidade. Os fenômenos mediúnicos, mesas girantes, escritas automáticas etc. estudados por Alan Kardec e pela Antroposofia de Madame Blavatsky e Leadbater no século XIX, surgem simultaneamente à descoberta do eletromagnetismo e na transformação da eletricidade em informação com o telégrafo. Os próprios fenômenos paranormais começam a ser interpretados como fenômenos eletromagnéticos de comunicação espiritual.

Ao lado da questão do Tempo, o Horror, O Fantástico e o Gótico passam também a ser temas recorrentes na literatura desse século ao narrar a irrupção do Estranho e do Sobrenatural no cotidiano.

Charles Dickens magistralmente capta o espírito da época seminal e funde os dois temas em um conto de Natal. Porém, mais uma vez, “Os Fantasmas de Scrooge” de Zemeckis esvazia um arquétipo novecentista ao retirar do protagonista o “horror metafísico” diante das visitas dos fantasmas do Tempo. Por “horror metafísico” estamos nos referindo à irredutível ambiguidade de acontecimentos estranhos: a incapacidade do protagonista determinar se um acontecimento é natural ou sobrenatural, desafiando a racionalidade e as próprias certezas pessoais (será tudo ilusão, sonho ou realidade?).

Zemicks parece estar tão fascinado pela utilização da tecnologia e recursos da animação digital que esquece da jornada de Scrooge: a reforma íntima do protagonista não ocorre de forma gradual. O personagem parece aceitar todas as condições dos fantasmas logo na primeira aparição eliminando a dramaticidade do horror metafísico de Dickens. A partir daí, a jornada perde sentido e conteúdo para apenas subsistir a ação e o ritmo em videogame.

Ficha Técnica

  • Título: Os Fantasmas de Scrooge (Christmas Carol)
  • Diretor: Robert Zemeckis
  • Roteiro: Robert Zemeckis baseado no livro de Charles Dickens “Chistmas Carol”
  • Elenco: Jim Carrey, Gary Oldman, Colin Firth
  • Produção: Walt Disny Pictures, ImageMovers
  • Distribuição: Walt Disney Home Entertainment
  • País: EUA
  • Ano: 2009


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