Cinegnose

por Wilson Ferreira

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28 de Maio de 2016, 08h40

Caso Ana Hickmann, o suicida dos leões no Chile e a patologia dos nossos tempos

Na manhã do sábado, dia 21, um jovem se jogou nu na jaula dos leões em um zoológico no Chile falando frases desconexas de cunho religioso sobre ser filho de Jesus e a chegada do Apocalipse. No mesmo dia, à noite, a apresentadora Ana Hickman sofre atentado de um fã armado com um revólver em um hotel de luxo em Belo Horizonte. Entre frases também desconexas, o fã agradecia a Deus por ter ajudado a encontrá-la naquele hotel, até ser morto por um dos assessores. Quais as coincidências e sincronismos entre esses dois eventos em países diferentes? São apenas fatos isolados protagonizados por “lobos solitários”? Cada sociedade em sua época cria sua própria patologia. O sincronismo desses dois episódios apontam para a patologia da nossa época da sociedade das imagens e do espetáculo: relações fetichistas com pessoas, objetos e símbolos.

Como os leitores mais assíduos devem ter percebido, o Cinegnose se interessa bastante por recorrências, padrões e coincidências que possivelmente possam ocultar sincronismos. 

Por isso, no sábado, dia 21 de maio, dois eventos simultâneos em países diferentes chamaram a atenção deste blog. Sendo que o segundo, chegou a disputar espaço na grande mídia com a divulgação do escândalo da gravação de conversas telefônicas do senador Romero Jucá.

No Chile, um jovem chamado Franco Ferrada, supostamente com intenções suicidas, tirou suas roupas e pulou para dentro da jaula dos leões no Zoológico Metropolitano da cidade de Santiago. Falando frases desconexas, todas com motivos religiosos, se agarrou a um leão e passou a ser atacado pelos outros. Os leões foram sacrificados e o “suicida” levado ao hospital em estado grave.

Enquanto isso, em Belo Horizonte, a apresentadora da TV Record Ana Hickmann sofria um atentado em um hotel de luxo onde estava hospedada. Rodrigo Augusto de Pádua, 30 anos, rendeu o cunhado da apresentadora e invadiu o quarto dela. Este reagiu e entrou em luta corporal com o homem armado, desarmando-o e matando-o. A assessora de Hickman foi também atingida com dois tiros. Em seus perfis no Instagram e Facebook, Pádua demonstrava obsessão pela apresentadora fazendo dedicatórias de amor e mandando mensagens para ela. Inclusive uma foto do seu pênis.

De um lado, um suposto suicida chileno vivendo um delírio místico e messiânico (nas roupas foi encontrada uma carta dizendo ser um profeta, filho de Jesus Cristo e que o apocalipse havia chegado – a alusão ao relato bíblico de Daniel na cova dos leões é imediato); e do outro um stalker de celebridade com uma obsessão amorosa e que em sua cabeça achava estar vivendo um relacionamento com a apresentadora.

Desenhos encontrados com Ferrada: inspiração na narrativa bíblica de Daniel
na Cova dos Leões?

Semelhanças significativas

Além da coincidência dos episódios terem ocorrido no mesmo dia 21, há outras semelhanças significativas entre os bizarros eventos chileno e brasileiro:

(a) ambos os protagonistas estavam sob fascinação por um objeto de fetiche (do português feitiço, apropriado pela palavra francesa fétichisme, adoração ou culto de fetiches), seja religioso ou por uma celebridade;

(b) ambos foram levados pelo impulso de demonstrar publicamente seus sentimentos e obsessões;

(c) Os seus objetos de fascínio ou desejo eram externos a eles – Jesus e Ana Hickman;

(d) os protagonistas expressavam sintomas de desajustamento familiar e sociopatia: Franco Ferrada teve a mãe morta por câncer, dois irmão presos e foi interno do Servicio Nacional de Menores de Chile; Augusto de Pádua era desempregado e aos 30 anos era apegado à mãe e não saia de casa, a não ser para ir à academia de musculação – sua mãe afirmava que ele “lutava 24 horas contra um inimigo terrível”.

O que chama a atenção no sincronismo desses episódios é que não são meros eventos aleatórios ou fait divers – “fatos diversos” ou curiosidades bizarras, como se fala em jornalismo. Mas são verdadeiros sintomas de um tipo de patologia social cotidiana que se vulgarizou a ponto de se tornar um evento aleatório promovido por espécies de “lobos solitários” – atiradores, serial killers etc.

Freud e a neurose: cada sociedade cria sua própria patologia

 

Da neurose à esquizofrenia e fetichismo

Cada sociedade cria suas próprias patologias psíquicas: a era vitoriana de Freud produziu a neurose decorrente da repressão sexual de uma rígida ordem patriarcal; e a atual cultura sociedade das imagens e do espetáculo produz esquizofrenia e transtornos psicóticos na desordem da chamada família nuclear – ausência paterna física ou simbólica e ego vulnerável às pressões do meio social.

Tanto o chileno quanto o brasileiro viviam a compulsão em demonstrar publicamente sentimentos e obsessões, seja tirando a roupa diante de todos em um zoológico para viver uma fantasia religiosa, seja tirando as vestes psíquicas em perfis nas redes sociais  para viver uma fantasia de ter um íntimo e conturbado relacionamento com uma celebridade.

Pesquisadores como Richard Sennett chamam essa marca contemporânea de “ascetismo social” – ao contrário do monge que demonstrava sua fé a Deus na privacidade da sua cela sem pensar na sua aparência diante dos outros, hoje temos a necessidade de demonstrar a Deus ou aos outros os nossos sentimentos para demonstrar que se tem um eu que vale a pena – leia SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público.

Narcisismo em tempos difíceis

Esse “narcisismo de tempos difíceis” seria o drive psíquico das relações de fascínio fetichista por religiões e celebridades – no final tanto um como o outro possuem o mesmo mecanismo da regressão fetichista: adoração de objetos, pessoas ou símbolos tomados como encarnações de poderes mágicos, sobrenaturais ou ligados a entidades espirituais.

Mecanismo de inversão onde o homem, criador do objeto, é dominado por uma espécie de feitiço ou fascínio. Franco Ferrada quer reencenar diante de todos algum drama bíblico e se acha filho de Jesus – a celebridade religiosa com a qual quer ter uma relação pessoal para ter de volta aquilo que ele transferiu para o objeto fetiche – seus sentimentos, desejos e aspirações. 

Seu messianismo e a fantasia de ter uma relação íntima com Jesus esconde a sua impotência social, o fato de ser mais um zé ninguém e um desajustado – outro anônimo dentro de uma crescente estatística: 17,2% de chilenos que sofrem de depressão segundo a Organização Mundial de Saúde.

Enquanto isso, Rodrigo de Pádua vivia a relação de amor e ódio com uma celebridade-fetiche tão bem descritas por sociólogos clássicos como Theodor Adorno ou David Riesman – a celebridade confundida com afeição, e a fama com o amor. 


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