Cinegnose

por Wilson Ferreira

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24 de abril de 2010, 17h44

Por que o Filme Gnóstico é uma Tendência Norte-Americana? (Considerações Finais)

Enquanto no Velho Continente o Fantástico esteve associado às manifestações artísticas de vanguarda, nos EUA vai impregnar as formas de cultura populares chegando, no século XX, a criar um “sub-zeitgeist” representado por toda uma literatura de HQs, magazines, pulp fictions e gêneros fílmicos como sci-fi, horror e fantasia. O processo de massificação do fantástico culmina com o gnosticismo pop de filmes como Matrix e o Décimo terceiro Andar onde se associam a gnose com as novas tecnologias computacionais.

Dando continuidade à postagem anterior (clique aqui para ler), podemos chegar às seguintes conclusões sobre as diferenças marcantes entre Europa e Estados Unidos não somente sobre o desenvolvimentos dos elementos do Fantástico na arte como os destinos diversos do filme gnóstico:

1 – Enquanto na Europa o Fantástico sempre esteve associado às grandes manifestações artísticas e literárias de vanguarda (Romantismo, o Gótico, Expressionismo, Surrealismo, o Expressionismo alemão no cinema etc.), nos EUA, ao contrário, o Fantástico desde o início associou-se a formas culturais populares (narrativas puritanas sobre milagres na vida cotidiana no século XVIII, notícias bizarras ou sensacionais em magazines e livros de bolsos no século XIX – que vão munir autores como Poe e Emerson – renascimentos místicos/religiosos como Mormons e “Shakers” na virada do século, novamente o Fantástico nas HQs e pulp fictions nos anos 40 e 50 e o novo renascimento místico religioso nos anos 60 com todo comunalismo e utopismo.

2 – Se na Europa a Grande Arte esteve identificada com elementos do Fantástico, diferente disso, nos EUA as grandes manifestações artísticas em geral indificaram-se com a narrativa realista com forte influência do jornalismo como em Ernst Hemingway, Mark Twain, Truman Capote etc. Aliás, todo o processo de racionalização da cultura americana acaba confinando o Fantástico basicamente em três distintos gêneros populares: ficção científica, horror e fantasia. Dessa forma, cria-se uma espécie de “sub-zeitgeist” popular, distinto da Alta Arte, que vai percorrer todo o subterrâneo da cultura daquele país até última explosão mística-religiosa dos anos 60. A partir daí, o Fantástico vai se proliferar em vídeo-games, role-playing games, jogo interativo na Web etc.

3 – Dentro desse processo cultural de racionalização, o Fantástico sempre foi representado como uma ilusão, sonho, sempre uma estratégia de um personagem enganar outro ao fazê-lo acreditar que perdeu o juízo. A partir dos anos 70 (como reflexo do quarto “Grande Despertar” místico psicodélico dos anos 60) a produção cinematográfica começa a explorar esses elementos do fantástico de forma séria e sofisticada:

“Os filmes americanos da era pós-Star Wars começam a demonstrar interessantes, sofisticadas e irônicas imagens. A década de 80 viu , por exemplo, um furioso deus babilônico preso em um apartamento refrigerado em Nova York, sem o benefício de um plot racionalizante, no filme GhostBusters (1984) de Ivan Reitman, escrito por Dan Ackroyd e Harold Ramis; viu também o pós-moderno manequim morto-vivo no filme Beetlejuice (Os Fantasmas se Divertem – 1988) de Tim Burton escrito por Burton e Caroline Thompson; viu a trágica estória do garoto de metal Edward Scisorhands (Edward Mão de Tesoura, 1990) do mesmo diretor e escrito por Michael McDowell. Em todos eles percebemos uma mudança de forma e trans- e de-formação, concebidos principalmente com a ênfase muito mais na tecnologia do que na dimensão metafísica do fenômeno” (NELSON, Victoria. The Secret Life of Puppets. Havard University Press, 2001, p.97).

4 – Para além da fase cult dos filmes gnósticos europeus (como Zardoz com Sean Connery e O Homem Que Caiu na Terra com David Bowie nos anos 70) nos EUA o mix gnóstico (religioso, místico, alquímico e esotérico) chega ao mainstream hollywoodiano na década de 90 em filmes populares que vão compor o modelo de gnosticismo pop cujos filmes como Matrix representarão o auge dessa tendência.

5 – O quarto “Grande Despartar” convergirá a religião e o misticismo com as novas tecnologias computacionais como bem demonstrou Theodore Roszak. Os filmes gnósticos da década de 90 vão representar este utópico encontro entre tecnologia, gnose e transcendência em filmes emblemáticos como O Décimo Terceiro Andar e Matrix. Poderíamos propor a hipótese de que a popularização desse “sub-zeitgeist” gnóstico-místico-esotérico é racionalizado por Hollywood. Ao contrário do passado, o Fantástico é retirado do confinamento dos gêneros tradicionais (ficção-científica, horror e fantasia) para surgir em filmes como num drama como Vidas em Jogo (The Game, 1997) ou num western como Homem Morto (Dead Man, 1995). Mas o preço a ser pago é a ênfase na gnose na tecnologia, colocando em segundo plano os aspectos metafísicos ou filosóficos.

6 – Com a crise das empresas ponto com no ano 2000 e o refluxo de todo um imaginário messiânico da Internet e das novas tecnologias, assim como a crise das tecnologias de auto-ajuda inspiradas em modelos computacionais (o auto-conhecimento como um processo de reprogramação do software cerebral), temos um novo caminho aberto para os elementos do Fantástico dentro dos filmes gnósticos para as massas. Nesse século temos o questionamento recorrente das “tecnologias do espírito” (auto-ajuda e auto-conhecimento) e uma nova abordagem da gnose não mais com ênfase na tecnologia mas como uma jornada interior do protagonista confinado em alucinações, cisões esquizofrências e delírios induzidos por um Demiurgo. A lista de filmes gnósticos é extensa, mas podemos destacar os seguintes exemplos: a impotência dos psiquiatras em A Passagem (Stay, 2005), Ilha do Medo (Shutter Island, 2009) Identidade (Identity, 2003); a perplexidade da terapeuta e a pedofilia do autor de livros de auto-ajuda em Donnie Darko (Donnie Darko, 2001); a manipulativa forma terapêutica de apagamento digital de memórias em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004); o fracasso da tecnologia da empresa que vende “sonhos lúcidos” por não prever a irrupção do inconsciente em seu cliente no filme Vanilla Sky (2001). Em todos esses filmes o processo de reforma íntima não se confunde com auto-ajuda ou espiritualismo, abrindo margem para uma ênfase metafísica para a gnose.

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