Cinegnose

por Wilson Ferreira

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21 de dezembro de 2010, 15h05

Primeiro Aniversário do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”: Um Guia de Navegação (primeira parte)

Na tarde do dia 22 de dezembro de 2009 ia ao ar o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” com a primeira postagem “Filme Gnóstico – Uma Introdução”. Ao longo desse ano, o cinema se tornou o ponto de partida para o Blog empreender uma pesquisa mais ampla envolvendo as expressões não só do Gnosticismo, mas das formas de representações do sagrado e da religiosidade no audiovisual e na cultura pop. Diante do extenso material de postagem nesse período (foram 142 posts), decidimos, para comemorar o aniversário, elaborar um guia que auxilie os nossos fiéis 42 seguidores e visitantes a navegar através dos arquivos desse Blog.

A concepção desse Blog surgiu após a defesa da dissertação de mestrado “Cinegnose: a Recorrência de elementos gnósticos na recente produção cinematográfica (1995 a 2005)” na Universidade Anhembi Morumbi, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Vadico. Diante do extenso material que acabou não entrando na edição final da dissertação (análises fílmicas, ideias, conclusões etc.), alguns amigos sugeriram que fizesse um blog e apresentasse todo esse material.

Mas o principal fator que motivou a elaboração do projeto “Cinema Secreto: Cinegnose” foi a constatação de que a discussão sobre gnosticismo no cinema, audiovisual e cultura pop é inédita no Brasil. Mesmo no exterior, ou encontramos esse tema na Internet em sites com viés claramente conspiratório (gnosticismo com satanismo empreendendo uma gigantesca conspiração na mídia para manipular consciência a aceitarem a Nova ordem Mundial) ou os esforços isolados de divulgadores como Miguel Cooner e sua “Aeon Bytes Gnostic Radio” (empreendendo uma aproximação entre os filósofos gnósticos do início da era cristã e a mitologia pop constemporânea) e o professor de língua inglesa da Wake Forest University Erik Davis ( “Secret Cinema: Gnostic Visions in Film”).

No Brasil encontramos, por exemplo, aproximação das narrativas míticas gnósticas na literatura (por exemplo, a tese de doutorado de Claudio Willer “Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia” defendida na Faculdade de Letras/USP em 2008), ou a pesquisa sobre a história do Gnosticismo da profa. Marilia Fiorillo da USP e portais na Internet sobre Gnosticismo numa abordagem doutrinária. Mas nada que procure a presença dos elementos gnósticos na cultura pop contemporânea.

O tema é muito vasto e obscuro, e até, algumas vezes, tangencia com a teoria conspiratória: qual o propósito de narrativas míticas de seitas sincréticas do início da Era Cristã que davam uma interpretação mística de Cristo reaparecerem no cinema e na cultura pop atuais? Como o Gnosticismo (conjunto de ideias heréticas e desafiadoras ao status quo religioso e político) pode reaparecer em produções hollywoodianas e na cultura pop principalmente norte-americana? O ressurgimento do Gnosticismo não seria mais um sintoma dessa cultura pós-moderna New Age que mistura misticismo, espiritualismo com auto-ajuda e auto-conhecimento?

Essas questões acabaram norteando o trabalho de mapeando dos elementos do Gnosticismo no cinema, audiovisual e cultura pop feito por esse Blog. vamos tentar fazer um roteiro compreensível da trajetória de um ano das pesquisas do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”.


Gnosticismo, Teologia Negativa e Auto-ajuda

Se a Gnose é um processo de reforma íntima onde encontramos a iluminação espiritual dentro de nós, isso se confundiria com os processos de auto-conhecimento descritos pela literatura de Auto-Ajuda? Essa questão dominou a primeira etapa das pesquisas desse blog, ainda mais com a fundação do Spiritual Cinema Circle nos EUA pelo produtor Stephen Simon (“Amor Além da Vida” e “Em Algum Lugar do Passado”), produtor de filmes com alguns claros elementos gnósticos que se fundem com o viés motivacional da Auto-Ajuda.

De início precisávamos fazer uma clara distinção filosófica e metodológica entre a Gnose e o ideário do auto-conhecimento e auto-ajuda. Uma necessidade imperiosa, principalmente diante do crescente número de filmes com temáticas místicas, espiritualistas misturadas com clichês da literatura de auto-ajuda.

Fomos encontrar as ferramentas para alcançar esse objetivo através da tese de doutorado de Eduardo Losso (Teologia Negativa e Theodor Adorno da Faculdade de Letras da UFRJ) encontramos uma surpreendente conexão entre o filósofo Adorno e o Gnosticismo. Para Adorno tanto a Religião como a Ciência partilham de uma mesma lógica: a Teologia Positiva, isto é, a liquidação (adaptação ou renuncia) do indivíduo pelo Todo (Deus, Ciência, Razão, Sociedade). A Teologia Negativa ou “Herética” é o antídoto a essa lógica ao contrapor a verdade no indivíduo à falsidade da Totalidade. Enquanto a Auto-ajuda é uma forma de Teologia secularizada (todas as sua formas de “cura” e motivação se baseiam numa negação da verdade da dor individual tida como fonte de erro, pecado ou ignorância e a adaptação forçada à totalidade social ou corporativa), a Teologia Negativa no centro do Gnosticismo propõem a rebelião: a verdade está na dor individual que não deve ser “curada”, mas radicalizada até a Totalidade ser desmascarada como falsa.

Foi dentro dessa discussão que fizemos a análise de filmes como “Somos Todos Um”, “Perfume: a História de um Assassino” e “Fonte da Vida” e “Um Homem Sério”. A síntese dessa primeira fase do Blog veio com a postagem “Em Busca da Negatividade do Sagrado”.

Foi também nessa primeira fase que estabelecemos uma distinção crítica dentro do Gnosticismo: o Gnosticismo Alquímico e Cabalístico (veja o post “Gnosticismo cabalístico e Tecnognose: o atalho para a Gnose”). Enquanto no Alquímico temos a forma mais crítica e profunda de Gnose que pretende a iluminação por meio da existência física, no Cabalístico temos a busca do atalho através das tecnologias computacionais e virtuais (a Tecnognose). Forma ilusória de gnose porque superficial (sem ascese ou disciplina) e elitista (identificada com o mainstream tecnológico das grandes corporações e poderes da ordem globalizada).

Por que o filme gnóstico é uma tendência norte-americana?

Através de dois posts (“Por que o Filme Gnóstico é uma Tendência Norte-Americana” e “Por que o Filme Gnóstico… (considerações finais)” tentamos responder a essa questão que sempre me faziam onde apresentasse o tema sobre os filmes gnósticos. Vimos que, na verdade, o ressurgimento do Gnosticismo na era moderna foi europeu através da literatura romântica no século XIX, a Teosofia de Madame Blavastky, nesse mesmo século, e as ideias gnósticas no surrealismo e expressionismo no cinema e arte no século XX.

Porém, enquanto no cenário europeu o gnosticismo se restringiu a produções culturais de vanguarda ou “cults”, nos Estados Unidos temos o florescimento de um gnosticismo para massas: o resultado de um peculiar mix de religião e misticismo com origens nas formas literárias populares naquele país desde o puritanismo do século XVIII passando pelos períódicos renascimentos de religiosidade e misticismo como Mórmons e Pentencostais na virada do século XIX até o tecno-misticismo originado nos anos 60.

A chegada do gnosticismo na cinematografia hollywoodiana nos anos 90 foi uma consequência desse mix norte-americano entre misticismo e formas religiosas populares cristãs.

Além disso, exploramos algumas hipóteses sobre o proquê da tendência dos filmes gnósticos dentro da indústria hollywoodiana no post “Conspirações, Esquizofrenia, Sincromisticismo… Algumas Hipósteses para explicar o Filme Gnóstico” .

Gnosticismo para Crianças? Espontaneidade e
Indústria do Entretenimento.

A partir de dois posts (“Os Muppets e o Gnosticismo” e “Mister Maker: o Sabor Gnóstico para Crianças”) sugerimos a hipótese de que os elementos míticos do Gnosticismo já estavam também presentes em produtos culturais para crianças.

Seja em frases (“tudo o que você precisa já está dentra da sua mente” – Pink Dink Doo, Discovery Kids) ou na sensibilidade infantil metalinguística da série Mister Maker onde mitologias gnósticas se associam com conteúdos irônicos e auto-reflexivos.

Mas a principal reflexão veio do concurso do canal Discovery Kids em busca de novos apresentadores infantis: o tom de emergência e recrutamento parece denunciar uma secreta necessidade da indústria do entretenimento. Assim como o Demiurgo no campo cósmico, busca a Luz e energia espirituais de cada um de nós para por em movimento um design imperfeito e estático, da mesma maneira a mídia vai procurar formas de espontaneidade para dar movimento as formas-clichês vazias.

Disso resultou a análise de três personagens na história da indústria do entretenimento (Sid Vicious, Zina e o atual Charles Wikipédia do programa “Pânico na TV” – clique aqui), exemplos da instrumentalização da “espontaneidade” (do ponto de vista gnóstico, a “Luz” que trazemos em nós que nos liga à Plenitude) até o seu esgotamento.

A partir daí traçamos uma pequena história das diversas fases em que a indústria do entretenimento tentou captar e reter a espontaneidade de forma instrumental. Em duas postagens (clique aqui parte 1 e parte 2) estabelecemos algumas fases dessa busca da espontaneidade: a formação do star-system, a criação das celebridades, a exploração publicitária do erotismo, crianças e animais até chegar as formas esquizofrênicas atuais de trabalho do ator (fusão entre atuação profissional e vida privada) e a disseminação do reality show nos gêneros midiáticos.

Ad-Gnose: a Engenharia do Espírito na Publicidade

Se para o gnosticismo todo o drama cósmico pode ser resumido na estratégia do Demiurgo em aprisionar os humanos para extrair deles as fagulhas de Luz para por em movimento um universo feita a partir de formas etérias vazias e sem vida, esse mesmo princípio poderia ser aplicado em um estudo gnóstico da indústria do entretenimento e da Publicidade.

Da mesma maneira como a mídia procura novas formas de espontaneidade (a manifestação dessa luz espiritual em todos nós) para por em movimento estruturas-clichês vazias, da mesma forma a Publicidade vai buscar elementos cada vez mais profundos da natureza humana para dar movimento às estratégias de promoção e vendas.

Depois de a Publicidade atingir o comportamento e o subconsciente com as técnicas behavioristas e subliminares, e o inconsciente com as abordagens psicanalíticas, temos agora o ápice com uma verdadeira engenharia espiritual: a “Ad-Gnose” (Advertising + Gnosis). O alvo é o próprio espírito com as abordagens arquetípicas cada vez mais sofisticadas.

A Ad-Gnose propõe que o consumo seja menos o de produtos tangíveis e muito mais a oportunidade de experiências “emocionais”, “espirituais” e de “auto-conhecimento”. Nos vídeos publicitários a presença física do produto tende a desaparecer ou ser deslocada para segundo plano, colocando em destaque narrativas com temas míticos, fantasias, analogias etc (arquétipos). O consumo seria muito menos um ato de acúmulo e ostentação e mais uma oportunidade de buscar um atalho para a iluminação espiritual: comprar-consumir-espiritualizar-se.

Nas seis postagens onde desenvolvemos esse conceito (clique aqui para lê-las) vimos que, por serem registros mnemônicos da espiritualidade e da Luz da espécie, os arquétipos naturalmente aspiram à transcendência, isto é, à superação não apenas espiritual, mas o questionamento do próprio status quo social e político. Mas a Ad-Gnose, como toda a indústria do entretenimento, as captura e as confina dentro da razão instrumental.
  • Continua no próximo post

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