Cinegnose

por Wilson Ferreira

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22 de dezembro de 2010, 08h38

Primeiro Aniversário do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”: Um Guia de Navegação (segunda parte)

Hoje completamos um ano de atividades do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”: foram sete mil visitas (pouco, mas nada mal para um blog com temas tão obscuros!), 15 mil Page views e tempo de permanência médio de cinco minutos. Nesse período participamos da formação de um Grupo de Pesquisas sobre a Religião e o Sagrado no Cinema e Audiovisual na Universidade Anhembi (reportado por esse blog – clique aqui) e dois livros, diretamente ligados aos temas desse blog, foram publicados (“O Caos Semiótico” e “Cinegnose”) e a inserção do verbete “Tecnognose” no Dicionário de Comunicação da editora Paulus. Neste post, a segunda parte do Guia de Navegação para os nossos visitantes e seguidores se orientarem através dos arquivos do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”.

A Transcendência da experiência cinematográfica






Não apenas os elementos gnósticos explorados no cinema podem produzir a experiência do sagrado e da transcendência, mas o próprio médium cinema aponta também para uma possibilidade de transcendência. Na trilogia de postagens “A Experiência Cinematográfica pode ser Transcendente” ( parte 1, parte 2 e parte 3) desenvolvemos esse tema ao partirmos do conceito de transcendência da obra de arte em Adorno. Se toda obra de arte autêntica busca ultrapassar a si mesma, com o cinema temos a mesma natureza.


Vimos que o desenvolvimento tecnológico cinematográfico aponta para a superação dos próprios limites físicos da mídia cinema (o dispositivo elétrico/mecânico que capta imagens em movimento e som).


As experiências formais em edição e montagem foram a fundo na linguagem onírica e a evolução dos efeitos especiais até as atuais técnicas digitais fizeram o cinema transcender o próprio médium. Com a evolução dos recursos digitais, croma key etc., progressivamente o cinema ou a própria câmera foram se desconectando da realidade. Se no passado, o dispositivo cinematográfico partia do objeto real (atores, cenografia, iluminação etc.), hoje, cada vez mais, prescinde de um referencial “realista”. Todos os recursos digitais de edição, montagem, efeitos especiais, na medida em que se virtualizam, estão cada vez mais materializando o imaginário (mitologia, fantasias etc.). O espectador tem, à sua frente, a transformação em imagens de todos os mitos, sonhos e fantasias.

Nessa trilogia vimos as diversas formas de transcendência nos conteúdos cinemáticos e nas estruturas narrativas, e as formas que a indústria do entretenimento usa para conter a experiência transcendente no cinema comercial. O ímpeto da transcendência deve ser contido para evitar, no plano político, o questionamento do status quo. E no plano estético e comercial, evitar o choque da volta do espectador à dura rotina da sua vida: como retornar à normalidade cotidiana após a experiência de uma verdadeira experiência transcendente?

No blog Cinema Secreto: Cinegnose pretendemos, ao longo das nossas pesquisas e postagens, desenvolver um viés mais político em relação às noções de transcendência e Sagrado. Se todo o Gnosticismo pode ser traduzido como uma Teologia Herética que, ao longo da história, manifestou-se por formas não apenas estéticas ou artísticas de oposição, mas formas de confronto inclusive políticas (contra Igreja e Estado), a crescente recorrência de elementos gnósticos, religiosos e espiritualistas na produção fílmica atual só pode ser analisada dentro dessa visão: a possibilidade de a experiência cinematográfica trazer uma consciência ou percepção de mal estar frente ao status quo.

Cartografias e Topografias da Mente e a Agenda Tecnognóstica






Esse foi o último grande tema discutido nesse blog e apresentado dentro do VI Encontro Científico e de Iniciação Científica da Universidade Anhembi Morumbi (clique aqui).


Na verdade, o princípio desse tema já estava delineado nas Considerações Finais da Dissertação de Mestrado Cinegnose em 2009: com a entrada no século XXI testemunhamos o fim do modelo de Gnosticismo Pop presentes nos filmes Show de Truman e Matrix: o protagonista prisioneiro em uma realidade que, na verdade, é uma contrafação tecnológica, um mundo fabricado, virtual (veja esse assunto aqui). É a clássica narrativa gnóstica de um mundo criado por um Demiurgo (a tecnologia) para aprisionar seres humanos. Vemos um explícito e dramático confronto do humano contra uma divindade enlouquecida pelo poder espiritual e tecnológico.

Nesse início de novo século, a partir de filmes como “Vanilla Sky” e “A Passagem” temos narrativa gnóstica (Queda, aprisionamento, redenção) trazida para o interior do protagonista: a procura de um verdadeiro Eu oculto aprisionado ou perdido pelo esquecimento, dentro de um mundo paralelo onírico ou por limitações que impedem o autoconhecimento.


Ao mesmo tempo, o filme gnóstico do século XXI parece se sintonizar com o que denominamos por “agenda tecnognóstica”: agenda científica dominada pelas neurociências e ciências cognitivas que busca o modelo de simulação mais perfeita da dinâmica de funcionamento da mente e da consciência, tão perfeita que o mapa coincidiria com o território e a simulação substituiria a própria base orgânica da consciência.


Filmes como “Vanilla Sky” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” tematizaram criticamente essa possibilidade ao mostrarem que por trás dessa aspiração tecnognóstica escondem-se projetos manipuladores comerciais . De outro lado, filmes como “A Origem” e “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton fazem a apologia dessa agenda.

O conjunto de filmes gnósticos nesse início de século como Vanilla Sky (2001), Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2003), A Passagem (Stay, 2005), Sonhando Acordado (The Good Night, 2007), Ciência dos Sonhos (La Science Des Reves, 2006), A Origem (Inception, 2010), Almas à Venda (Cold Souls, 2009) e Alice no País das Maravilhas de Tim Burton (2010), refletiriam essa busca de uma “geografia interior”. Esse tema recorrente nesses filmes reflete essa agenda tecnocientífica que busca o mapeamento, cartografia e topografia da mente para finalidades ao mesmo tempo instrumentais e místicas. De um lado, a criação de um modelo virtual da mente e da consciência, aspiração última das pesquisas em Inteligência Artificial; e, do outro, a concretização da última interface da história da tecnologia (biológico/eletrônico, redes neuronais/redes digitais) para a concretização máxima do tecnognosticismo: a transcendência da matéria através da migração do Eu para ambientes virtuais (veja o post Cartografias e Topografias da Mente: de Vanilla Sky a Alice de Tim Burton).




Um olhar gnóstico para a cultura


Além desses blocos temáticos, o “Cinema Secreto: Cinegnose” preocupou-se em buscar uma interpretação gnóstica para eventos do dia-a-dia (esportes e cultura pop). Temas variados interpretados pelo ponto de vista da filosofia gnóstica como:






Filmes e Séries analisados
Para Erik Wilson (“Secret Cinema: Gnostic Visions in Film”), o filme gnóstico teria passado por três fases: antigos filmes como The Revenge of the Homunculus (Otto Rippert’s, 1916) sobre as trágicas conseqüências de um experimento alquímico mal sucedido; The Golem (de Paul Wegener’s, 1920) mostrando os trágicos resultados da magia cabalística; Frankstein (de James Whales, 1931) onde o tema é o fracasso gnóstico em transcender a matéria mortal. Segundo ele, estes antigos filmes eram “reacionários avisos” contra questionamentos sobre o que a sociedade supõe ser a realidade.

A segunda fase vem através do Gnosticismo Cult em filmes “de arte” principalmente nos anos 60 e 70 como “Zardoz” (1974), “O Homem Que Caiu na Terra” (The Man Who Fell to Earth, 1976), “Blow Up” (1966) e 8½ de Fellini (1963).


A partir de produções como “Blade Runner” de 1982 (baseado em obra do escritor de ficção científica gnóstico Philip K. Dick) temos a terceira fase com o filme gnóstico de massas: filmes com produções de bom orçamento, atores celebrizados pelas mídias de massa e enquadrados dentro de gêneros fixos tradicionais.


O Blog Cinema Secreto: Cinegnose privilegia análises dessa terceira fase cuja maioria dos filmes é norte-americana, com algumas exceções europeias. Mas o Blog também procurou analisar filmes com temas espiritualistas e místicos, sempre com o objetivo de observar as formas de representação da religiosidade e do sagrado na cultura de massas.



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