Cinegnose

por Wilson Ferreira

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09 de dezembro de 2009, 10h01

Primeiro lugar: o que é Gnosticismo e Gnose?

É um termo usado para designar todo um conjunto de seitas sincréticas de religiões iniciatórias e escolas de conhecimento nos primeiros séculos da era cristã. É também aplicado a renascimentos atuais desses grupos e, por analogia, a todos os movimentos que se baseiam no conhecimento secreto da “gnose”. Essa generalização pode levar a uma confusão, tornando a noção de “gnóstico” ou “gnosticismo” vaga e escorregadia. Pela natureza oculta do ensinamento gnóstico e pelo fato de muito material a respeito ser proveniente das críticas da ortodoxia cristã torna-se difícil uma descrição precisa dos antigos sistemas gnósticos. A descoberta, em 1945, dos textos gnósticos do século IV em Nag Hammadi (Egito) trouxe uma maior clarificação sobre a natureza do gnosticismo na Antiguidade, embora muitos concordem que o tema continue com muitos pontos dúbios (veja http://www.gnosis.org/naghamm/nhl.html).
Ao mesmo tempo, o chamado moderno gnosticismo tem se desenvolvido a partir das origens no Ocultismo do século XIX. Em meados daquele século, Eliphas Levy trás todo o espectro de assuntos do gnosticismo à luz do dia por meio da discussão da cabala judaica. Do pioneirismo de Levy, surge em cena a maior figura do renascimento do oculto: Helena Blavatsky que se tornou a figura embrionária do movimento espiritual alternativo não somente do século XIX mas de grande parte do século XX. A fundação da Sociedade Teosófica em 1875 por Blavatsky e o trabalho de seu devotado aluno G.R.S.Mead (tradutor especializado em textos gnósticos e herméticos), tornou o gnosticismo acessível ao público fora da academia, o que preparou o caminho para o gnosticismo para as massas no século seguinte.
Por isso o termo “gnosticismo” tem sido aplicada a muitas seitas modernas que têm acesso aos arcanos iniciáticos. Longe de trazer uma clarificação torna ainda mais impreciso o conceito, obstruindo a verdadeira compreensão histórica.
Alguns autores sugerem uma divisão entre o Gnosticismo Cristão ou Histórico (que fez uma interpretação heterodoxa ou mística dos Evangelhos) e o Gnosticismo Hermético (um conceito que se aplica a toda uma gama de escolas ou seitas que se baseia na “gnosis”, uma forma especial de conhecimento esotérico iniciático) . Outros afirmam que a imprecisão do conceito se deve às próprias origens sincréticas do Gnosticismo Histórico (um amálgama de platonismo, neo-platonismo, estoicismo, budismo, antigas religiões semiticas e cristianismo) . Stephan Hoeller, por exemplo, prefere falar em “atitude gnóstica” para explicar os sucessivos renascimentos ao longo da história:

“Consiste em uma certa atitude da mente, uma ambiência psicológica (…) um certo tipo de alma é, por sua própria natureza, gnóstica. Qualquer que seja o seu ambiente geográfico, cultural ou espiritual esta gravita inevitavelmente para uma visão de mundo gnóstica. Quando aquela predisposição ideológica encontra o estímulo de algum elemento de transmissão gnóstica, está fadado a surgir um renascimento” (HOELLER, Stephan A., Gnosticismo: tradição oculta. Rio de Janeiro: Nova Era, 2005, p. 155-156).

No entanto, alguns historiadores acreditam que a característica unificadora das diversas escolas e seitas é a significante influência budista/hinduísta nas re-interpretações da Bíblia, em particular do livro do Gênesis, através da adição de um prólogo original . Esta re-interpretação inclui tanto uma cosmogonia como um sistema moral, muito mais do que uma descrição factual da criação. Está delineado no clássico gnóstico “Apócrifo de João”. , um dos principais textos encontrados em Nag Hammadi. Este livro desenvolve todos os temas míticos sobre os quais os visionários gnósticos irão propor suas respostas. Escrito em torno de 150 DC, nele pode ser encontrado o mito da queda, criação e salvação. Para ele a origem da vida não está no Deus bíblico, mas em um radical e transcendente poder, uma divindade mais elevada e definida em termos tão abstratos que exclui todo antropomorfismo e envolvimento com o mundo. Para além desse mistério, encontram-se diversas emanações andrógenas, aeons, cada qual sendo uma manifestação única de suas origens. Juntos, as origens e suas manifestações compõem o Pleroma, a harmoniosa e espiritual plenitude. Um desses aeons, Sophia, rompeu o equilíbrio ao criar um novo ser sem a aprovação do grande Espírito ou de sua consorte. Esta turbulência produziu um ser ignorante, Ialdabaoth. Este, imediatamente, foi exilado no reino material fora do Pleroma. Sozinho no reino da matéria, estupidamente passou a acreditar ser o deus único e produziu um cosmos imperfeitamente baseado no Pleroma. Imediatamente cria anjos (archons) para governar o mundo e ajudar na criação do homem dando origem a um universo onde a matéria dividida está no lugar do espírito unificado e a desilusão substitui a verdade original. O próprio homem é moldado através da imagem perfeita do Pai e aprisionado neste universo imperfeito. A esperança está em que a Eternidade secretamente sempre alcança os homens e planta a partícula divina (pneuma) nas almas doentes e sofredoras. Temos o início de uma luta contínua entre os poderes da luz e da escuridão pela possessão dessas partículas. Elas somente serão ativadas no homem no momento de iluminação (gnose) onde tomamos consciência de sermos exilados das nossas origens, o Pleroma. A partir daí, rejeitamos as formas e convenções do plano físico como fantasmas de um pesadelo, como ilusões perpetradas por um deus que conspira contra nós.

“Do mesmo modo, a mãe também enviou para baixo o seu espírito, que é nela a semelhança e a cópia daqueles que estão no pleroma, pois é ela que preparará a moradia para os aeons que descerão. E ele os fez beber a água do esquecimento do chefe archon, para que não soubessem do lugar de onde eles tinham vindo Conseqüentemente, a semente permaneceu por algum tempo (lhe) atendendo, para que, quando o Espírito vier dos aeons sagrados, ele possa se elevar e ser curado da sua imperfeição, e para que assim todo o pleroma possa novamente se tornar um lugar perfeito e sagrado” (“O Apócrifo de João” IN: ROBINSON, James M. A Biblioteca de Nag Hammadi. São Paulo: Madras, 2007)

Os poderes de Ialdabaoth aprisionam o homem em um corpo material que bebe da água do esquecimento. Finalmente Cristo, outro aeon, é enviado para “salvar” (“curar” seria a palavra certa) a humanidade ao fazer as pessoas lembrarem-se das suas origens celestiais. Somente aqueles que tiverem o conhecimento (iluminação ou gnose) retornarão ao Pleroma; os outros serão reencarnados até alcançarem o conhecimento.
Veremos que essa cosmogonia e sistema moral será o ponto de partida das reflexões dos três principais filósofos do gnosticismo dos princípios da era cristã: Valentim, Basilides e Mani. Cada um deles vai oferecer um método diferente de resgate (gnose) desta partícula divina interior, criando uma espécie de mitologia que será recorrente no grupo de filmes gnósticos. No próximo post vamos discutir cada um desses métodos e como eles se manifestam no filme gnóstico.


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